domingo, julho 23

As promessas do decote

 

Sorri muito quando se encontram, beija-a nas faces, por vezes agarra-a carinhosamente pelo braço, mas enquanto trocam  palavras de circunstância ressoa-lhe no íntimo a mesma ideia: "Um dia destes vais prà cama."

Não compreende aquilo. Por certo é bonita, atraente, tem cabeça, mas são muitas as falhas. Sabe da têvê e moda mas não lê um jornal, livros só deve ter pegado nos que precisou para o curso, e esses não a prepararam para uma conversa que ultrapasse o comezinho.

Há ainda o particular das pernas. Olha-as e acha que, embora aceitável, a forma tem algo de  plebeu, uma grossura que as desfeia. Porém, de certo modo compensa-as o traseiro, bonito e firme, a pele aveludada, o esplendor do sorriso, as promessas do decote.

A diferença de idade – ela meados os vinte, ele a chegar aos setenta e cinco – deveria ser travão bastante, e de facto acontece-lhe rir de si próprio, prometer que se continua assim vai ao psiquiatra. Mas a verdade é que mal a vê, beija, segue com o "tudo bem?", e logo a voz interior  acende o desejo, reprime-se para não lamber os beiços, faz o que pode para ocultar o cio atrás da neutralidade da conversa.

- É estupidez, não é?

Para não me dar ares de sisudo, encolho os ombros, faço um gesto vago que o leva a continuar:

- Na minha idade devia ter juízo, mas estou certo que desejando uma coisa com bastante força ela acontece. Tenho muita fé nisso.

- Estás a brincar.

- Não estou.

Dias atrás no café. A rapariga toda sorrisos, ele apontando-lhe o dedo, nos olhos um brilho do hipnotizador, eu a fantasiar o que lhe diria.

Pouco depois vi-a acenar o adeus, ele veio até mim, passo lento, a boca em quarto minguante.

- E então?

- Não vais acreditar.

- Acredito.

O que me segredou é daquelas pauladas que um reformado não esquece, mas não o cura do sonho de querer levá-las prà cama.

 

 

sábado, julho 22

Nu e cru, mas com carinho

 

Dois bons amigos de longa data, um com onze anos de Portugal, o outro com trinta, puseram em livro as suas experiências e sentimentos da vida na nossa pátria. A tradução vai demorar, mas aos compatriotas que compreendem Neerlandês, aconselho que o leiam, pois se darão conta de que raras vezes nos dizem - com amizade e carinho - as verdades que doem.

sexta-feira, julho 21

À hora marcada

 

É terrível a frieza desumana dos regulamentos. Um telefonema a anunciar que esta tarde, à hora marcada, irei ao hospital assistir a uma morte. Seremos quatro, os que ela pediu que estejam presentes quando, como há muito espera, o médico finalmente a liberte do sofrimento e da indignidade.
Que palavras se dizem num momento assim? Para onde se olha? Que gestos fazer? Que sentimentos me assaltarão. Será que, como agora, ainda manhã, irei recordar boas e más ocasiões da nossa amizade? Ter pena? Sentir medo?
Restam-lhe ainda umas horas de vida e dou-me conta de que já falo no passado. Muito lhe faltou, porque não conseguiu o que desejava e o seu intelecto fazia esperar, mas recebeu a dádiva sem preço de um amor verdadeiro. Duas mulheres que a paixão uniu quando ainda era pecado e vergonha, e sem queixa sofreram o ostracismo das suas famílias e daqueles que aguardam até que a sociedade lhes manda que mudem de opinião.
Escrever isto pode parecer exibicionismo, o aproveitamento de uma tragédia, mas posso afirmar que o estado de espírito em que me encontro, e a proximidade da minha própria morte, me põem além do superficial. O terror e a solenidade de um momento assim não se partilha, tão-pouco traz alívio ou é desabafo o assinalá-lo.
Olho o relógio. Nunca as horas passaram tão depressa.

 

domingo, julho 16

À espera de Godot

 

O que agora só de longe a longe acontece, porque as pernas nem sempre obedecem ao que lhes mando, dias atrás sentei-me numa esplanada da vila a fazer horas para o almoço.

Olhares vagos, caras aborrecidas, corpos fatigados, conversa em sussurros, umas trinta pessoas na meia-idade em mesas de duas e três, a atitude de quem espera o improvável Godot, o personagem que nunca chega. Seguiam com os olhos um ou outro carro, um ou outro cão que se arrastava do sol para a sombra.

Ao anoitecer voltei à esplanada. Quase a mesma gente, o mesmo vazio no olhar, as caras mostrando igual aborrecimento, os corpos curvados agora num pouco mais de fadiga. De vez em quando uma frase, um murmúrio.

Sento-me. Oiço alguém dizer:

- Uma água!

O empregado, a mão apoiada à ombreira do café, parece despertar.

- E mais duas bicas – diz a mesma voz.

O rapaz leu nos meus lábios que lhe pedia cerveja, acenou um sim, e a passo arrastado  desapareceu no estabelecimento.

A carrinha fez mal a curva, galgou o passeio, duas vezes em marcha atrás lá se endireitou. Uma mão a segurar a bengala, com a outra tacteando o chão, um idoso senta-se às arrecuas na escada do tribunal. O taxista acendeu um cigarro, diz qualquer coisa aos colegas e ficam a olhar o céu. Um deles afasta-se do grupo, tira um pano da mala do carro, sacode o pó do pára-brisas, passa-o lentamente pelos faróis, o cromado, e outra vez pelos faróis. Sacode-o, dobra-o, fecha a mala, atira com o cigarro.

- O ar mudou! Se não me engano vem aí trovoada.

A mulher na mesa ao lado sorri-me ao dizer aquilo, concordo com um aceno, ela volta-se para a amiga e segreda qualquer coisa, ao mesmo tempo que lhe mostra o que tirou da bolsa.

Bebo o resto da cerveja, levanto-me, vou-me dali com a impressão de deixar um palco onde se representava uma peça de melancolia e desespero.