quinta-feira, abril 30

Tempo mal gasto

 

Tempo mal gasto, o de fazer balanços, olhar para trás, carpir derrotas, desilusões e contratempos. Mesmo a listagem de sucessos e benfeitorias não adianta nem conta, que o ontem irremediavelmente passou e, como às vezes se diz, o futuro a Deus pertence. Fica-nos o hoje, com alguns a remar contra a maré, outros deixando-se levar pela corrente, uns quantos fazendo o que podem para ver claro antes que a noite caia.

A isto se chama, e é, filosofar barato, mas talvez seja de algum conforto o descobrir que na luta diária são iguais para todos as armas com que nos defendemos do mais sorna e depravado dos inimigos: nós próprios.

quarta-feira, abril 29

O vazio e o oco

 

Pelo modo como a vida me tem corrido, questão genética, boas e más experiências, o caso é que me fascina a observação de certo tipo do meu semelhante, aquele que por destino, ou razões suas, leva da infância à cova uma vida de artifício num mundo que, muito  de longe a longe, me acontece roçar.

Falam de festas e metrópoles, cruzeiros, hotéis, o Breitling do primo, a suite do Four Seasons, o Mastino Napoletano que o Vieira tem na quinta, a semana que passaram naquele "fabuloso spa"…

Oiço-os e, como se sonhasse, aparecem-me através de uma névoa, as suas seguranças a contrastar com as minhas dúvidas, a sua jovialidade embatendo nas sombras que tenho. E não é questão de desdém, inveja,  ou animosidade do menos abonado, antes genuína surpresa de que seja possível existir assim, de ilusão em miragem, saltando do vazio para o oco, tomando por mundo a construção imaginada, chamando vida ao pendular dos seus baloiços.

Porém, feitas contas, têm eles mais razão e vantagem em ser assim, do que tenho eu em lhes criticar a superficialidade, pois se este mundo são dois dias melhor é gozá-los.

 

segunda-feira, abril 27

A técnica do beijo


Aos quinze anos a primeira namorada, a descoberta das carícias, das tremuras pelo corpo, a febre, os arrepios, o primeiro beijo.

Dias depois, a fumar num banco de jardim, ela disse aquilo com a naturalidade, o sorriso e o  modo desprendido de quem assinala uma ninharia:

- Não sabes beijar.

O verdadeiro choque viria mais tarde, mas de momento atirou com o cigarro, puxou-a contra si, como se quisesse grudá-los apertou os lábios contra os dela, ficaram assim até que a rapariga, zangada e estrebuchando, se libertou.

O boato tinha corrido, e das namoradas que a seguir teve, se uma ou outra se mostrou discreta, as mais não demoravam a censurar-lhe a ignorância e a falta de jeito.

Quente do sangue, caridosa de feitio, Luísa, mais velha um ano, mais alta um palmo, chamou-o uma tarde para um sessão de apalpões e, agradecida, disse que lhe ia ensinar como se beijava.

Ensinara uma dúzia de vezes, mas foi pena perdida, o trauma ficou. Com o correr do tempo, estrangeiras engatadas na praia, às vezes colegas, ligações de acaso, bar flies, acompanhantes para matar a solidão nas noites de hotel, mesmo as que se calavam lho faziam sentir, afastavam os lábios, algumas  escondendo discretamente o desagrado.

Já lhes tinha nascido o segundo filho quando uma noite, ambos a ver na televisão um filme em que Gwineth Paltrow era lenta, mas fogosamente, beijada pelo comparsa, é que a mulher, acendendo outro cigarro, o encarou sorrindo e disse:

- Este sabe beijar.

- E eu não sei?

- Não, querido. Não sabes - e num gesto carinhoso tinha-lhe passado o braço pelo ombro, depois fora buscar mais gelo, enchera de novo os copos.

 

 

domingo, abril 26

Raiva e amargura

Quanta raiva e amargura corre por aí, quanta danação, pragas, insultos, tanta certeza vã de que estes fazem mal, os outros fizeram bem, só a vitória do nosso clube é gloriosa, justa, porá isto direito, a funcionar como deve.

Já os de ontem o disseram e os de amanhã dirão o mesmo, como em todos os tempos o dizem os tolos, os mesquinhos, os do venha a nós, nunca a eles.

E eu, que não visto camisolas, não dou vivas nem morras, só tenho a bandeira da terra em que nasci e onde pertenço, olho em redor abismado com a malvadez, a estupidez, a ignorância que cega, o fanatismo que destrói, a impotência do ódio.

Assusta-me o modo como a minha gente julga esconder o pavor que sofre, imitando raivas e desdéns, sabendo que no fundo, bem no fundo, o que a atormenta são as incertezas, as incógnitas, a insegurança, a vontade de ter um futuro mas querê-lo único, bom, apenas seu, como se jamais tivesse sido possível fugir à realidade numa ilha, ou escapar ao mundo por detrás de muralhas.