domingo, março 30

Entre a espada e a parede

 

Um português a viver no estrangeiro, o meu caso há sete décadas, confronta por vezes situações que tornam complicada a sua maneira de reagir, vendo-se em certos momentos posto entre a espada e a parede, noutras a hesitar entre a franqueza e o que pode ser tomado por estupidez, ou pior: falta de patriotismo.

Se já era assim uns vinte anos atrás, as circunstâncias vieram complicar-se com o desmesurado interesse dos estrangeiros afortunados quererem ter casa em Portugal. Isso porque, fora o poupar-lhes dinheiro, oferece também uma, hoje em dia muito rara possibilidade: a de poderem reviver a situação privilegiada de casta superior, tal como a que gozaram os seus avós na época colonial.

Infelizmente não há bela sem senão, e embora a passagem de dinheiro vivo entre mãos resolva muitas situações conflituosas, ou oposição de interesses, uma ou outra surge em que a parte – neste caso o estrangeiro – que se sente prejudicada, quer recorrer à lei.

Começa ele então por contactar um advogado, que as mais das vezes, se não todas, lhe será recomendado como muito capaz, mas também na posse daquelas relações que aceleram o que, para o comum dos mortais, demora eternidades a resolver.

Julgando-se em bom caminho, vê-se o ingénuo no começo de uma bizantina via dolorosa. Informa-o o advogado que a lei que ontem vigorava, já outra a substituiu. Que o funcionário que decide está de baixa por tempo indeterminado. Que...

Cabe-me então – português e amigo – tentar justificar a bizantinice de muitas das nossas leis e regulamentos, mas também o poderio concentrado nas mãos e nos bolsos dos advogados e funcionários públicos.

Estranho é que, em vez de agradecer os conselhos que tinham pedido, mostram má cara, discordam, acham que desdenho e critico a terra onde nasci.

 

domingo, março 23

Nas nuvens

 

Além das mais que conhecidas, desagradáveis e previsíveis consequências que a acompanham – sei do que falo - a muita idade possui de vez em quando uma ou outra que inesperadamente se manifesta, parecendo ter como única finalidade, o desequilíbrio de certezas que se julgavam adquiridas, mas de um instante para o seguinte, felizmente passam à categoria de fata morgana.

É provável que de uma ou outra maneira sempre tenha sido assim, mas creio – de facto tenho a certeza – que para a geração que me antecedeu, e vivia em circunstâncias que em pouco se diferenciavam das do século dezanove, a máquina a vapor, a electricidade, o automóvel, a rádio e o telefone eram incríveis maravilhas.

Nesse ditoso tempo, nem mesmo o mais destemido dos visionários teria ousado imaginar a importância, o impacto, a profundidade do transtorno causado no nosso dia-a-dia. Decorre isso da verdadeira omnipresença e omnipotência, do que já não é somente aparelhagem, mas nos transcende. Funciona em clouds,  “nuvens” que na aparência existem para nosso uso e benefício, mas na realidade perturbam o entendimento, levando-nos a escorregar para a situação de escravos de um incorpóreo, mas assustadamente totalitário e poderoso senhor.

Sorrirão divertidos, pensando diferente, os que têm agora à volta dos trinta, certos de que quando chegarem à velhice não vão ser apanhados de surpresa pela modernidade que lhes calhar. Convencidos de que, venha o que vier, será sempre para melhor, mais sofisticado, proveitoso e acessível a todos.

Porque chega de sombras, e já foram ultrapassadas as suas profecias, serei o último a recomendar-lhes a leitura de O admirável mundo novo de Aldous Huxley.

 

quarta-feira, março 19

O grande Camilo

 

https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/camilo-a-forca-indomavel-das-letras-8440456

terça-feira, março 18

O meu Nordeste

 

Quando fui convidade para escrever sobre o Nordeste transmontano só vi prós, ceguei para os contras, pareceu-me que se por razões várias me constrangia a ideia de observar o país à lupa, para escrever sobre Trás-os-Montes bastaria a memória e olhar em redor.

Assim me pareceu, assim não é. Pouco tardou a que, feitas as contas e deitando mãos à obra, descobrisse que teria sido mais fácil refilar contra Portugal inteiro, do que ver-me a braços com a própria carne, a minha gente, as dores que escondemos, o mal e o bem que traz esta maneira transmontana, tão nossa, toda de repentes, dilacerados desde o berço entre o carinho e a fúria, a ânsia de partir e a praga de ficar, a liberdade e a prisão.

Julgando que se desprendem, mesmo aos que escapam para longe chega sempre a hora em que as raízes mostram a sua força, e lhes provam como é ilusório ir em busca doutro chão. Então, como se remissem uma culpa, já bem antes de sentir a morte vêm reservar campa no lugar onde nasceram, esquecida a jura de que nunca voltariam.

Boa gente, estranha gente, vivendo presa aos anseios dum tempo que passou. Pertenço-lhe, nela me revejo, incapaz de distinguir entre a bênção e o castigo, apenas certo de que ser transmontano, tanto como uma origem é um destino.

A mim há ocasiões em que um impulso me leva ao cemitério. Finjo que entro ali com um propósito, quando na verdade não sei o que me chama, pois sou pouco dado a expressões de pesar.

Paro nas campas dos meus, na dum ou doutro parente ou amigo, passo com respeito pelas viúvas que carpem dores sinceras, toco o ombro deste que, contrito e em lágrimas, todos os dias reza junto da campa da mulher a quem fez a vida negra.

Na minha imaginação vejo rostos, vem-me a memória de cenas, momentos, retalhos de frases, surpreendo-me a tomar parte em conversas com os que desapareceram, a perguntar-lhes se recordam isto, se ainda sabem aquilo.

Não guardo noção de quando de lá saio e demora a que as pessoas que encontro me pareçam reais. Isso que faz que, com algum desassossego, me pergunte depois quem são os mortos e se nós estamos vivos.