quarta-feira, outubro 27

Eça e este nosso tempo

Ando a reler O Egito de Eça de Queirós na minha velha edição de 1945, a capa cagada das moscas, como convém a um livro desses tempos históricos. E então, isto há coisas que nem de encomenda: ao arrumar o livro caem-me os olhos numa revista que há dias recebi, dou com a fotografia deste mancebo e involuntariamenre recordo o texto em que o velho mestre, com o saudável e desimpedido cérebro do seu tempo, fala da gente de Cádiz.





"O presente alavanca do passado"

"A língua deveria ser um elemento central da educação, para estimular a paixão das palavras que designam coisas e enriquecem o vocabulário de tal modo que Merleau Ponty dizia, segundo a revista,  que a riqueza da nossa experiência é proporcional à abundância ("luxuriance" ) do nosso vocabulário. Daí a importância do ensino correcto e exigente da língua e a Literatura. Desde o ensino básico." Aqui

terça-feira, outubro 26

Por respeito e compaixão

“No mundo confortável em que hoje vivemos, o relato objectivo não chega para se ter ideia do que era nos fins do século passado a pobreza e o primitivismo das aldeias de Trás-os-Montes. A imaginação também não basta. Para de certo modo ser capaz de aperceber a realidade de então, o leitor terá de regredir àquele abençoado estádio da meninice em que a alma com tudo se maravilha, e o espírito crítico, por incipiente, não intervém com dúvidas e suspeitas.

Até à minha mocidade pouco ou nada mudara ainda nas circunstâncias de Estevais, a nossa aldeia, e contudo, para reconstruir a vida do tempo, eu que a vivi tenho de me esforçar para impedir que as emoções falseiem as imagens e os momentos recordados, ou que a nostalgia afecte a memória. Vigio-me para que os alindamentos não sejam em demasia, nem entrem à socapa no testemunho.

 Alguns serão inevitáveis. Por respeito. Pela compaixão a que obriga a angústia dos que viveram sem sorte nem socorro, oprimidos pelos ricos e as autoridades, abandonados de Deus, sofrendo com as intempéries, que umas vezes os impediam de semear, outras vezes destruíam o que eles meses inteiros tinham sonhado colher. E com pouco pão, poucas batatas, poucas cebolas — esses eram os pilares da sua frágil mantença — aterrorizava-os a passagem dos dias, a certeza de que chegaria o momento inevitável em que os filhos passariam fome, em que de chapéu na mão teriam de ir, humilhados, pedir a algum vizinho ou parente abastado que lhes emprestasse o dinheiro para a sementeira.”

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in Ernestina - Quetzal, 2009

OE 2021

Segue você, cidadão, a parlapatice do OE 2021? Acha que aquilo, mesmo de longe, tem a ver consigo? Repare na cara dos parlapatões que o discutem, na prosa dos que o "explicam" e no vocabulário dos adivinhos que detalham o que vai acontecer se forem desfavoráveis as conjunções planetárias. 

Deus lhes acuda, que a nós nada nos salva da miséria. Os parlapatões, com esses é sempre como no "Titanic": empurram quem lhes impede o caminho e saltam para o salva-vidas.

segunda-feira, outubro 25

Buracos

Nessa altura trabalhava eu sob as ordens de Bernardo T., Charlie para os amigos, filho do proprietário do jornal, playboy cinquentão e herdeiro único de uma fortuna tão colossal que o seu rendimento salvaria as finanças de alguns países.

Avisado pela experiência anterior, cada vez que o ouvia referir-se ao seu «buraco» de Paris, eu imaginava qualquer coisa dez vezes maior que o verdadeiro buraco que em São Paulo me servia de domicílio. Mas mau grado a minha prudência e as cautelas que sabia ser necessário usar na interpretação das palavras dos muito ricos, no dia em que por razões que não interessa agora detalhar o fui procurar no «buraco», caí como plebeiamente se diz «de cu p’rò chão».

O «buraco» eram os dois últimos andares num prédio quase à esquina da Avenue de Wagram e da Étoile, encimados por um terraço tão sabiamente construído que, invisível da rua, oferecia uma soberba vista da cidade e do Arco do Triunfo.

Mais tarde, quando me coube o encargo de guardar a chave e uma vez por semana fazer o controlo da sua manutenção, é que de verdade pude apreciar as dimensões e luxo do «buraco». Nessa altura, porém, já pouco me fazia embasbacar e filosoficamente aceitava a realidade de que o mundo se dividia entre os que nada tinham, os que tinham alguma coisa e os que tinham muito.

A vida destes últimos, embora sujeita às contingências gerais das doenças, dos humores e dos acasos desastrosos, como que decorria num planeta diferente. E não me refiro ao conforto nem às facilidades que o dinheiro compra, mas a todo um comportamento e sistema de valores que só em aparência tinham alguma coisa de comum com os do mundo em que a minha vida decorria.

Entrar ou sair daquele e outros «buracos» equivalia a transmutações tão radicais que, muitas vezes, me perguntei se ler Alice no País das Maravilhas me seria útil para compreender a discrepância entre a minha existência e as que só pareciam verdadeiras no outro lado do espelho.

Allô!Allô!

Digam que será por ser segunda de manhã, o céu aqui em Amsterdam estar cor de chumbo, a Feira do Livro ter terminado sem tambores nem trombetas, ou porque a minha cabeça dá desagradáveis sinais de vazio, que me ocorreu uma pergunta simples, mas à qual talvez ninguém saiba responder: por onde andará a jovem literatura portuguesa? Porque não há por aí explosões de talento literário? Ou pelo menos romances de protesto, com sinais de uma juventude revoltada? Será que a comida vegan os amoleceu? O aquecimento do planeta lhes tirou a genica? Perdem tempo na praia à espera de ver o mar subir?

É que não tenho idade para sonhos nem para iniciativas, mas não haverá por aí alguém que pense uma maneira de dar um empurrãozito a esta tão triste afasia literária?