Nos muitos momentos de desânimo pergunto-me o que adianta recordar, pôr em
escrito as coisinhas miúdas que enchem os meus dias. Contudo, é nalgumas dessas
miudezas que, mais tarde, descubro uma espécie de conforto. Ou talvez seja
antes a resignação de aceitar o que sou, e não lastimar o que não cheguei a
ser.
Devido talvez a algum defeito genético, ou às circunstâncias em que vivo -
agarrado à língua materna, obrigado a usar outras no dia-a-dia - o meu cérebro
funciona como uma desgarrada máquina de traduzir. Tudo o que me preparo para
dizer traduz-lo ele automaticamente para Português, o que, além de cansativo,
causa por vezes hiatos na conversa, e de certeza dá aos meus interlocutores a
impressão de que sofro de afasia.