Voltei ontem dos confins transmontanos e os primeiros momentos do voo - um dia contarei porquê - foram dos mais comoventes que já vivi.
Hoje começo com um texto para pensar, à autora faço vénia e repito: You made my day. Aqui
Voltei ontem dos confins transmontanos e os primeiros momentos do voo - um dia contarei porquê - foram dos mais comoventes que já vivi.
Hoje começo com um texto para pensar, à autora faço vénia e repito: You made my day. Aqui
Fazer planos seria vaidade e um bocadinho ridículo, pois o que se aceita até tarde, digamos aí por volta dos oitenta, passada essa étapa é muito o que entra no domínio do nebuloso. Todavia, acontece por vezes que o inesperado, além da qualidade que se lhe atribui, ganha facetas que a uns parecerão bizarramente esperançosas, enquanto outros – entre esses me incluo – tendem para suspeitar que o acaso não existe, em tudo julgam sentir a presença de um espírito, não necessariamente maligno, mas dado a provocar estranhas reviravoltas.
Evitarei o chocho lugar-comum de que a minha vida dava um romance, pois todas o podem dar, basta que quem o escrever possua arte suficiente. O que acontece é que, “revisitando” uma e outra das peripécias que vivi ou testemunhei, me vejo a braços com o obstáculo de conciliar a recordação e o sentimento de incredulidade, como se o ficcionista em mim tente fazer passar por real, o que em demasia sei que foi imaginado. E vice-versa. Todavia ele, dispondo de qualidades fora do meu alcance, além de tão superiormente refinadas que Houdini cai do pedestal, estraga-me muitas horas que, fosse eu católico praticante, iria passar de joelhos no confessionário, pedindo a remissão dos meus pecados.
Julgando-se com mais apurado sentido do real, um ou outro a quem menciono a minha confusão aconselha-me a não fazer caso, porque dando tempo ao tempo tudo passa. E bem pode ser que a razão esteja do seu lado, mas eu não me posso dar o luxo de olhar para os meses do calendário, vivo atento aos ponteiros do relógio, perguntando-me quando chegará o instante a que os poetas chamam “o último suspiro”, e os escribas de obituários se aborrecem e rogam pragas, folheando jornais à procura de louvores.
É exagero, e dos grandes, mas a despeito do seu modesto metro e sessenta e dois, tudo para o Adalberto parece existir, ou acontecer, em função da extrema capacidade que possui de aumentar, ver em grande, nada ou pouco referir sem que deite mão a superlativos.
Há assim ocasiões em que, arrastado pelo entusiasmo, esquece que nem todos têm paciência ou apreciam ouvir tanto exagero, resultando daí uma ou outra desavença, com a costumeira troca de remoques e subentendidos. Mas é tudo entre amigos, a arrelia logo passa, ele próprio encolheu os ombros quando descobriu que lhe tinham mudado a alcunha de “Lupa” para “Telescópio”.
Contudo, tempos atrás, a amizade que vai em três décadas os une, esteve em risco de chegar ao fim. Aconteceu isso na noite em que ouviram o Adalberto anunciar que, com força de vontade e paciência de santo, tinha finalmente aprendido o suficiente da técnica da leitura labial, para ali no café, ou na rua até certa distância, compreender o que as pessoas dizem.
A primeira reacção foi de gargalhada, mas ele não levou a mal, mostrou-se cordato, explicou que era uma aprendizagem difícil, demorada, nada do tipo de procurar na internet e o Google dar uma ajudinha.
Fiel ao princípio de ver para crer – daí a alcunha de “São Tomé” – o Azevedo propôs que se fizesse uma experiência: ele e o Camilo iam encostar-se ao balcão, conversavam um bocado virados para o “Telescópio”, e assim se tirava a prova dos nove dele ser de facto capaz de ler os lábios à distância.
Contam os que assistiram, que só visto se acredita o banzé em que aquilo deu, e quantos braços foram precisos para segurar o “Telescópio”, que dizia ter “lido” se já saberia que tinha galhos, os acusados a jurar que só tinham dito que no dia-a-dia tudo são alhos e bugalhos.
"O que está em causa é suspeitar que Ronaldo pode ser a mais recente
defesa de uma das múltiplas variantes do pensamento de Roland Barthes e o
que me apercebo, no caso deste específico jogador, é da exemplar
construção de um mito que, como todos os mitos, heróis ou heróis
mitológicos, resulta da frustração que se encontra na ausência de Resposta, da falha (Barthes, o meu querido sábio, chama-lhe manque)
de um elemento agregador que possibilite a coesão de um povo, da
urgência, tantas vezes inconsciente, de local de partilha, um
lugar-comum que possibilite a resposta unânime do colectivo ao
desconhecido, ao inseguro, à treva e à sensação de incompletude vivida
no presente.
Ronaldo é assim a matéria-prima que enforma o mito encarado, barthianamente,
como contraponto a uma falha, a uma ausência colectiva de respostas e a
sua transformação em herói divino - já existe uma velhinha que afirma
ter largado as muletas, voltando miraculosamente a andar sem apoio,
quando caminhava para depositar flores aos pés da estátua do futebolista
- é quase imediata porque contém as qualidades essenciais aos heróis
mitológicos: é consensual, é grupal, pode ser mesmo societal, é comum, é
agregador, unificador, é passível de se tornar símbolo - sobretudo
inconsciente -, de um povo que teme a sua visível desconstrução e que
tem urgência de se edificar do nada, é identificador, é simples, é
reconhecido como o mais básico ideal de honestidade pura com rastos de
uma ingenuidade primeva, é a projecção estável de uma comunidade em
desequilíbrio, é a Resposta clara a uma falha sentida trágica e sem solução pela colectividade, sendo portanto capaz de se erguer como projecção mitificada de um povo.
Quando
todos pensam a mesma coisa, é porque ninguém pensa grande coisa ou
porque a coisa pensada foi tornada divindade e como todos os deuses, a
coisa assim pensada é moldada com o barro dos que a pensam." Aqui
É pena perdida vir com sorriso, grande abraço, pancadinha nas costas e palavras de conforto, a aconselhar-me que não dê atenção nem deixe levar pelo azedume. Que cuidado e caldos de galinha são sempre benefício, fora que com os anos que já carrego toda a cautela é pouca, pois às vezes um pequeno nada...
Resmungo o meu acordo em palavras de circunstância, e em pensamento remeto-os com outras para o ventre onde foram gerados.
Voltam eles então ao "tenho amigos da esquerda e da direita", frase tantas vezes lida e ouvida que involuntariamente lhe esqueço o significado e ponho a magicar no que subentende.
Garantias não dá, cabe na mesma lista daquela outra, "também tenho amigos homossexuais", a ênfase do também a reforçar a existência de uma imaginária virtude.
É coisa do princípio do meu mundo e, talvez porque sou do povo, arrelia que tenho com a chamada classe média portuguesa, que não é classe nem média, sim um corpo social amorfo, que por baixo toca o povinho e na outra ponta se quer fidalga, esquecendo, ou ignorando, que o verdadeiro brasão ganha-se, não se herda nem compra.
A esse tipo de gente, que vai do Zé da Mouca a D. Francisco de Rodrigães Penha d'Alembourg e Castedo – visconde de fancaria - , pouco me custaria fechar os olhos à vaidade, à jactância, à babosice, ao egoísmo de que dá mostra e provas, à infantilidade do comportamento, ao grotesco da sua necessidade de imitar.
O que não lhe perdoo nem esqueço é a alma de “secos e molhados”, o espírito mercantil e a escassez de vergonha, a ganância de comer a dois carrilhos, a habilidade acrobática de ter amigos em todos os pontos da rosa dos ventos da política e da vida.
A paciência é fingida mas remédio não existe, nem o Matias aceita que se lhe recuse atenção. E assim vá de imitar os comentadores da TV, detalhando pela enésima vez os fortes argumentos que a Rússia possui para se defender do belicismo dos que ele, usando uma expressão perdida no tempo, chama o “Eixo do Mal”.
Do que não tem dúvida, certo como dois e dois serem quatro, é que todos iremos sofrer, numa escala tão nunca vista ou sonhada que nem o Dilúvio serve para comparação. Imagine-se uma bomba atómica sobre Paris, Londres, Roma, Nova Iorque. Fica alguém vivo? Fica alguma coisa em pé?
A pergunta é sublinhada com um arregalar dos olhos, ao mesmo tempo que o braço erguido descreve um vagaroso círculo, parecendo querer assim dar ideia de como a catástrofe será total.
Julgo manter o papel de ouvinte interessado, mas de certeza sou fraco actor, porque ao mesmo tempo que baixa o braço leio-lhe no rosto uma expressão de desânimo, é então que, por simpatia, caio na asneira de o encorajar com banalidades e certezas que não possuo.
Porém, quanto mais faço para que anime, tenha esperança, o queira convencer de que o lado bom é muitas vezes o que leva a melhor, mais ele amua. Por fim, como se tivesse perdido a paciência de sofrer o meu optimismo, esquece a cordialidade do trato social:
- Claro que na tua idade tanto se te dá como se te deu! Mas eu tenho filhos e filhas na força da vida, vou ter netos, quero vê-los crescer num mundo melhor.
- Será o admirável mundo novo - digo eu sem ironia, supondo que conhece o livro de Aldous Huxley,
- Novo e muito melhor do que este!
O entusiasmo da sua concordância não me faz perder apenas uma ilusão, com ele reganho o melancólico sentimento de tantas vezes me ver atordoado, perdido em terra-de-ninguém.