domingo, junho 27

Com e sem fios

O primeiro comprei-o em 1996, o que deveria ser razão de sobra para me ter habituado ao "bicho", mas verdade é que em vez de se me tornar familiar e útil, o telemóvel caminha a passos largos para que o veja com ares de intruso, pelo que mexo nele o menos possível.

Cresci nos anos trinta, quando o telefone era uma maravilha de que poucos dispunham, e se na juventude o achei útil, o seu funcionamento dependia por vezes da telefonista que fazia a ligação. Em finais dos anos cinquenta, recordo ter lido que numa conversa em casa do escritor  Aldous Huxley, que vivia então em Hollywood, um cientista afirmou que não ia demorar a que cada pessoa trouxesse um telefone no bolso, o que levara alguns dos presentes a rir às gargalhadas e outros, irritados, a protestar que não apreciavam ser tomados por papalvos.

O milagre demorou umas décadas, mas hoje é o que se vê, e rara é a paisagem, seja ela urbana, familiar, a dos Alpes suíços, de Manaus ou das Aleutas, em que o telemóvel, além de presente, ganhe ares de figura principal. É tão corrente que se torna excessivo, anotar quantos casais entram num restaurante como se fossem estranhos, cada um indiferente ao outro, dando ao aparelho a atenção que numa sociedade civilizada e menos doente caberia ao parceiro.

Como uma coisa leva a outra, sobre isto de ligações com fios, sem fios e da internet das "nuvens", recordo por vezes uma outra história de telefones em tempos há muito passados.

O escritor realista Emile Zola (1840-1902) tinha feito fortuna com os seus romances, vivia na abastança e, grande vaidoso que era, decidiu que em Paris seria ele a primeira pessoa a instalar o telefone em casa. Essa primazia, contudo, não lhe pareceu suficiente, e para dar o máximo relevo à inauguração do aparelho decidiu que seria uma excelente ocasião organizar  um jantar em honra de Victor Hugo (1802-1885) personalidade de enorme prestígio e poeta de fama universal.

Ao fim do jantar, chegado o momento de demonstrar o aparelho, ouviu-se o retinir da campainha e Zola, inchado de vaidade, levantou-se para ir atender. Depois de ter trocado  umas quantas palavras pousou o auscultador e voltou triunfante para a mesa. Só que em vez do pasmo e aplauso que esperava viu que a cara de Victor Hugo era de poucos amigos e as suas palavras lentas e mordazes:

- Oiça, Zola, então se um patusco qualquer lhe quer falar liga para aqui, a campainha do  aparelho toca e você, como um criado de servir corre a atender? Acha isso decente? Perdeu a vergonha!"

sábado, junho 26

Profissões de sonho


 És jovem? Estás desempregado/a? O estudo não resultou numa situação brilhante, e o tempo a passar veloz já nem sonhas com alturas, mas aceitarias alegre um empregozito nas Finanças? No banco? Na Câmara?

Outra pergunta: nas horas em que te sentes libidinoso/a arregalam-se-te os olhos quando na televisão aparecem aquelas mocinhas que cantam e saltam excitadas, os bicos dos seios quase a furar a seda que os cobre? Sim?

Ainda bem! Esquece o banco, as Finanças, a Câmara, e sobretudo não desesperes! Existe desde há pouco nos Estados Unidos, e de certeza se irá espalhar pelo mundo, uma profissão de sonho, daquelas para que não é preciso ter estudado, financeiramente compensadoras, ainda por cima oferecendo satisfações inesperadas: a de nipple squeezer.

Como é compreensível, as estrelas e mais mocinhas não podem aparecer no palco aos saltos e aos gritos, mas com seios de biquinhos murchos. Por isso antes do show há que apertá-los massajá-los, excitá-los, fazer com que, arrebitados, se mostrem melhor. Ora como as donas dos mesmos, stressed e com outras preocupações não podem atender a tudo, chama-se o/a nipple squeezer.

Não acreditas? Julgas que brinco? Que crio falsas esperanças? Vai ler os contratos de Cristina Aguilera.

 

01.03.2204

 

sexta-feira, junho 25

Minuete

Na sala as luzes permanecem acesas. Deitado no palco um homem ressona, enquanto outro começa um discurso. Uma rapariga dá passadas incertas, pensa, suspira, hesita, finalmente tira a cuequinha, abre a braguilha do dorminhoco, puxa-lhe a coisa, monta-o, copula com ele a sério, longamente, até ao orgasmo.

Entram em cena mais personagens que, aos saltos, se vão dando pontapés e bofetadas. Nada de fingimentos ou stunts de filme, mas no duro. Partem-se copos, atiram-se vasos, racham-se cadeiras nas costas deste, noutro corpo aparece sangue de verdade. Vêem-se mais cópulas.

Continuam os pontapés, os socos acertam no alvo, esgadunham-se caras, puxam-se cabelos, corpos rebolam,  machucam-se as partes deste, os seios daquela. Lá para trás apercebem-se os vaivéns da sodomia, só que a confusão e o borborinho mal deixam distinguir. Alguns dos personagens vão pelas coxias, aproximam-se dos espectadores, olham-nos em silêncio, regressam ao palco, retomam a pancadaria e o fornicar.

Desculpem a expressão, mas já agora!... Ao longo de duas horas fodeu-se ali com entusiasmo, e o mesmo valeu para a porrada. Houve sangue e suor, lágrimas nenhumas. No final o público desvairou no aplauso.

Foi a première de um bailado moderno umas semanas atrás, no Stadschouwburg, a sala de teatro mais prestigiosa de Amsterdam. Oiça lá, o que é que estava a imaginar? O título é Blush, e por isso mesmo as luzes ficam acesas, para ver se o público cora.

No dia seguinte o coreógrafo revelou nos jornais a intenção profunda da sua obra: obrigar-nos a aceitar a realidade das nossas miseráveis vidas e admitir que a violência está presente em tudo.

Pensa você, por acaso, bater na namorada, na mulher? Na sogra? Talvez na mãe? Violar a vizinha? Tem a menina vontade de capar o gajo ou quebrar-lhe uma garrafa na cabeça? Prepara-se você para arrear as calças e sodomizar a cara-metade?

Não o façam à bruta, que isso é feio e passé. Sejam cultos. Comecem por um entrechat.   

 

(24.07.2003) 

 

 

quinta-feira, junho 24

Gente doutro planeta

 

Além dos confortos óbvios que oferece, a riqueza dos muito ricos, sobretudo a daqueles que a possuem há gerações, não somente lhes dá uma visão particular do mundo, mas concorre por vezes para alterar de maneira curiosa o significado das palavras que usam. Numa outra vida que paradoxalmente me parece recente e remota, estava eu em São Paulo numa festa em casa de amigos, quando um homem grisalho e de meia idade me começou a fazer o elogio da sua fazenda.

A conversa dos outros tinha mais interesse, mas apanhado pela dupla tenaz das boas-maneiras e do respeito devido aos anos do senhor, fiquei a ouvi-lo com impaciência e um sorriso de circunstância.

De vez em quando acenava o meu assentimento, e isso, juntamente com a fixidez dos meus olhos presos nos seus, por certo lhe parecia uma forma suficiente de diálogo, pois há quase uma hora me descrevia ele a beleza e vastidão da sua propriedade. Coisa oferecida pelo imperador D. Pedro a um seu avoengo - com um sorriso sublinhou o arcaísmo - em reconhecimento de grandes serviços prestados por esse maior - novo sorriso - na luta pela independência brasileira. Mais vasta que algumas provínc­ias de Portugal. Dezenas e dezenas e dezenas de quilóme­tros.

Ele próprio, segundo confessou, possuía um conhecimento imper­feito do tamanho das provínci­as do meu país, mas amigos seus tinham garantido que assim era. Embora outros pusessem o facto em dúvida. "Como português e homem de conhecimentos" eu parecia-lhe a pessoa indicada para com os próprios olhos ir "medir aquele mundo" e oferecer em seguida uma opinião irrefutável sobre se sim ou não a sua fazenda se poderia, por exemplo, comparar a Trás-os-Montes ou ao Minho.

Pareceu-me tal desaforo querer reduzir a minha querida província transmontana ao tamanho de uma fazenda brasileira que não hesitei no exagero. Tirante o Alentejo, uma antipática sucessão de estepes, disse-lhe eu, Trás-os-Montes era a mais vasta e imponente província portuguesa. Não se estendia por dezenas, mas centenas de quilómetros. Tinha grandes serras, como o Marão. Nela passava o Douro, soberano entre os rios da Península.

O senhor esboçou um gesto de desculpa, confessou-se surpreendido com a vivacidade da minha reacção e sinceramente contrafeito de que fosse tão escasso o seu conhecimento do "nosso Portugal, pátria comum".

Talvez a sua fazenda se não pudesse igualar "a essa esplendorosa província", mas a falar verdade não havia nela um, mas dois grandes rios, e uma serra tão alta e tão cheia de onças que ninguém tinha ainda ousado desbravá-la.

Foi a minha vez de ceder. O Minho, região de terras amenas e distâncias modestas, talvez se pudesse comparar a uma razoável fazenda.

- Lhe chamam o jardim de Portugal, não é?

Confirmei e ele teve um sorriso de desapreço, como se lhe desagradasse a ideia de que alguém pudesse associar o seu território com coisa tão pequena.

- Porque você não dá um pulo até lá, para ver? Fica uns dias.

Desculpei-me com o muito trabalho do jornal, mas logo ele sugeriu ir falar ao director, que noutro grupo discutia política, e exigir dele, seu íntimo, que me fosse dada uma folga.

Tive dificuldade em convencê-lo a que o não fizesse e por fim cedeu aos meus argumentos, mas o alívio de não ter de ir brincar aos agrimensores foi de pouca dura.

- Você trabalha no domingo?

Respondi que não, gracejando que a vida de jornalista, sem ser um mar de rosas, oferecia pelo menos a vantagem de se poder guardar o dia do Senhor.

- Então está resolvido - decidiu ele, contente. - Domingo você almoça lá na fazenda.

Sorri daquela ingenuidade e, a oferecer-me uma importância que não tinha puxei o fumo ao cigarro, perguntei se ele se dava conta que, mesmo de automóvel, eu levaria dois dias a fazer os seiscentos e pico quilómetros que separavam São Paulo do seu domínio. Mais os dois dias da volta. Por muito agradável que fosse o convite e honrosa a companhia, para um almoço parecia-me excessivo.

Ele encarou-me alheado, como se não tivesse ouvido, e em vez de reagir às minhas palavras chamou a esposa:

- Gabriela, chega aqui. Domingo o José vai na fazenda almoçar com a gente.

- Mas é impossível - tentei eu explicar. - Quatro dias...

A mulher encarou-me com um sorriso vazio e um desinteresse total pela minha presença e as palavras do marido, mas repetindo como um autómato:

- Que óptimo! Que óptimo!

- Então, Gabriela, você trata com o pessoal - ordenou ele. - E avisa Manuel e Georgina. José vai verificar para a gente se a fazenda realmente é tão grande como uma província lá do Portugal.

A mulher beijou-o na face com um entusiasmo de comédia e virou-nos as costas. 

Procurei chamá-lo à realidade:

- Oiça, mesmo com a melhor vontade do mundo e licença do director eu não posso gastar quatro dias...

- Que besteira é essa de quatro dias que você continua falando? Duas horas, rapaz! Eu mando o avião te pegar e ele te deixa mesmo diante da porta. Tem pista.

Assim aprendi que, usadas por um mortal de bolsa modesta ou um multimilionário, as mesmas simples palavras com que se convida alguém para almoçar, encerram mais que a diferença entre dois mundos.