Além
dos confortos óbvios que oferece, a riqueza dos muito ricos, sobretudo a
daqueles que a possuem há gerações, não somente lhes dá uma visão particular do
mundo, mas concorre por vezes para alterar de maneira curiosa o significado das
palavras que usam. Numa outra vida que paradoxalmente me parece recente e
remota, estava eu em São Paulo numa festa em casa de amigos, quando um homem
grisalho e de meia idade me começou a fazer o elogio da sua fazenda.
A
conversa dos outros tinha mais interesse, mas apanhado pela dupla tenaz das boas-maneiras
e do respeito devido aos anos do senhor, fiquei a ouvi-lo com impaciência e um
sorriso de circunstância.
De
vez em quando acenava o meu assentimento, e isso, juntamente com a fixidez dos
meus olhos presos nos seus, por certo lhe parecia uma forma suficiente de
diálogo, pois há quase uma hora me descrevia ele a beleza e vastidão da sua
propriedade. Coisa oferecida pelo imperador D. Pedro a um seu avoengo - com um
sorriso sublinhou o arcaísmo - em reconhecimento de grandes serviços prestados
por esse maior - novo sorriso - na luta pela independência brasileira. Mais
vasta que algumas províncias de Portugal. Dezenas e dezenas e dezenas de
quilómetros.
Ele
próprio, segundo confessou, possuía um conhecimento imperfeito do tamanho das
províncias do meu país, mas amigos seus tinham garantido que assim era. Embora
outros pusessem o facto em dúvida. "Como português e homem de
conhecimentos" eu parecia-lhe a pessoa indicada para com os próprios olhos
ir "medir aquele mundo" e oferecer em seguida uma opinião irrefutável
sobre se sim ou não a sua fazenda se poderia, por exemplo, comparar a
Trás-os-Montes ou ao Minho.
Pareceu-me
tal desaforo querer reduzir a minha querida província transmontana ao tamanho de
uma fazenda brasileira que não hesitei no exagero. Tirante o Alentejo, uma
antipática sucessão de estepes, disse-lhe eu, Trás-os-Montes era a mais vasta e
imponente província portuguesa. Não se estendia por dezenas, mas centenas de
quilómetros. Tinha grandes serras, como o Marão. Nela passava o Douro, soberano
entre os rios da Península.
O
senhor esboçou um gesto de desculpa, confessou-se surpreendido com a vivacidade
da minha reacção e sinceramente contrafeito de que fosse tão escasso o seu
conhecimento do "nosso Portugal, pátria comum".
Talvez
a sua fazenda se não pudesse igualar "a essa esplendorosa província",
mas a falar verdade não havia nela um, mas dois grandes rios, e uma serra tão
alta e tão cheia de onças que ninguém tinha ainda ousado desbravá-la.
Foi
a minha vez de ceder. O Minho, região de terras amenas e distâncias modestas,
talvez se pudesse comparar a uma razoável fazenda.
-
Lhe chamam o jardim de Portugal, não é?
Confirmei
e ele teve um sorriso de desapreço, como se lhe desagradasse a ideia de que
alguém pudesse associar o seu território com coisa tão pequena.
-
Porque você não dá um pulo até lá, para ver? Fica uns dias.
Desculpei-me
com o muito trabalho do jornal, mas logo ele sugeriu ir falar ao director, que
noutro grupo discutia política, e exigir dele, seu íntimo, que me fosse dada uma
folga.
Tive
dificuldade em convencê-lo a que o não fizesse e por fim cedeu aos meus
argumentos, mas o alívio de não ter de ir brincar aos agrimensores foi de pouca
dura.
-
Você trabalha no domingo?
Respondi
que não, gracejando que a vida de jornalista, sem ser um mar de rosas, oferecia
pelo menos a vantagem de se poder guardar o dia do Senhor.
-
Então está resolvido - decidiu ele, contente. - Domingo você almoça lá na
fazenda.
Sorri
daquela ingenuidade e, a oferecer-me uma importância que não tinha puxei o fumo
ao cigarro, perguntei se ele se dava conta que, mesmo de automóvel, eu levaria
dois dias a fazer os seiscentos e pico quilómetros que separavam São Paulo do
seu domínio. Mais os dois dias da volta. Por muito agradável que fosse o
convite e honrosa a companhia, para um almoço parecia-me excessivo.
Ele
encarou-me alheado, como se não tivesse ouvido, e em vez de reagir às minhas
palavras chamou a esposa:
-
Gabriela, chega aqui. Domingo o José vai na fazenda almoçar com a gente.
-
Mas é impossível - tentei eu explicar. - Quatro dias...
A
mulher encarou-me com um sorriso vazio e um desinteresse total pela minha presença
e as palavras do marido, mas repetindo como um autómato:
-
Que óptimo! Que óptimo!
-
Então, Gabriela, você trata com o pessoal - ordenou ele. - E avisa Manuel e
Georgina. José vai verificar para a gente se a fazenda realmente é tão grande
como uma província lá do Portugal.
A
mulher beijou-o na face com um entusiasmo de comédia e virou-nos as costas.
Procurei
chamá-lo à realidade:
-
Oiça, mesmo com a melhor vontade do mundo e licença do director eu não posso
gastar quatro dias...
-
Que besteira é essa de quatro dias que você continua falando? Duas horas,
rapaz! Eu mando o avião te pegar e ele te deixa mesmo diante da porta. Tem
pista.
Assim
aprendi que, usadas por um mortal de bolsa modesta ou um multimilionário, as
mesmas simples palavras com que se convida alguém para almoçar, encerram mais
que a diferença entre dois mundos.