segunda-feira, outubro 7

A técnica do beijo


Aos quinze anos a primeira namorada, a descoberta das carícias, das tremuras pelo corpo, a febre, os arrepios, o primeiro beijo.
Dias depois, a fumar num banco de jardim, ela disse aquilo com a naturalidade, o sorriso e o  modo desprendido de quem assinala uma ninharia:
- Não sabes beijar.
O verdadeiro choque viria mais tarde, mas de momento atirou com o cigarro, puxou-a contra si, como se quisesse grudá-los apertou os lábios contra os dela, ficaram assim até que a rapariga, zangada e estrebuchando, se libertou.
O boato tinha corrido, e das namoradas que a seguir teve, se uma ou outra se mostrou discreta, as mais não demoravam a censurar-lhe a ignorância e a falta de jeito.
Quente do sangue, caridosa de feitio, Luísa, mais velha um ano, mais alta um palmo, chamou-o uma tarde para um sessão de apalpões e, agradecida, disse que lhe ia ensinar como se beijava.
Ensinara uma dúzia de vezes, mas foi pena perdida, o trauma ficou. Com o correr do tempo, estrangeiras engatadas na praia, às vezes colegas, ligações de acaso, bar flies, acompanhantes para matar a solidão nas noites de hotel, mesmo as que se calavam lho faziam sentir, afastavam os lábios, algumas  escondendo discretamente o desagrado.
Já lhes tinha nascido o segundo filho quando uma noite, ambos a ver na televisão um filme em que Gwineth Paltrow era lenta, mas fogosamente, beijada pelo comparsa, é que a mulher, acendendo outro cigarro, o encarou sorrindo e disse:
- Este sabe beijar.
- E eu não sei?
- Não, querido. Não sabes - e num gesto carinhoso tinha-lhe passado o braço pelo ombro, depois fora buscar mais gelo, enchera de novo os copos.

sexta-feira, outubro 4

Cais de Gaia


Perguntava-se se seria começo de doença, as visões inesperadas daquele rosto de jovem desconhecida, que lhe surgia num espaço impossível de localizar, insólito ecrã tridimensional, em simultâneo no cérebro e fora dele.
Ruiva, pequeninas sardas na pele muito branca, olhos entre o cinzento e o verde, a expressão extática de quem olha desinteressada do que vê. Conhecia-lhe o rosto, imaginava o corpo, as atitudes, surpreendia-se a interrogá-la com a seriedade de quem aguarda resposta. Uma noite de insónia, fantasiando sobre milagres e aparições, na esperança de vê-la animar-se, ao mesmo tempo que a observava desatou a rir.
Felizmente vive sozinho, não tem de dar contas nem explicações.
Tarde quente. Está numa esplanada no Cais de Gaia, desinteressado da vista, atentando vagamente no público, estrangeiros em maioria, este dando na vista pelo traje, aquele pela boçalidade, um outro exagerando a admiração pela ponte, o colorido da Ribeira.
O casal sentara-se na mesa ao lado. Gente serena na meia idade, falando o inglês cuidado de quem passou por boa escola. Não lhes via as feições, mas com a proximidade apanhava uma ou outra frase, compreendeu que falavam de doenças, de alguém que recentemente falecera, da precisão de obras numa casa.
Minutos depois, ao pediram a conta à empregada, a mulher voltou-se, e ao vê-la de perfil não pôde acreditar: era, com mais anos, mas indubitavelmente, o rosto das suas visões. As mesmas sardas, o cabelo igual, os olhos entre o verde o cinzento. Os olhares cruzaram-se, a  mulher a encará-lo desinteressada, no rosto a expressão extática que tão bem conhecia.

quinta-feira, outubro 3

Esmolas


Tinham-se habituado a aceitar esmolas um do outro. Há quatro ou cinco anos, pensava ela, às vezes contando pelos dedos, hesitante, a perguntar-se se deveria acrescentar um, tirar um.
Desde a primeira noite, dizia-se ele. O choque do momento presente como uma cicatriz. Não tinha sido a revelação de que o corpo nu correspondia mal à imagem que se fizera, mas algo como um odor desagradável, um modo que lhe desconhecia, banal e grosseiro, a querer tentá-lo com seduções toscas, cópia sabe Deus de que mau filme.
Cumpriam o ritual, faziam os gestos, no momento certo diziam-se as frases, remavam o barco  em lago sereno. As gémeas nasceram, depois o rapaz, e acharam que bastava.
Podia ter sido ele, porque a sua decepção era grande, talvez a maior. Sentia-se espoliado de sonhos, esperanças, de vivências e aventuras, a imagem que lhe vinha era a de uma névoa em que lentamente sufocava.
Mas foi ela a primeira a trair. Um acaso, encontrando sem se dar conta que procurava, o estranho a revelar-lhe a pobreza em que vivia, a esmola que se habituara a receber, aquele "Meu amor! Meu amor!", gritado no mesmo tom, no mesmo instante.
O homem possuiu-a com certezas de macho, dando o que ela esperava, enchendo o vazio a que se habituara e lhe doía, despedindo-se sem promessas.
É um automatismo, aquele contar pelos dedos. Sete meses e meio? Oito?
Vêm-se às sextas, ao fim da tarde. Há-de-lhe perguntar.  

quarta-feira, outubro 2

As sombras do fim


É grande alívio depurar o passado. Ou tentar esquecê-lo. Limar as arestas dos momentos que perturbam o sono e se tornam pesadelo.
Ambos sabiam que não era amor, nem sequer amizade, pura e simplesmente ataques de luxúria, brutais, erupção vulcânica de sentires que desconheciam, a cama um campo de batalha, cada encontro uma luta de feras.
A primeira vez ainda tinham imitado beijos, fingindo carícias e ternuras, mas perderam-se no momento em que o acaso lhes fizera descobrir que procuravam o mesmo, que não tinham de esconder nem dar-se tréguas.
Uma tarde, deitados lado a lado, ofegantes, exaustos, viu-a sorrir e quis saber.
- Nunca me teria passado pela cabeça – respondeu ela.
Apertou-lhe a mão, ela correspondeu entrançando os dedos nos seus. Esse, recordaria ele muito depois, tinha sido um dos raros momentos de confidência, quase de ternura.
Respeitou-lhe a vontade quando ela disse que não voltaria, que é melhor decidir o fim do que aguardar que ele nos surpreenda e magoe.

segunda-feira, setembro 30

Solidão


Oiço esta manhã na rádio que, segundo uma estatística, um milhão de holandeses confessa sofrer de solidão.
Como é possível, pergunto eu, se só vejo gente agarrada ao telemóvel, às vezes dois, em comunicação constante, a mostrar a pressa de quem vive, não apenas uma vida, mas três ou quatro? Será teatro? Será que fingindo conversar e rir com outros, o que vemos na rua são conversas de fala-só?
Se assim é vai mal a coisa, mas talvez não seja: na semana passada uma outra estatística informava que 90% dos mesmos holandeses se consideram felizes. 
Compreenda quem puder.

sábado, setembro 28

Remédios

Nunca fui bom na matéria, mas em vez de ganhar em senso e prudência, cada vez tenho mais dificuldade a fazer de modo que não se me leia na cara o que vai no coração. Por isso grande é o meu contentamento cada vez que, numa situação que o pede, consigo o facies do clássico jogador de póquer.
Assim é que semanas atrás me vi defronte do cardiologista que anualmente controla o funcionamento da máquina, e ele, explicando os porquês, sugeriu uma mudança de comprimidos.
Ouvi os argumentos, mas, curioso de saber mais e presto na investigação, fui-me ao Google a estudar os prós e contras da nova mezinha. O remédio fazia bem assim e assado, mas aumentava também em 36% o risco de ataque cardíaco. Franzi o sobrolho.
Visitei o meu médico pessoal e ele, que me trata há dezenas de anos e conhece bem, mostrou-se  franco à quase sempre contundente maneira holandesa
- Num homem de cinquenta seria um risco, mas na tua idade poderás viver dois ou três anos menos, mas com melhor qualidade de vida.
Consegui o fácies correspondente, despedimo-nos, perguntei-me que melhor qualidade de vida posso desejar do que esta que tenho, em que só os remédios me assustam?