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quarta-feira, julho 17
terça-feira, julho 16
De Eça e Fialho
Ainda acerca de "Os Maias", esta carta de Eça de Queiroz a Fialho de Almeida:
Eça de Queiroz
"Meu caro Fialho
Os franceses falam muito do espalhafato que faz Satanás,
quando o mergulham dans un bénitier. Eu nunca assisti
a esta escandalosa afronta feita ao venerável pai da mentira; nem você também,
suponho eu. No entanto imagina você bem como Belzebu berrará e escoucinhará, ao
sentir o contato untuoso do detestado líquido. Pois, querido amigo, assim eu
escoucinhei e berrei, enquanto você, com mão dura e forte, me estava mergulhando
na água benta da sua crônica sobre “Os Maias”.
Você concordará que esta analogia é rigorosa. Eu, com efeito, represento para você satanás, o pai de toda a falsidade. Eu sou aquele mafarrico que escolhe, para personagens do seu livro, não sei que janotas petulantes e estrangeirados, em vez de dar, nessas páginas, o lugar preeminente ao Marquês da Foz, aos empreiteiros das obras do porto de Lisboa, aos rapazes beneméritos que foram premiados na escola; aos construtores do bairro Estefánia, ao Conselho de Estado, etc. etc. Eu sou aquele porco sujo que pretende que as mulheres de Lisboa têm amantes, e que, nos jantares de sociedade, em vez de discutirem Hegel, o positivismo, e a psicologia das religiões, falam de criadas e de cabeleireiros! Eu sou aquele gênio da maledicência, que afirma que os esplendores da Avenida são talvez inferiores aos da Via Ápia, e que a sociedade que a freqüenta não é talvez nem a mais culta nem a mais original do universo, etc., etc., por aí além.
Você concordará que esta analogia é rigorosa. Eu, com efeito, represento para você satanás, o pai de toda a falsidade. Eu sou aquele mafarrico que escolhe, para personagens do seu livro, não sei que janotas petulantes e estrangeirados, em vez de dar, nessas páginas, o lugar preeminente ao Marquês da Foz, aos empreiteiros das obras do porto de Lisboa, aos rapazes beneméritos que foram premiados na escola; aos construtores do bairro Estefánia, ao Conselho de Estado, etc. etc. Eu sou aquele porco sujo que pretende que as mulheres de Lisboa têm amantes, e que, nos jantares de sociedade, em vez de discutirem Hegel, o positivismo, e a psicologia das religiões, falam de criadas e de cabeleireiros! Eu sou aquele gênio da maledicência, que afirma que os esplendores da Avenida são talvez inferiores aos da Via Ápia, e que a sociedade que a freqüenta não é talvez nem a mais culta nem a mais original do universo, etc., etc., por aí além.
Por outro lado a sua crónica, meu caro Fialho, é uma bela
pia de mármore, cheia a trasbordar de água benta da virtude, do Patriotismo, e
da fé em Lisboa como capital da civilização. E,
portanto, o que você fez, com a sua costumada veemência, foi plonger
le diable dans un bénitier. Daí os berros e os couces.
Couces e berros, sobretudo de espanto. Porque enfim, eu
tudo podia esperar do seu espírito, tão impressionável e ardente, menos essa
atitude de pudicícia ofendida e de magoado patriotismo. O que era com efeito de
esperar, dada a sua índole e os seus escritos, era que você criticasse o
livreco, sob o ponto de vista do próprio livreco; e que, como legionário da
mesma legião, ocupado também neste belo trabalho da literatura contemporânea,
que consiste em fazer o inquérito experimental das sociedades, me censurasse
só por os meus golpes não serem bem destros, nem bem certeiros, nem bem úteis,
nem bem claros, nem bem eficazes. Mas vê-lo de repente surgir no campo inimigo,
com uma sobrecasaca séria de conselheiro de Estado, gritando — “Em Lisboa não
se deve tocar! Tudo aqui é puro, belo, e grande! Vergonha ao maldizente que
ouse rir da cidade incomparável, perfectissima Urbs!” — eis o que
verdadeiramente me assombrou! Por que tão singular mudança? Ó Fialho, foi você
eleito diretor-geral de um Banco? É você o inspirador de um sindicato? Recebeu
você, das mãos do monarca, a grã-cruz de São Tiago? Está você diretor-geral de
uma grande repartição do Estado? Que interesse supremo o fez aliar-se ao
Conselheiro Acácio? Está você, por acaso, apaixonado pela mulher de Acácio, e
finge-se assim pudico, ordeiro e patriota, para lisonjear o benemérito e
cornudo homem… Sapristi, je crois que j’ai touché juste!
Nessa sua crônica sobre “Os Maias”, Fialho, há uma mulher!! Se assim é, (e
estou certo que é assim) como você deve ter sofrido, pobre amigo! Conheço essa
situação, é medonha!… É ela ao menos bonita, e cochonne?
Sério, sério — a sua crônica, escrita com a sua costumada
verve, espantou-me. Que você fizesse ao calhamaço um enterrement
de primeira classe, bem está! O grosso cartapácio, com mil bombas, fervilha de
defeitos! As duas próprias cenas que você incondicionalmente louva, estão bem
longe de me agradar! Mas que você fizesse a vista grossa sobre esses defeitos,
para se lançar sobre mim com indizível fúria e acusar-me de falta de respeito
pelas nossas virtudes, pela nossa elevação
moral, pela grandeza da nossa civilização, e pelo esplendor de
Lisboa como capital — é forte! Cousa espantosa ver o meu velho
e rebelde Fialho repetir, quase ipsis verbis, um grande rasgo
patriótico do Tomás Ribeiro, há anos, nas Câmaras, declarando “traidores os que
faziam, em escritos públicos, a crítica dos nossos costumes”! O Ramalho fez,
sobre essa saída do lírico da Judia, um artigo extraordinário nas
Farpas.
Esta carta já vai longa. E não me alargo por isso mais,
além deste ponto de vista da sua crónica, — que foi o que me
impressionou. Havia, porém, nela, ainda outros detalhes, que eu desejaria
discutir com você, violentamente. Assim, diz você que os meus personagens são
copiados uns dos outros. Mas, querido amigo, numa obra que pretende ser a
reprodução de uma sociedade uniforme, nivelada, chata, sem relevo, e sem
saliências, (como a nossa incontestavelmente é) — como queria você, a menos que
eu falseasse a pintura, que os meus tipos tivessem o destaque, a dessemelhança,
a forte e crespa individualidade, a possante e destacante pessoalidade,
que podem ter, e têm, os tipos de uma vigorosa civilização como a de Paris ou
de Londres? Você distingue os homens de Lisboa uns dos outros? Você, nos
rapazes do Chiado, acha outras diferenças que não sejam o nome e o feitio do
nariz? Em Portugal há só um homem — que é sempre o mesmo
ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um
homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te
ir; sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as
circunstâncias. É o homem que eu pinto, sob os seus costumes
diversos, casaca ou batina. E é o português verdadeiro. É o português que tem
feito este Portugal que vemos.
Outra cousa bem singular é você duvidar da exatidão de
certos detalhes, traços de sociedade, como as senhoras falando
de criadas ou apostando dez tostõezinhos nas
corridas, etc. Oh homem de Deus, onde habita você? Em Lisboa ou em Pequim?
Tudo isso é visto, notado em flagrante, e por mim mesmo aturado sur
place!
Mas não palremos mais. Vocês, em todo o caso, hão de
findar por me fazer zangar. O Carlos Valbom acusa-me de escrever à francesa, e
com galicismos que o arrepiam; e diz
isto em períodos absolutamente construídos à francesa, e metendo em cada dez
palavras cinco galicismos! Você, por outro lado, nunca tomou a pena, que não
fosse para cair sobre os homens e as cousas do seu tempo, com um vigor, uma
veia, um espírito, um éclat que fazem sempre a minha
delícia. E quando eu faço o mesmo, com mais moderação, infinitas cautelas, et
une touche très juste — você aparece-me, e grita, “aqui del-rei
patriotas!” É escandaloso. Para vocês tudo é permitido: galicismos à farta,
pilhérias à pátria, à bouche que veux-tu? A mim, nada me
é permitido! Ora sebo!
Positivamente, basta de cavaqueira.
Diga ao Oliveira Martins que eu lhe mando, por este
correio, mais fradiquice. E você, caro Fialho
creia sempre na sincera estima e verdadeira admiração, com que lhe aperta a mão
o seu muito amigo.
Bristol, 8 de Agosto de 1888
Bristol, 8 de Agosto de 1888
Eça de Queiroz
segunda-feira, julho 15
Graciliano Ramos
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A minha última leitura data dos anos 60, e ando agora a
reler Graciliano Ramos, maravilhado com a sua prosa, aquela que dá aos incautos
a ilusão de que assim qualquer um escreve, tão simples e despojada de tafularia
se apresenta.
Em Infância encontro este trauma:
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domingo, julho 14
quarta-feira, julho 10
Eça ao longe
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Agora que se fala no assunto anotam-se estas
curiosidades. A luxuosa edição holandesa das obras de Eça de Queiroz, no canto superior esquerdo dois dos cinco volumes, é de
1989 e 1990. Theo Sontrop, então director da editora De Arbeiderspers, de Amsterdam, encomendou as capas a Michael Harvey, famoso artista gráfico inglês. À direita, a tradução alemã de A Cidade e as Serras data de 1964 e é da
autoria de Curt Meyer-Clason, genial tradutor. Die Maias e Die Reliquie, foram cuidadosamente editados em 1983 e 1984 em Berlim, na então
República Democrática Alemã. As capas são de Christa Wendt.
terça-feira, julho 9
Dois porcento
Emoção e espanto na Holanda, onde se diz que a monotonia
reina e nada acontece. Como tantas outras, também essa antiga verdade acaba de expirar:
no nordeste do país, quase na fronteira com a Alemanha, apareceu um lobo.
Sensação nacional e geral, pois é o primeiro de que há notícia vai para século e meio. Foi o bicho atropelado numa estrada, levaram o cadáver para o museu Naturalis, em Leiden e, anunciada a autópsia, correram para lá os jornais, as revistas, as televisões e os basbaques.
O anatomista, "especializado em animais selvagens", cortou, mediu, pesou, cheirou, dá por garantido ser uma fêmea de dois ou três anos de idade e "está noventa e oito porcento ciente" de que realmente se trata de um lobo.
Para a certeza dos restantes dois porcento aguarda-se a análise do conteúdo do estômago, que será conhecida hoje à tarde. E ao museu Naturalis de novo acorrerão os jornais, as revistas, as televisões e os basbaques.
Sensação nacional e geral, pois é o primeiro de que há notícia vai para século e meio. Foi o bicho atropelado numa estrada, levaram o cadáver para o museu Naturalis, em Leiden e, anunciada a autópsia, correram para lá os jornais, as revistas, as televisões e os basbaques.
O anatomista, "especializado em animais selvagens", cortou, mediu, pesou, cheirou, dá por garantido ser uma fêmea de dois ou três anos de idade e "está noventa e oito porcento ciente" de que realmente se trata de um lobo.
Para a certeza dos restantes dois porcento aguarda-se a análise do conteúdo do estômago, que será conhecida hoje à tarde. E ao museu Naturalis de novo acorrerão os jornais, as revistas, as televisões e os basbaques.
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segunda-feira, julho 8
Nada a fazer
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Disseram-me que desse aqui uma vista de olhos. Anarquismo Cristão? Paz e Gente Livre? É coisa séria? Fui dar uma vista de olhos
Nada a fazer, é sina minha, mas mesmo tarde e más horas - quarenta anos - dá algum conforto, alguma amargura também.
A rapaziada que me insultou, que de traidor a vendido ao Fascimo me chamou de tudo, Judas, lacaio, traidor, me virava a cara porque eu "deixara de ser da Esquerda", agora que estudaram alguma coisa e aprenderam com a vida, chegados aos sessenta começam "a ver a luz".
Para eles próprios é tarde, mas talvez ensinem aos filhos a verdade de que nem tudo o que reluz é ouro, e nem sempre os ideais têm a pureza que se lhes atribui.
Que eu saiba em Portugal não será tão cedo, mas o meu Portugal, a Flor e a Foice vai ter na Holanda (também quarenta anos depois) uma segunda edição. Entretanto, a rapaziada que envelheceu e aprendeu, cita-o e trata-o agora com reverências de catecismo. Nosso Senhor os favoreça.
"Rentes de
Carvalho disse-o então: a onda de nacionalizações no pós-25 de Abril de 1974
poderia, sobretudo, ser interpretada como uma maneira de modernizar o Capitalismo
em Portugal, não como um passo para o Socialismo.
Mostrou ser
verdade, mas nós, jovens, achávamos que (semelhante conclusão) cheirava a manipulação
de serviços secretos."quinta-feira, julho 4
Momentos (6)
São instantes em que a garganta se aperta e desviamos o olhar, esperando em vão que se abra o buraco onde queremos desaparecer.
Espero vez na caixa do restaurante. A
mulher veio buscar dois almoços. Faltam-lhe uns trocos. Bem sabia, mas a necessidade
e a fome empurram. Desculpa-se, procura, depois traz, sorri, atrapalha-se, os
que por acaso ali estamos fingimos não ver nem ouvir. O proprietário, caridoso,
entrega-lhe a comida e diz que sim, depois, então até amanhã.
Estou na Praça da Batalha, no Porto. Desço
a Rua de Santo António. O homem vem subindo, curvado, macilento. A sua roupa fala
de um bem-estar perdido, dores e desespero, urgências, medo.
A uns dez passos encara-me. Lê-se-lhe a
aflição no rosto, mede-me, vai ousar, sente que não lhe negarei a esmola, agora
ao meu lado quase me toca. Mas os nossos olhares cruzam-se, hesita um nada, a
vergonha empurra-o e continua o passo, a mim falta coragem para detê-lo.
Também este me custa a esquecer: http://tempocontado.blogspot.pt/2010/09/momentos-1.html
quarta-feira, julho 3
Teatro
São da Direita, são da Esquerda, passaram os cinquenta e continuam a olhar a Política com inocência juvenil, discutem-na com o mesmo entusiasmo e tolice das profecias que fazem dos resultados do futebol e chaves do Euromilhões.
Nosso Senhor se apiede das cabeças que do
romper do dia ao cair da noite "vivem" as demissões de ministros,
calculam em quanto vai a dívida pública, rabiosamente exigem salvação, como se
ainda houvesse fadas e varinhas a operar milagres.
Oiço-os, não aprovo nem discordo, mostro o
sorriso da neutralidade, tento encobrir o susto de vê-los assanhados e
fanáticos, pois se são assim por causas
distantes e imateriais, pergunto-me que fúrias desencadearão contra quem
se lhes atravessar no caminho ou der prejuízo.
Para meu próprio sossego digo que é teatro,
e ao mesmo tempo sei que prefiro não lhes conhecer o íntimo.
terça-feira, julho 2
Galhos
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Devia ser o contrário, mas quanto mais
visivelmente arrogantes, cheios de si, seguros do que julgam ter visto, que
julgam saber e do que o mundo lhes deve, cônscios da sua importância, da alta
craveira a que se elevam, da unicidade da pessoinha que são, mais me esforço
para manter o sério.Não vá você agora julgar que me refiro a ministros, banqueiros, cientistas geniais, escritores candidatos ao Nobel. Com esses não tenho trato, vivem noutra rua. Falo de gente no meu dia-a-dia, o vulgo, o povão, a grande massa que vai dos chamados humildes à mais mediana das medianias.
Houve tempo em que a precaução mandava que os humildes se comportassem com humildade, e os que o não eram fingissem as virtudes de mostrar respeitinho, aceitando todos que cada macaco se aquietasse no galho onde as circunstâncias o tinham posto. Mas na atmosfera energética e acelerada em que vivemos, desapareceram os galhos e, sem apoio para assentar o traseiro, a macacada perdeu as estribeiras.
Há dias calmos, noutros ganho a certeza de que a maioria dos que me rodeiam, de facto caiu da palmeira para o volante. Mesmo os que não tiraram carta nem têm carro.
domingo, junho 30
Fitas e borlas
Para muita gente, muita mesmo, o escrever
não é trabalho, é coisa para a qual alguns têm jeito, fazem por gosto, até
apreciam que se lhes reconheça a habilidade.
Imagino que com outros aconteça igual, mas
por mim falo. Amizade, imposição, chantagem, desavergonhadas pressões, abuso de
simpatia, de confiança, parentesco, pedinchice, ao longo de tempo perdi a conta
dos textos que escrevi de borla.
Convites, folhetos, boletins de paróquia,
comemorações, discursos, pareceres, resenhas, requerimentos, histórias para
esta e aquela festividade, anúncios de romaria. De vez em quando recuso firme,
pois não me vejo a recomendar um restaurante. Também gosto de ver o
interlocutor de cara à banda, quando ele espera ter de graça a satisfação do
pedido e lhe anuncio o preço. Alguns, de verdade ingénuos, ficam de boca
aberta, realmente não faziam ideia de que a escrita, coisa de que toda a gente
é capaz, implicasse pagamento. Mas em particular divertem-me os que querem
regatear, pedem desconto, consideram extorsão qualquer tarifa que não seja a mesquinhice
que propõem.
Esses aprenderiam alguma coisa com a
história verdadeira, passada há muitos anos com uma dama da High Society de Nova Iorque, que num fim de tarde, as
lojas a fechar, se deu conta de não ter chapéu apropriado para a cerimónia a
que ia assistir.
Correu a um costureiro, então jovem, mas já
de fama, explicou-lhe o aperto, e ele, olhando como a senhora estava vestida, pegou numas
fitas de seda, enrolou-as, pôs-lhas na cabeça e aproximou o espelho.
Extasiou-se a senhora. Aquilo era
criação genial, espectacular, uma beleza de incrível simplicidade. Admirou-se
uma vez mais, nem sequer tinha coragem de lhe mexer. Perguntou quanto devia.
O costureiro nomeou o preço, e a madame, em
choque, esquecida das boas-maneiras, deu um berro. Impensável! Roubalheira!
Semelhante importância por duas fitas?
Então o jovem costureiro, muito ciente do
seu talento e com elegância no modo, pegou no chapéu, desfê-lo, entregou as
fitas à senhora:
- Pode levar. As fitas são de graça,
sábado, junho 29
Herdeiros
Mandela morre, não morre, o presidente
Obama vai de visita, não vai, cá fora o povo reza e dança à boa maneira Zulu, as
televisões contam também da zaragata na família do moribundo.
Uns filhos querem-no enterrado onde nasceu,
outros onde se criou, estes exigem os extensos vinhedos da House of Mandela, aqueles querem ser os únicos a explorar a marca Mandela.História de todos os tempos. Fora que possuir um lugar de peregrinação, indústria de relíquias e souvenirs, e o herói num mausoléu, talvez envidraçado, acorda miragens de Fátima, Lourdes, Graceland, Disneyland, por menos começa a escorrer água da boca,
Discutimos o caso, e ela, um pouco afastada não toma parte da conversa. Falar de herdeiros é assunto doloroso, tabu, recorda-lhe a altura em que os irmãos, por natureza sempre desavindos, se concertaram para arranjar quem a liquidasse e ficarem eles com a herança. E não eram vinhedos, marcas comerciais, Fátimas ou mausoléus o que estava em jogo, mas umas terras que, por ano, pagam quarenta e dois euros de contribuição predial.
quinta-feira, junho 27
Linhagens
No seu lugar calávamo-nos, mas a raiva que o consome é forte, o desespero tão grande, que o deixamos desabafar, mudos e quietos como se fôssemos público num teatro, e ele no palco representasse uma tragédia.
Sofreu, perdeu, sente-se traído, mas o seu ódio
não vai para o desgoverno, a corrupção, os podres da justiça, ou a falta de
moral. O rancor que o afoga causam-no "esses pelintras que nada tinham, esses
badamecos que nem a cara lavavam e agora comem de faca e garfo!"
Contorce o rosto numa gargalhada, aponta
com o dedo a massa invisível. "Labregos, é que eles são, sempre foram,
hão-de ficar! E os filhos com estudos, estudos? Julgam que saíram da lama?
Nunca! É lá que pertencem."
Barafusta, grita, agita-se, descontrolado,
irracional, o medo que temos é de vê-lo numa síncope. Ouvimo-lo sem
replicar, na esperança de que aos poucos vá caindo em si, se aperceba da
inutilidade da agitação. Depois assim acontece, mas fica no ar um
acanhamento, o desconforto de nos sabermos cada um com os seus pensamentos,
involuntária e secretamente recordando a
"linhagem" do nosso amigo.
É isso que a ele e muitos salva: a falta de
memória e a recusa de se verem ao espelho.
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