quarta-feira, julho 17

Feira do Livro no Porto 1936

 
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terça-feira, julho 16

De Eça e Fialho

Ainda acerca de "Os Maias", esta carta de Eça de Queiroz a Fialho de Almeida:

"Meu caro Fialho

Os franceses falam muito do espalhafato que faz Satanás, quando o mergulham dans un bénitier. Eu nunca assisti a esta escandalosa afronta feita ao venerável pai da mentira; nem você também, suponho eu. No entanto imagina você bem como Belzebu berrará e escoucinhará, ao sentir o contato untuoso do detestado líquido. Pois, querido amigo, assim eu escoucinhei e berrei, enquanto você, com mão dura e forte, me estava mergulhando na água benta da sua crônica sobre “Os Maias”.
Você concordará que esta analogia é rigorosa. Eu, com efeito, represento para você satanás, o pai de toda a falsidade. Eu sou aquele mafarrico que escolhe, para personagens do seu livro, não sei que janotas petulantes e estrangeirados, em vez de dar, nessas páginas, o lugar preeminente ao Marquês da Foz, aos empreiteiros das obras do porto de Lisboa, aos rapazes beneméritos que foram premiados na escola; aos construtores do bairro Estefánia, ao Conselho de Estado, etc. etc. Eu sou aquele porco sujo que pretende que as mulheres de Lisboa têm amantes, e que, nos jantares de sociedade, em vez de discutirem Hegel, o positivismo, e a psicologia das religiões, falam de criadas e de cabeleireiros! Eu sou aquele gênio da maledicência, que afirma que os esplendores da Avenida são talvez inferiores aos da Via Ápia, e que a sociedade que a freqüenta não é talvez nem a mais culta nem a mais original do universo, etc., etc., por aí além.
Por outro lado a sua crónica, meu caro Fialho, é uma bela pia de mármore, cheia a trasbordar de água benta da virtude, do Patriotismo, e da fé em Lisboa como capital da civilização. E, portanto, o que você fez, com a sua costumada veemência, foi plonger le diable dans un bénitier. Daí os berros e os couces.
Couces e berros, sobretudo de espanto. Porque enfim, eu tudo podia esperar do seu espírito, tão impressionável e ardente, menos essa atitude de pudicícia ofendida e de magoado patriotismo. O que era com efeito de esperar, dada a sua índole e os seus escritos, era que você criticasse o livreco, sob o ponto de vista do próprio livreco; e que, como legionário da mesma legião, ocupado também neste belo trabalho da literatura contemporânea, que consiste em fazer o inquérito experimental das sociedades, me censurasse só por os meus golpes não serem bem destros, nem bem certeiros, nem bem úteis, nem bem claros, nem bem eficazes. Mas vê-lo de repente surgir no campo inimigo, com uma sobrecasaca séria de conselheiro de Estado, gritando — “Em Lisboa não se deve tocar! Tudo aqui é puro, belo, e grande! Vergonha ao maldizente que ouse rir da cidade incomparável, perfectissima Urbs!” — eis o que verdadeiramente me assombrou! Por que tão singular mudança? Ó Fialho, foi você eleito diretor-geral de um Banco? É você o inspirador de um sindicato? Recebeu você, das mãos do monarca, a grã-cruz de São Tiago? Está você diretor-geral de uma grande repartição do Estado? Que interesse supremo o fez aliar-se ao Conselheiro Acácio? Está você, por acaso, apaixonado pela mulher de Acácio, e finge-se assim pudico, ordeiro e patriota, para lisonjear o benemérito e cornudo homem… Sapristi, je crois que j’ai touché juste! Nessa sua crônica sobre “Os Maias”, Fialho, há uma mulher!! Se assim é, (e estou certo que é assim) como você deve ter sofrido, pobre amigo! Conheço essa situação, é medonha!… É ela ao menos bonita, e cochonne?
Sério, sério — a sua crônica, escrita com a sua costumada verve, espantou-me. Que você fizesse ao calhamaço um enterrement de primeira classe, bem está! O grosso cartapácio, com mil bombas, fervilha de defeitos! As duas próprias cenas que você incondicionalmente louva, estão bem longe de me agradar! Mas que você fizesse a vista grossa sobre esses defeitos, para se lançar sobre mim com indizível fúria e acusar-me de falta de respeito pelas nossas virtudes, pela nossa elevação moral, pela grandeza da nossa civilização, e pelo esplendor de Lisboa como capital — é forte! Cousa espantosa ver o meu velho e rebelde Fialho repetir, quase ipsis verbis, um grande rasgo patriótico do Tomás Ribeiro, há anos, nas Câmaras, declarando “traidores os que faziam, em escritos públicos, a crítica dos nossos costumes”! O Ramalho fez, sobre essa saída do lírico da Judia, um artigo extraordinário nas Farpas.
Esta carta já vai longa. E não me alargo por isso mais, além deste ponto de vista da sua crónica, — que foi o que me impressionou. Havia, porém, nela, ainda outros detalhes, que eu desejaria discutir com você, violentamente. Assim, diz você que os meus personagens são copiados uns dos outros. Mas, querido amigo, numa obra que pretende ser a reprodução de uma sociedade uniforme, nivelada, chata, sem relevo, e sem saliências, (como a nossa incontestavelmente é) — como queria você, a menos que eu falseasse a pintura, que os meus tipos tivessem o destaque, a dessemelhança, a forte e crespa individualidade, a possante e destacante pessoalidade, que podem ter, e têm, os tipos de uma vigorosa civilização como a de Paris ou de Londres? Você distingue os homens de Lisboa uns dos outros? Você, nos rapazes do Chiado, acha outras diferenças que não sejam o nome e o feitio do nariz? Em Portugal há só um homem — que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir; sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto, sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. E é o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos.
Outra cousa bem singular é você duvidar da exatidão de certos detalhes, traços de sociedade, como as senhoras falando de criadas ou apostando dez tostõezinhos nas corridas, etc. Oh homem de Deus, onde habita você? Em Lisboa ou em Pequim? Tudo isso é visto, notado em flagrante, e por mim mesmo aturado sur place!
Mas não palremos mais. Vocês, em todo o caso, hão de findar por me fazer zangar. O Carlos Valbom acusa-me de escrever à francesa, e com galicismos que o arrepiam; e diz isto em períodos absolutamente construídos à francesa, e metendo em cada dez palavras cinco galicismos! Você, por outro lado, nunca tomou a pena, que não fosse para cair sobre os homens e as cousas do seu tempo, com um vigor, uma veia, um espírito, um éclat que fazem sempre a minha delícia. E quando eu faço o mesmo, com mais moderação, infinitas cautelas, et une touche très juste — você aparece-me, e grita, “aqui del-rei patriotas!” É escandaloso. Para vocês tudo é permitido: galicismos à farta, pilhérias à pátria, à bouche que veux-tu? A mim, nada me é permitido! Ora sebo!
Positivamente, basta de cavaqueira.
Diga ao Oliveira Martins que eu lhe mando, por este correio, mais fradiquice. E você, caro Fialho creia sempre na sincera estima e verdadeira admiração, com que lhe aperta a mão o seu muito amigo.

Bristol, 8 de Agosto de 1888

Eça de Queiroz


segunda-feira, julho 15

Graciliano Ramos

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A minha última leitura data dos anos 60, e ando agora a reler Graciliano Ramos, maravilhado com a sua prosa, aquela que dá aos incautos a ilusão de que assim qualquer um escreve, tão simples e despojada de tafularia se apresenta.
Em Infância  encontro este trauma:

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domingo, julho 14

Multidão

 
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Bombaim? Rio de Janeiro, 1951. Fotografia: Jean Manzon.

quarta-feira, julho 10

Eça ao longe

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Agora que se fala no assunto anotam-se estas curiosidades. A luxuosa edição holandesa das obras de Eça de Queiroz, no canto superior esquerdo dois dos cinco volumes,  é de 1989 e 1990. Theo Sontrop, então director da editora De Arbeiderspers, de Amsterdam, encomendou as capas a Michael Harvey, famoso artista gráfico inglês. À direita, a tradução alemã de A Cidade e as Serras data de 1964 e é da autoria de Curt Meyer-Clason, genial tradutor. Die Maias e Die Reliquie, foram cuidadosamente editados em 1983 e 1984 em Berlim, na então República Democrática Alemã. As capas são de Christa Wendt.
 

terça-feira, julho 9

Dois porcento

Emoção e espanto na Holanda, onde se diz que a monotonia reina e nada acontece. Como tantas outras, também essa antiga verdade acaba de expirar: no nordeste do país, quase na fronteira com a Alemanha, apareceu um lobo.
Sensação nacional e geral, pois é o primeiro de que há notícia vai para século e meio. Foi o bicho atropelado numa estrada, levaram o cadáver para o museu Naturalis, em Leiden e, anunciada a autópsia, correram para lá os jornais, as revistas, as televisões e os basbaques.
O anatomista, "especializado em animais selvagens", cortou, mediu, pesou, cheirou, dá por garantido ser uma fêmea de dois ou três anos de idade e "está noventa e oito porcento ciente" de que realmente se trata de um lobo.
Para a certeza dos restantes dois porcento aguarda-se a análise do conteúdo do estômago, que será conhecida hoje à tarde. E ao museu Naturalis de novo acorrerão os jornais, as revistas, as televisões e os basbaques.


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segunda-feira, julho 8

Nada a fazer

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Disseram-me que desse aqui uma vista de olhos. Anarquismo Cristão? Paz e Gente Livre? É coisa séria? Fui dar uma vista de olhos
Nada a fazer, é sina minha, mas mesmo tarde e más horas - quarenta anos - dá algum conforto,  alguma amargura também.
A rapaziada que me insultou, que de traidor a vendido ao Fascimo me chamou de tudo, Judas, lacaio, traidor, me virava a cara porque eu "deixara de ser da Esquerda", agora que estudaram alguma coisa e aprenderam com a vida, chegados aos sessenta começam "a ver a luz".
Para eles próprios é tarde, mas talvez ensinem aos filhos a verdade de que nem tudo o que reluz é ouro, e nem sempre os ideais têm a pureza que se lhes atribui.
Que eu saiba em Portugal não será tão cedo, mas o meu Portugal, a Flor e a Foice vai ter na Holanda (também quarenta anos depois) uma segunda edição. Entretanto, a rapaziada que envelheceu e aprendeu, cita-o e trata-o agora com reverências de catecismo. Nosso Senhor os favoreça.
 
"Rentes de Carvalho disse-o então: a onda de nacionalizações no pós-25 de Abril de 1974 poderia, sobretudo, ser interpretada como uma maneira de modernizar o Capitalismo em Portugal, não como um passo para o Socialismo.
Mostrou ser verdade, mas nós, jovens, achávamos que (semelhante conclusão) cheirava a manipulação de serviços secretos."

quinta-feira, julho 4

Momentos (6)


São instantes em que a garganta se aperta e desviamos o olhar, esperando em vão que se abra o buraco onde queremos desaparecer.
Espero vez na caixa do restaurante. A mulher veio buscar dois almoços. Faltam-lhe uns trocos. Bem sabia, mas a necessidade e a fome empurram. Desculpa-se, procura, depois traz, sorri, atrapalha-se, os que por acaso ali estamos fingimos não ver nem ouvir. O proprietário, caridoso, entrega-lhe a comida e diz que sim, depois, então até amanhã.

Estou na Praça da Batalha, no Porto. Desço a Rua de Santo António. O homem vem subindo, curvado, macilento. A sua roupa fala de um bem-estar perdido, dores e desespero, urgências, medo.
A uns dez passos encara-me. Lê-se-lhe a aflição no rosto, mede-me, vai ousar, sente que não lhe negarei a esmola, agora ao meu lado quase me toca. Mas os nossos olhares cruzam-se, hesita um nada, a vergonha empurra-o e continua o passo, a mim falta coragem para detê-lo.





quarta-feira, julho 3

Teatro


São da Direita, são da Esquerda, passaram os cinquenta e continuam a olhar a Política com  inocência juvenil, discutem-na com o mesmo entusiasmo e tolice das profecias que fazem dos  resultados do futebol e chaves do Euromilhões.
Nosso Senhor se apiede das cabeças que do romper do dia ao cair da noite "vivem" as demissões de ministros, calculam em quanto vai a dívida pública, rabiosamente exigem salvação, como se ainda houvesse fadas e varinhas a operar milagres.
Oiço-os, não aprovo nem discordo, mostro o sorriso da neutralidade, tento encobrir o susto de vê-los assanhados e fanáticos, pois se são assim por causas  distantes e imateriais, pergunto-me que fúrias desencadearão contra quem se lhes atravessar no caminho ou der prejuízo.
Para meu próprio sossego digo que é teatro, e ao mesmo tempo sei que prefiro não lhes conhecer o íntimo.

terça-feira, julho 2

Galhos

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Devia ser o contrário, mas quanto mais visivelmente arrogantes, cheios de si, seguros do que julgam ter visto, que julgam saber e do que o mundo lhes deve, cônscios da sua importância, da alta craveira a que se elevam, da unicidade da pessoinha que são, mais me esforço para manter o sério.
Não vá você agora julgar que me refiro a ministros, banqueiros, cientistas geniais, escritores  candidatos ao Nobel. Com esses não tenho trato, vivem noutra rua. Falo de gente no meu dia-a-dia, o vulgo, o povão, a grande massa que vai dos chamados humildes à mais mediana das medianias.
Houve tempo em que a precaução mandava que os humildes se comportassem com humildade, e os que o não eram fingissem as virtudes de mostrar respeitinho, aceitando todos que cada macaco se aquietasse no galho onde as circunstâncias o tinham posto. Mas na atmosfera energética e acelerada em que vivemos, desapareceram os galhos e, sem apoio para assentar o traseiro, a macacada perdeu as estribeiras.
Há dias calmos, noutros ganho a certeza de que a maioria dos que me rodeiam, de facto caiu da palmeira para o volante. Mesmo os que não tiraram carta nem têm carro.

domingo, junho 30

Fitas e borlas

Para muita gente, muita mesmo, o escrever não é trabalho, é coisa para a qual alguns têm jeito, fazem por gosto, até apreciam que se lhes reconheça a habilidade.
Imagino que com outros aconteça igual, mas por mim falo. Amizade, imposição, chantagem, desavergonhadas pressões, abuso de simpatia, de confiança, parentesco, pedinchice, ao longo de tempo perdi a conta dos textos que escrevi de borla.
Convites, folhetos, boletins de paróquia, comemorações, discursos, pareceres, resenhas, requerimentos, histórias para esta e aquela festividade, anúncios de romaria. De vez em quando recuso firme, pois não me vejo a recomendar um restaurante. Também gosto de ver o interlocutor de cara à banda, quando ele espera ter de graça a satisfação do pedido e lhe anuncio o preço. Alguns, de verdade ingénuos, ficam de boca aberta, realmente não faziam ideia de que a escrita, coisa de que toda a gente é capaz, implicasse pagamento. Mas em particular divertem-me os que querem regatear, pedem desconto, consideram extorsão qualquer tarifa que não seja a mesquinhice que propõem.
Esses aprenderiam alguma coisa com a história verdadeira, passada há muitos anos com uma dama da High Society  de Nova Iorque, que num fim de tarde, as lojas a fechar, se deu conta de não ter chapéu apropriado para a cerimónia a que ia assistir.
Correu a um costureiro, então jovem, mas já de fama, explicou-lhe o aperto, e ele, olhando  como a senhora estava vestida, pegou numas fitas de seda, enrolou-as, pôs-lhas na cabeça e aproximou o espelho.
Extasiou-se a senhora. Aquilo era criação genial, espectacular, uma beleza de incrível simplicidade. Admirou-se uma vez mais, nem sequer tinha coragem de lhe mexer. Perguntou quanto devia.
O costureiro nomeou o preço, e a madame, em choque, esquecida das boas-maneiras, deu um berro. Impensável! Roubalheira! Semelhante importância por duas fitas?
Então o jovem costureiro, muito ciente do seu talento e com elegância no modo, pegou no chapéu, desfê-lo, entregou as fitas à senhora:
- Pode levar. As fitas são de graça,

sábado, junho 29

Herdeiros


Mandela morre, não morre, o presidente Obama vai de visita, não vai, cá fora o povo reza e dança à boa maneira Zulu, as televisões contam também da zaragata na família do moribundo.
Uns filhos querem-no enterrado onde nasceu, outros onde se criou, estes exigem os extensos vinhedos da House of Mandela, aqueles querem ser os únicos a explorar a marca Mandela.
História de todos os tempos. Fora que possuir um lugar de peregrinação, indústria de relíquias e souvenirs, e o herói num mausoléu, talvez envidraçado, acorda miragens de Fátima, Lourdes, Graceland, Disneyland, por menos começa a escorrer água da boca,
Discutimos o caso, e ela, um pouco afastada não toma parte da conversa. Falar de herdeiros é assunto doloroso, tabu, recorda-lhe a altura em que os irmãos, por natureza sempre desavindos, se concertaram para arranjar quem a liquidasse e ficarem eles com a herança. E não eram vinhedos, marcas comerciais, Fátimas  ou mausoléus o que estava em jogo, mas umas terras que, por ano, pagam quarenta e dois euros de contribuição predial.

quinta-feira, junho 27

Linhagens


No seu lugar calávamo-nos, mas a raiva que o consome é forte, o desespero tão grande, que o deixamos desabafar, mudos e quietos como se fôssemos público num teatro, e ele no palco representasse uma tragédia.
Sofreu, perdeu, sente-se traído, mas o seu ódio não vai para o desgoverno, a corrupção, os podres da justiça, ou a falta de moral. O rancor que o afoga causam-no "esses pelintras que nada tinham, esses badamecos que nem a cara lavavam e agora comem de faca e garfo!"
Contorce o rosto numa gargalhada, aponta com o dedo a massa invisível. "Labregos, é que eles são, sempre foram, hão-de ficar! E os filhos com estudos, estudos? Julgam que saíram da lama? Nunca! É lá que pertencem."
Barafusta, grita, agita-se, descontrolado, irracional, o medo que temos é de vê-lo numa síncope. Ouvimo-lo sem replicar, na esperança de que aos poucos vá caindo em si, se aperceba da inutilidade da agitação. Depois assim acontece, mas fica no ar um acanhamento, o desconforto de nos sabermos cada um com os seus pensamentos, involuntária e secretamente  recordando a "linhagem" do nosso amigo.
É isso que a ele e muitos salva: a falta de memória e a recusa de se verem ao espelho.