terça-feira, junho 21

A fama

É minha ideia que há pouco mais de meio século, contrariando as leis da Natureza, a fama tem vindo a rejuvenescer-se. A fama antiga cabia a uns velhotes que, de uma ou outra maneira, por arte, ciência, feitos ou sabedoria, tinham dado prova de se elevarem bastante acima do comum.
Depois, com uma rapidez que estonteia, a fama como que se avacalhou, já não é apenas famoso o que se distingue por feitos de importância, mas qualquer badameco que se agita, urra, dá patadas, bebe demais ou tatua o rabo.
Se demorava anos, décadas, uma vida, a alcançar a fama, ela hoje é rápida, por vezes mesmo instantânea como o Nescafé. Ao puto que mal saído das fraldas dedilha uma guitarra no YouTube, cabe fama com que, por ambicioso que seja, nenhum cientista ou sábio se atreve a sonhar.
Quer isto dizer, e por má sorte não é apenas em questões de renome, que andam as coisas fora dos eixos. Hoje em dia, porque a solidez dos valores e das certezas iguala a da espuma, um pobre de espírito tem mais probabilidades de do dia para a noite se tornar famoso, que aquele que gasta anos a pintar um quadro, ou cega a procurar bichinhos com o microscópio.
Será um mal? Parece-me que não. Há mesmo certa lógica neste evoluir, pois seria estranho termos famosos como os de antigamente. Temos estes, e bem os merecemos.

domingo, junho 19

Tolos


Basta atentar, logo se descobre que Deus Nosso Senhor faz bem as coisas e continua a espalhar abundância de tolos. Fosse Ele menos diligente, aborrecido seria o dia-a-dia daqueles que beneficiou com algum juízo, pois o inesperado e arrevesado comportamento do tolo não obriga, como nas comédia de teatro, a hora e pico de atenção. O tolo age, fala, e o gozo é instantâneo.
Pouco há  que se equipare ao cómico do comportamento do tolo, ou da tola que, inconsciente de que se lhe desandam os parafusos, toma por prestígio o que é mesquinhice, por ciência a sua imperícia, e fala do que ignora no tom seguro que só os néscios usam. Braceja com os arremedos que, desde Mussolini, pertencem aos clássicos do humor, o seu ar de importância traz o pavão à mente.
Demos graças ao Senhor que tão generoso se mostra na sementeira de imbecis.  

sábado, junho 18

O vazio e o oco


Pelo modo como a vida me tem corrido, questão genética, boas e más experiências, o caso é que me fascina a observação de certo tipo do meu semelhante, aquele que por destino, ou razões suas, leva da infância à cova uma vida de artifício num mundo que, muito  de longe a longe, me acontece roçar.
Falam de festas e metrópoles, cruzeiros, hotéis, o Breitling do primo, a suite do Four Seasons, o Mastino Napoletano que o Vieira tem na quinta, a semana que passaram naquele "fabuloso spa"…
Oiço-os e, como se sonhasse, aparecem-me através de uma névoa, as suas seguranças a contrastar com as minhas dúvidas, a sua jovialidade embatendo nas sombras que tenho. E não é questão de desdém, inveja,  ou animosidade do menos abonado, antes genuína surpresa de que seja possível existir assim, de ilusão em miragem, saltando do vazio para o oco, tomando por mundo a construção imaginada, chamando vida ao pendular dos seus baloiços.
Porém, feitas contas, têm eles mais razão e vantagem em ser assim, do que tenho eu em lhes criticar a superficialidade, pois se este mundo são dois dias melhor é gozá-los.

sexta-feira, junho 17

Solidão


Por vezes sente-se a vida por um fio, noutras é o sentimento de que as reservas de vitalidade estão a esgotar-se, alturas há em que a dores, as da alma mais que as do corpo, são faca de mau gume, embotada no corte e lenta na tortura.
Em torno do que sofre dobam-se as horas, agitam-se vidas, roda o mundo, alheio, indiferente, a ensinar que a solidão não é ameaça vã, mas realidade. E que das muitas formas que a existência da solidão conhece, a mais dura é a que obriga a manter as aparências. A fazer das tripas coração.

terça-feira, junho 14

Danúbio


Há vezes em que de nada adianta o azul do céu e o chilreio dos pássaros, vai-se o pensamento para situações que seria bom esquecer mas a memória traz à tona, acordando as palavras, os rostos, as falsas promessas, os motivos que pareciam rectos e vistos a outra luz surgem oblíquos, estranhos como carantonhas.
À noite leio Danúbio, o livro de Claudio Magris, cheio de belas descrições, ideias elevadas, frases daquelas que obrigam a uma pausa, tanto elas nos tocam. É como atravessar um porta singela e descobrir com assombro que se penetrou num monumental e maravilhoso museu de gentes e civilizações.
Grande, muito grande, é a diferença entre a beleza dessa leitura nocturna e as mesquinhices que a recordação aviva ao amanhecer.

segunda-feira, junho 13

Sonhos e pauladas

Sorri-lhe quando se encontram, beija-a nas faces, por vezes agarra-a carinhosamente pelo braço, mas enquanto trocam  palavras de circunstância ressoa-lhe no íntimo a mesma ideia: "Um dia destes vais p'rà cama."
Não compreende aquilo. Por certo é bonita, atraente, tem cabeça, mas são muitas as falhas na sua educação, sabe da têvê mas não lê um jornal, livros só deve ter pegado nos que precisou para o curso, e esses não a prepararam para desenvolver ideias ou participar numa conversa que ultrapasse o comezinho.
Há ainda o particular das pernas. Olha-as e acha que, embora aceitável, a forma das coxas tem algo plebeu, uma grossura que as desfeia. De certo modo, porém, compensa-as o traseiro, bonito e firme, a pele aveludada, o esplendor do sorriso, as promessas do decote.
A diferença de idade – ela meados os vinte, ele a chegar aos sessenta – deveria ser travão bastante para a tontaria, e de facto acontece-lhe rir de si próprio, prometer-se que se continua assim vai ao psiquiatra. Mas a verdade é que mal a vê, beija, e segue com o "tudo bem?", logo a voz interior  acende o desejo, reprime-se para não lamber os beiços, faz o que pode para ocultar a luxúria atrás da neutralidade da conversa.
- É estupidez, não é?
Para não me dar ares de sisudo, encolho os ombros, faço um gesto vago que o leva a continuar:
- Na minha idade devia ter juízo, mas estou certo que desejando uma coisa com bastante força ela acaba por acontecer. Sempre tive muita fé nisso.
- Estás a brincar.
- Não estou.

Dias atrás no café. A rapariga toda sorrisos, ele a sublinhar as palavras apontando-lhe o dedo, os olhos com o brilho do hipnotizador, eu a fantasiar o que lhe diria.
Pouco depois vi-a despedir-se com um aceno de cabeça, ele veio até mim, cabisbaixo, passo lento, a boca em quarto minguante.
- E então?
- Não vais acreditar.
- Acredito.
O que ele me segredou é daquelas pauladas que um sexagenário não esquece e em definitivo o cura do sonho de querer levá-las para a cama.



domingo, junho 12

Crucificado


Com um pouco de imaginação dir-se-ia obra de artista a interpretar o Crucificado, mas é apenas um sobreiro a que tiraram a cortiça, fotografado com um telemóvel, ontem ao fim da tarde.

sábado, junho 11

Sábado


Há alturas em que, distraído, cansado, ou dando-me os ares que os outros esperam de quem já muito viveu, me digo que são escassas as novidades e o comportamento do semelhante tende para uma previsível repetição.
Como se os deuses que governam esse ministério se divertissem a corrigir a minha estulta arrogância, logo recebo um inesperado pontapé, vem-me doutro uma sacanice, falta este à palavra, esquece aquele de devolver o cartão de memória que lhe emprestei  - sim, o de 4GB; não é pelos trinta e oito euros, mas pelo "esquecimento" – pede este um favor no tom de quem me considera obrigado, sugere a senhora que em vez de comprá-lo na livraria acharia bonito – acharia bonito! – que eu lhe oferecesse o livro que tanto gostaria de ler.
O seu ternurento rebolar de olhos, em vez de me amolecer acende ganas assassinas, mas nem a esfaqueio, nem mando para o raio que a parta, produzo um sorriso que, fosse ela capaz de interpretá-lo ou pudesse ler pensamentos, a faria correr a sete pés.

Nas manhãs de sábado, rememorando as semanas que passam, vou aprendendo à própria custa que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, muito nos engana e aborrece.