terça-feira, abril 5

Intermezzo

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Por esta razão e outras mais, nas próximas semanas só de quando em quando haverá aqui nova escrita.

Quasimodo


Grande aflição dá por vezes a alguns o corpo com que nasceram. Tem ele a bênção da inteligência, um sentido estético dos mais apurados, manobra com à-vontade da fortuna naqueles círculos que o vulgo chama da alta. Porém, com todos esse motivos de satisfação, o físico com que nasceu fez dele um ser azedo, o espelho é o seu tormento.
A cabeçorra, o ar de anão empertigado que lhe dá o tronco, barriguinha, pernas curtas e cambadas, houvesse cirurgia para tal, ele há muito se teria composto. Infelizmente não há. Infelizmente também, deixando que se lhe desligasse a inteligência, supôs que o casamento com mulher bonita e elegante o aliviaria da insatisfação com o próprio arcabouço.
Saiu-lhe errado o cálculo, mais venenoso se tornou o seu modo, quasimodescas as  carrancas. Muitos anos atrás virou-se para a as Letras. Poesia e ensaio, história, crítica, conto, romance, todos os géneros tenta, em todos não passa de mediano, mas é incensado, citado como referência, fazem-lhe rapapés, que os colegas não são tolos e louvar nada custa.
É vulto da Literatura. Pequenino, mas vulto. E morde como só as víboras sabem.
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PS. Não procure. Não é da nossa praça.

domingo, abril 3

Pilates e Botox


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Isto é sobre a velhice. Não a minha, mas a tua, ainda num futuro remoto, improvável, impossível, um daqueles futuros que só chegam para os outros, e tu vais impedir que se aproxime com barreiras de ginástica, yoga, Pilates, ensaboadelas de cremes, injecções de Botox, saladas e cirurgias.
Bíceps, peitorais, dorsais, cintura sem banha, queixo firme, cara limpa de rugas. O espelho sorri-te, diz-te que vences e ficarás assim pelos anos dos anos, amém.
Eu, não imaginas e de certeza não acreditas, perdi a juventude – de facto não tive, nasci velho – e desse modo, a par de desvantagens sem conta, foi-me cedo poupada a ilusão de que seria possível manter-me alerta  e forte a vida inteira.
A que vem todo este arrazoado? Nem eu próprio sei. Há daquelas horas em que uma  imagem, uma frase, dispara tantos sentimentos que é pena perdida querer descobrir os como e por quê. Creio, mas não juro, que começou com a fotografia de um vaidoso parecido contigo, e daí fui saltando, veio-me à memória a frase em que a desconhecida dizia: "Chorei. Às vezes, muitas vezes, tenho saudades da mulher que fui"; recordei a amargura de não ter tido juventude; veio-me à lembrança sabe Deus que mais. Quando dei conta já tinha escrito isto, que não é o que tencionava dizer.

sexta-feira, abril 1

O país da bica


Muito se fala e muito se acusa, no soalheiro Portugal. Muito se aponta o dedo ao vizinho. Dele e dos compinchas é a culpa dos males que nos afligem e ainda mais hão-de afligir. Muito se fala e muito se acusa, no abençoado país onde a miséria é antiga como a nacionalidade e irmã da esperança, crente em velas acesas que, baratinho, compram milagres. Pouco se grita, mas muito se queixa e ainda mais se inveja e admira o Francisco Esperto, filho da Dona Branca. Muito se lastima que no jardim à beira-mar não cresçam as rosas que o vizinho prometeu, mas não plantou. Muito se chora, muitas culpas se deitam, muito medo se sofre, mas também muito se espera e adia, muito se discute, muito café se bebe.  

quinta-feira, março 31

"Tive casos"


Há boas pessoas que trasbordam de simpatia e, porque são assim, boas e empáticas, não se dão conta que, como em tudo, a sobredose tem efeitos nocivos.
Entre os meus conhecidos um há que, faz tempo, decidiu ser eu a pessoa indicada sobre quem despejar - despejar é o termo adequado - uma enxurrada de memórias, explicando que, embora lhe leve quase trinta anos e tenha visto mais mundo,  talvez pudesse aproveitar certas das suas ocorrências para um romance.
- Tive casos - sussurra ele, confidencial. – Quem me vê não diria, mas tive casos!... E tenho visto muita coisa. As pessoas costumam dizer, a minha vida dava um livro, mas eu, se tivesse jeito e tempo para a escrita… Infelizmente…!
Como quer ser prestável, e porque de certeza o tempo me sobra mas nem sempre estarei inspirado – como o saberá? – insiste em fazer confidências que, na sua ideia, me poderão ajudar a moldar um personagem ou a cerzir uma intriga.
O tempo passa, mas finalmente chega a altura em que, sem rodeios, volta ao assunto:
- Então? Fez alguma coisa com aquele caso da Anita?
- A Anita?
- Não se recorda?
- Desculpe, não me lembro.
- Julguei… E como tinha dito que era interessante…
Acende outro cigarro e, esperançado numa reviravolta, confessa que até já tinha contado à Anita que um dia destes era capaz de se ver num romance.


quarta-feira, março 30

Parecença


Não foi em Bangladesh ou numa rua de Calcutá, mas em Groningen, no norte da Holanda: dias atrás, durante uma excursão escolar, uma garota de doze anos deu à luz um bebé.
Grande surpresa, pois nem ela sabia que estava grávida, nem na família, na escola, ou na vizinhança tinham dado conta do que quer que fosse.
Estranha gente. E eu anoto, digo-me que já nada me toca, mas a verdade é que dentro de mim cresce o medo de um mundo que cada dia se me torna mais alheio, mais irreal, e a vida nele ganha às vezes parecença com os maus programas de televisão.

terça-feira, março 29

Dez florins


Na Holanda, em 1945, devido ao mercado negro e à colossal massa de dinheiro falso que os alemães tinham posto a circular, impunha-se tomar medidas drásticas para restabelecer o equilíbrio financeiro. E assim se tornou célebre o Ministro das Finanças Piet Lieftink (1902-1989) pela decisão de cunhar nova moeda e ordenar que, no prazo de uma semana, fosse depositado e registado todo o "dinheiro velho", o qual seria restituído em "dinheiro novo" depois de verificada a legalidade da sua origem.
Milionário ou sapateiro, general ou lojista, sem distinção de meio, classe ou amizades, nessa semana recebeu cada cidadão dez florins em moeda nova para atender ao necessário e mais urgente.
Nem todos aplaudiram, mas os que tinham razão de queixa foram prudentes, preferindo calar donde lhes tinha vindo o dinheiro.


É interessante ler e ouvir como tanta gente, uns por genuína preocupação, outros por vaidade, muitos interessados apenas em manter sabe Deus que tacho, ou arranjar um, discutem e argumentam sobre a situação do nosso país, como se a palavreia fosse mezinha para resolver o que noutras partes necessita de trabalho, dedicação e consciência social.
Ia dizer que a vida política portuguesa dos passados trinta anos me incomoda e arrelia, mas na verdade enoja. Mais que a dos anos de Salazar, mais que a do breve momento em que houve uma réstia de esperança e as ilusões o não pareciam
Malabarismos, ladroagem, raivas a fingir, as inimizades de comédia, os V. Exa, o ridículo das atitudes, a arrogância, a peneirice… Será que essa gente tem espelho em casa? Não se dará conta, passada a fronteira, dos olhares com que os outros desdenham da fanfarronice, do bling-bling que a corrupção compra, do ar mafioso, do contentamento tolo com que debitam discursos de vento e pose?






domingo, março 27

Explicação


Queixa-se a família, queixam-se vizinhos, amigos, conhecidos e desconhecidos,  de que não temos tempo para convívios, se vemos alguém é sempre de longe a longe e na pressa de visita de médico.
A explicação reza assim: isto aqui na aldeia é vida e casa de dois, sem criada nem assistente da limpeza (técnica doméstica, como já ouvi), quatro gatos e três cães, o que, junto às andanças – o supermercado, a farmácia e o resto ficam a vinte e quatro quilómetros para sul ou para norte – mais o corrente do dia-a-dia, esgota o tempo e poucas abertas deixa para descanso.
Essa era a situação até à passada quarta-feira, a qual, mau grado as poucas folgas e  muitas urgências, avaliada agora nos parece de grande paz.
Quarta-feira, num ritual de anos, almoçámos pois em Moncorvo com a nossa jovem e amiga Isabel, veterinária do município, que a dado momento, como que a justificar o seu ar sombrio,  contou que dias antes uma alma cristã tinha abandonado num silvedo uma ninhada de cachorros recém-nascidos, e outra alma, mais cristã que a anterior, se dera ao cuidado de levá-los para o canil.
Dos sete entre a vida e a morte conseguira ela colocar quatro em casa de gente boa, mas os três restantes teriam de ser abatidos, porque das finanças da Câmara, que mal dão para os necessitados, pouco sobra para cães.
Foi assim que num impulso, sem aguardar a boa disposição que sempre vem com a sobremesa e o café, dissemos à nossa amiga que ficávamos com eles.
Agradeceu ela, mas avisando que, com duas semanas de vida, dariam muito trabalho, sujariam tudo, não sabia se aguentaríamos, se nos aborrecessem podíamos devolvê-los.
É o devolves. Acto contínuo, munidos de biberões e latas de um leite especial, rumámos com eles para casa.
De facto quando saem do ninho borram tudo com a caganeira que primeiro lhes veio da fome e lhes causa agora a fartura. Cinco vezes se lhes dá o biberão, a horas certas, começando às seis da manhã, a última sessão à meia-noite. Depois de cada "refeição" há que limpar-lhes o focinho e o traseiro, pô-los no regaço, massajá-los como faria a mãe, deixar que chupem um dedo para que não sintam em demasia a falta de teta. Chupam, satisfeitos, e mordem com dentes  afiados que nem serrilhas, para logo depois caírem no sono dos bem-aventurados. Uma botija de água quente no ninho faz as vezes de ventre maternal.
Multiplicado por três leva isso quase uma hora. Que depois se multiplica por cinco. Fora o resto. E porque assim é, onde arranjar tempo para amigos, convivências e cortesias?
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