domingo, agosto 22

Livros moribundos


São três as enciclopédias, à volta de cinquenta os dicionários, com gigantes como o Oxford English Dictionary e este Webster’s de 2.957 páginas e 4.9 kg de peso. Um Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, que me acompanha desde 1940. O inestimável Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco dos Santos Azevedo, na edição de Brasília, 1983, que foi de consulta diária. Do Aurélio são quatro; quatro os Petit Robert; os dois gordos volumes do Diccionario de Uso del Epañol, de María Moliner. Dicionários de imagens em quatro línguas; um, bizarro, de neologismos em Neerlandês e, no mesmo idioma, outro de “palavras difíceis”. De Grego, Latim, de Música e de Pintura, de Italiano e de calão, o exaustivo Künstler Lexicon –Über 4400 Künstler von der Antike bis zur Gegenwart , de Robert Darmstaedter…

Enchem as estantes, mas quando agora lhes toco já não é com o entusiasmo da busca, mas com o sentimento de quem afaga um cão, o amigo fiel que sofre da idade e a Internet vai debilitando.


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sexta-feira, agosto 20

Distracções

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Coisa de duas semanas atrás fui operado à vista, felizmente com mais sorte do que os quatro que, disseram as notícias, na mesma altura e entregues a mãos menos capazes, em vez do alívio que esperavam ficaram cegos.

Estas coisas assustam, depois vem a calma e, seguindo os conselhos de prudência, enquanto os olhos lentamente se habituam à nova situação vai-se a gente distraindo como pode. No meu caso a folhear revistas daquelas de grande formato, como são as da Moda. E assim ocupo as horas, perguntando-me também, se já me fui deste mundo ou se os meus olhos se deformaram.

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PS. A senhora fez 64 anos e é uma conhecida jornalista da Rádio neerlandesa.

quarta-feira, agosto 18

Simenon e Liège


De Georges Simenon (1903-1989) li tantos romances que não me arrisco a dizer quantos foram, mas a avaliar pelos que tenho nas estantes devem ter sido mais de cinquenta.

Do seu Comissário Maigret, superiormente interpretado na televisão por Jean Gabin (1904-1976), guardo excelentes recordações.

De Liège, onde nasceu, que odiou e tão sombriamente retratou, não adianta dizer bem ou mal. Gente haverá que gosta dela; outros, como ele e eu, acham-na desagradável, se a visitam é por obrigação.

Acontece que, e não somente devido ao talento de Simenon, como que paira sobre a cidade e os seus habitantes uma estranha maldição. Dão-se lá estranhos crimes, formas bizarras de vícios, corrupção de topo, já foi considerada a cidade mais criminosa da Europa, merecendo a alcunha de Palermo do Mosa.

Vem-me isto à lembrança devido à notícia que li a noite passada: anteontem, ao regressar a casa, um habitante de Liège deparou com uma cena mais lúgubre do que as inventadas por Simenon: no portão da moradia pendiam os corpos da esposa (56) e das suas duas filhas (29 e 30) que ali se tinham enforcado com uma corrente de ferro.




sexta-feira, agosto 13

Bolaño em três


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Em reunião do Conselho de Família decidiu-se, em vez dos cinco propostos, dividir o "2666" em apenas três volumes.

quinta-feira, agosto 12

Nunca digas, desta água não beberei

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Vidas atrás escrevi um guia de Portugal que, entre algumas boas qualidades, tinha a má de ser relativamente pesado, e daí incómodo para quem com ele ia de viagem.

Aproveitando o acaso de um encontro no supermercado, uma leitora anónima desfez-se em elogios ao meu trabalho, e já ia nas despedidas quando lhe ocorreu queixar-se do quilo e pico do calhamaço.

Sorri a concordar, mas logo se me foi a boa disposição quando ela me pôs ao corrente da solução que encontrara para o desconforto do peso: ia simplesmente cortando as folhas correspondentes aos locais que tencionava visitar.

Lá mantive o sorriso, e até acrescentei que achava engenhosa a ideia, mas por dentro senti-me mais que ofendido. A pouca vergonha! Aquilo era o meu livro! Aquilo eram quase quatro anos de trabalho, muitos milhares de quilómetros pelas más estradas dos anos 80, um estômago danificado por desagradáveis almoços, a coluna entortada por péssimos colchões. E atrevia-se ela ao sacrilégio de lhe arrancar-lhe as folhas!


Desde há um tempo que de várias partes me moem a paciência com Bolaño. Que “ o 2666 é um livro e tanto”, que passei há muito a idade de ter opiniões infundadas, que é mesmo o primeiro grande romance deste século, etc. De modo que ontem fui à livraria, comprei a tradução holandesa e de volta a casa, estranhando que as forças me faltassem, pus o livro na balança. Um quilo, quinhentas e cinquenta gramas; mil e setenta páginas; seis centímetros de lombada.

Ora acontece que leitura a sério, para mim, é feita na cama e no silêncio da noite, o que com um livro destes não é fazível nem confortável, nem aconselhável, pois por menos se arranja uma hérnia no pescoço. O calhamaço necessita do apoio de uma mesa, e eu não gosto de ler livros à mesa, além de que logo me doem as costas.

Foi então que me veio a recordação da leitora anónima e a de uma caixa com bisturis que comprei com outra finalidade e agora faz jeito.

Já pedi desculpa a Bolaño, daqui a nada vou cortar o “2666” nas cinco partes que o compõem.

quarta-feira, agosto 11

Notíciário

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Poucos serão os países que, como a Holanda, mal há cataclismo no mundo pronto desatam os cordões à bolsa.

Um exemplo entre inúmeros: veio em 2004 o tsunami, num abrir e fechar de olhos o país inteiro correu a acudir, juntou-se tanto dinheiro – € 183.6 milhões – que tempos depois ainda sobravam € 700 mil e ninguém sabia o que fazer com eles.


Sete da manhã, ligo o rádio para as notícias. As inundações no Paquistão têm consequências mais graves que o tsunami e afectam uns catorze milhões de pessoas. O governo holandês doou € 1 milhão para as vítimas. Mau grado o temporal, os nove turistas holandeses que percorriam as montanhas da região puderam terminar sem problemas a excursão que tinham planeado e já regressaram ao hotel. Não vai haver peditório nacional, porque os responsáveis pela organização sabem, por experiência, que em tempo de férias não adianta pedir, pois a despesa ultrapassa a receita.


- E daí? - dirá você, com razão.

De facto nem a si nem a mim isto afecta. São notícias. Ouvem-se, logo se esquecem, é tudo longe e ambos temos mais em que pensar.