quarta-feira, agosto 23

Dois santos

 

 

Começo por aqui, mas a razão vem adiante. Supõe-se que Cosme e Damião nasceram na Arábia, no século IV. Gémeos, inseparáveis, estudaram Medicina e foram exercê-la na Síria, onde ganharam fama de santidade por não levarem dinheiro aos pacientes, assegurando que os curavam em nome e com o poder de Jesus Cristo. Apreciando pouco a concorrência, os Romanos degolaram-nos.

Ouvi falar deles pela primeira vez no Rio de Janeiro, num tempo em que as patrulhas da Polícia eram feitas por uma dupla de agentes, que os cariocas, com o jeito alegremente zombeteiro e inventivo que se lhes conhece, tinham crismado Cosme e Damião.

Ora conheço eu também dois sujeitos que, de inseparáveis que parecem, embora nada santos, há muitos os não refiro individualmente e com o nome de baptismo, mas pela alcunha que lhes dei.

Funcionam em duplo, avultam em duplo, os seus sorrisos parecem réplicas, têm idênticos interesses, e como sozinhos seriam pouco ou nada, juntam as forças, quase parecem o que desejam parecer. Vivem em sonho um conto de importância.

Cosme e Damião se compadeçam e lhes dêem cura para a toleima.

 

domingo, agosto 20

Os "fordes" da Noruega

 

Há dias em que por pouco, às vezes um nada, e adeus, lá se vai a boa disposição. Pequenos contratempos, mesquinhices, obrigações que sem vontade, e ainda menos paciência, se têm de cumprir, uma troca de palavras que cai mal. Há amizades que sem querer também por vezes contribuem, e nessa categoria cabe o primeiro lugar àqueles, felizmente poucos, que passavam por acaso na nossa rua, quando lhes ocorreu que o não nos vermos há séculos era justficação bastante para a inesperada visita.

A Mafalda pertence ao género. Setentona afável, endinheirada, solteira, sofre desde a adolescência da febre das viagens e, segundo diz, um incontrolável desejo de partilhar as suas impressões e experiências. Contudo, avessa que é às “geringonças da modernidade” – assim nomeia ela as redes sociais e o mais que não compreende ou acha difícil - essa partilha deve realizar-se apenas no seu subconsciente, pois em conversa usa três ou quatro adjectivos, o resto exprime-o com caretas, gestos, exclamações, um pfff! de vez em quando.

- Em 2021 fui pela primeira vez ao Canadá.

- Gostou?

- É imenso! Atravessei-o de comboio. Imagine, onze dias de Vancouver a Toronto! Onze dias! Até fiz rir uma alemã, quando lhe disse que para ir de Bragança a Faro devem ser umas cinco ou seis horas.

A Índia também lhe pareceu imensa, e Nova Iorque será gigantesca, mas nada que se compare com a Cidade do México. E então a Tailândia! Em país nenhum encontrou gente assim. Adorável! No Brasil já esteve sete ou oito vezes. Não é país, é um continente! Grande pena termos perdido aquilo, porque se ainda fosse nosso! A Marrocos irá este ano pela terceira vez. "Liindo! Liindo!"

No Natal esteve na Finlândia e não gostou, falam uma língua arrevezada.

- Agora a  Noruega! Essa é incrível! A primeira vez que vi aqueles “fordes!"

 

 

sexta-feira, agosto 18

Champanhe, caviar, e mais

 


                      https://observador.pt/opiniao/corrupcao-o-que-os-dados-nos-revelam/

 

quarta-feira, agosto 16

Bordamerda

 

Ao jovem e simpático jornalista que me entrevistou, falei com a franqueza que me merece o interlocutor. Li depois que, devido ao meu frequente uso de vernáculo, sentia ele que iria ter dificuldade em editar a nossa conversa,. Assim terá sido, pois talvez no mundo em que funciona seja de bom-tom a linguagem elíptica e, para não ferir susceptibilidades, se evite chamar às coisas pelo seu nome.

Mas eu, que não tenho de dar contas, de ninguém dependo, quando falo aproxima-se-me o coração perigosamente perto da língua. De modo que se no comportamento o sujeito se mostra um filho-da-puta, é esse o predicado que de mim leva. Acho isto e aquilo uma merda, pois assim lhe chamo, sem ter de me encostar a Gil Vicente, Bocage, ou mais clássicos, apoiado tão-só na língua que herdei, falo, me é muito querida pela subtileza que permite, de par com expressões que, para meu consolo e aborrecimento alheio, acertam no alvo.

Há que ter peso e medida, de mim ninguém ouvirá caralhadas, mas a harmonia na terra entre os homens de boa-vontade não se mantém à custa de falácias e rodriguinhos, sim com equilibrado decoro, lisura e, quando oportuno, um sonoro e vernáculo bordamerda.

 

 

domingo, agosto 13

Mas o que é a fama?

 

Tenho ideia de que há um pouco mais de meio século, contrariando as leis da Natureza a fama tem vindo a mudar, e a rejuvenescer-se de curiosa maneira. Desde tempos imemoriais, de modo geral a fama cabia a uns velhotes que na Física, na Medicina, na Matemática, nas Artes, e  duma ou doutra maneira, por talento, ciência, feitos ou sabedoria, tinham dado prova de se elevarem excpecionalmente acima do comum.

Depois, com uma rapidez de estontear, a fama como que se avacalhou. Já não é apenas famoso o que se distingue por feitos ou artes de importância, mas também e ainda mais, qualquer badameco que se agita, urra, guincha, dá patadas ou tatua o rabo.

Se demorava anos, décadas, uma vida, a alcançar a fama, ela hoje é rápida, por vezes mesmo instantânea como o Nescafé. Ao puto que mal saído das fraldas dedilha uma guitarra no YouTube, cabe fama com que, por ambicioso que seja, nenhum cientista ou sábio se atreveria a sonhar.

Quer isto dizer, e por má sorte não é apenas em questões de renome, que andam as coisas fora dos eixos. Hoje em dia, como a solidez dos valores e das certezas iguala a da espuma, um pobre de espírito tem mais probabilidades de do dia para a noite se tornar famoso, que aquele que gasta anos a pintar um quadro, cega a examinar bichinhos com o microscópio, passa as noites à procura de planetas na infinidade do espaço.

Será um mal? Parece-me que não. Há mesmo certa lógica neste evoluir, pois seria bizarro termos famosos como os de antigamente, tanto mais porque poucos os entenderiam. Pelo que oiço dizer, são multidão os que já  acham complicadas em demasia, as chamadas quatro operações que não conseguiram aprender na primária. De modo que teremos de nos contentar com os talentos destes famosos, e bem o merecemos.