segunda-feira, dezembro 26

O alfacinha e o tripeiro

 

Em defuntos e famas o bom conselho é não mexer. No que respeita os primeiros as razões saltam à vista, mas pelo menos para mim, tratando-se de reputações o caso torna-se bicudo. É facto que, como o comum da gente, aceito com pouca vontade de investigar a fama que, pelos séculos adiante, gozam os grandes políticos, grandes generais, os grandes isto e aquilo.

Compreendo que os depositem em panteões, lhes ergam estátuas, gravem o nome em letras de ouro, e que de geração em geração se vá repetindo que foram grandes.

Aqui descambo um pouco, pois se estava a pensar em fama não era a dos caudilhos, mas a da gente da escrita, o tipo a que os estudiosos se referem falando de “grande homem das Letras”, qualificativo seguido, em geral, de pontos de exclamação.

Nesse particular Raul Brandão (1867-1930) é uma das minhas bêtes noires. Se adrego dar com estudo ou artigo que trate dele e da sua obra, desanda-se-me o entendimento.

Leio isto e mais num que acidentalmente me vem à mão:

O catastrofismo ‘finissecular’ de pendor apocalíptico, ora desesperante ora esperançoso, atinge progressivamente na sua obra uma dimensão patética e interrogativa.” E mais adiante: “... tudo isso se torna nele simultaneamente interior e exterior e pode designar-se, nas suas diversas variantes, como o energismo onírico que radicaliza a vida e, em última instância, lhe propicia o único sentido possível.”

Quer o Diabo que em tempos muito idos, por obrigação de trabalho, eu tenha dedicado algum tempo a estudar Raul Brandão. No passado, como agora, o que muito me irrita é a desfaçatez de, para que se lhe não manche a fama, sistematicamente esconder um lado, para mim essencial, da mentalidade do escritor e da sua atitude de cidadão.

Como se dá o caso de estarmos mais uma vez em crise, e os políticos e banqueiros se desunharem em busca de soluções, pelo menos no que respeita a nossa Lusitânia, Raul Brandão, no vol. III das suas “Memórias” sugere esta, que jamais recordo de ter visto mencionada em artigo ou estudo que lhe dissesse respeito:

“A nossa ruína não vem dos políticos nem do regime... o mal é da raça... Se quisermos modificar o país, temos de fazer exactamente o mesmo que se faz com os cavalos, temos de mandar vir homens do Norte, ingleses, escandinavos, suecos, e de manter aqui e além postos de cobrição”.

Ainda nas “Memórias” explica ele que o nosso povo é o fruto de “cruzamentos complicadíssimos de selvagens da época quaternária com iberos, ligures, fenícios...”, nascido de “mães que comiam os filhos”... e dos árabes que em “ondas de sangue negro inundam a península, gente incapaz de civilização, incapaz de coesão nem ideal. Vinham da remota África cevar-se.... A nossa decadência começa com as conquistas, não por causa do oiro, mas por causa dos cruzamentos. O sangue preto alastra no povo... Com uma raça mesclada faz-se um grande país, havendo uma elite que a dirija. O pior é que o sangue negro começa, a certa altura, a alastrar na raça condutora, que não pode conservar-se indemne.”

Mesmo o antagonismo entre Porto e Lisboa é-nos explicado pelo tripeiro Raul Brandão como uma questão de raça: “Ao passo que o semita, no sul, queimava gente aos milhares, nunca foi possível no Porto, devido ao elemento árico, fazer um auto de fé.”

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domingo, dezembro 25

sábado, dezembro 24

Pedantice

 

Por andanças da vida, no decurso de tantas décadas foi diminuto o meu uso activo da língua portuguesa falada. Livros e jornais não bastam para acompanhar a sua evolução, e as eventuais conversas podem alertar para um atraso, uma diferença, mas pouco ajudam a preencher as lacunas causadas pelo afastamento e o desuso.

Nasceu-me daí uma espécie de alergia a certos modernismos e brasileirismos importados com as telenovelas; incomodam-me os anglicismos pedantes dos especialistas que só com eles conseguem falar das Letras e das Artes; posso mal com o jargão autárquico e parlamentar; aflige-me que a vizinha analfabeta já não diga que toma remédios, mas que está com medicação.

A língua portuguesa seguirá o caminho que, com acordos ou discordando, lhe preparam os seus falantes e escritores. Esta minha birra é coisa pessoal, anota apenas uma espécie de desânimo causado pelo desfasamento de que falei, e talvez também por diferenças de sensibilidade. Mas não há jeito a dar-lhe, mesmo sem razão continuarei embirrento.

Deve ter sido nos anos oitenta que pela primeira vez ouvi a palavra plantel aplicada ao futebol. Assustei-me. Vinha do espanhol, eu só conhecia o significado original da palavra argentina que davam os dicionários: "grupo de animais de boa qualidade reservados para reprodução". Vertente assim e desafio assado, apostas,  desalavancagens, roupa vintage, produtos gourmet (por onde andarão as iguarias?).Aqui pela aldeia passam citadinos a falar de ruralidade, sustentabilidade, alteridade geraciona, workshops para idosos. E ninguém ri.

Ri eu, tempos atrás e com boa razão, ao visitar  nos confins transmontanos um Spa & Resort. Aí, num  ambiente de desusado luxo, uma massagista de tacões agulha e generoso decote, fazia uma demonstração da sua técnica nos lombos de um autarca.

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“I am always sorry when any language is lost, because languages are the pedigree of nations."

Johnson

 

 

sexta-feira, dezembro 23

Boas-Festas



 

Boas-Festas aos onze que desde Janeiro de 2007 regularmente visitam este blog. Boas-Festas também aos que por escolha ou acaso o lêem.

Apontamentos (3)

 

"What is written without effort is in general read without pleasure"

Johnson

quinta-feira, dezembro 22

"Deve & Haver"

 

Ter visto a morte defronte dos olhos é expressão corriqueira e inexacta. A morte não se vê, não se deixa ver: sente-se. E não se sente no momento em que o médico, desculpando-se da má notícia, diz que o tumor é maligno; não se sente sequer quando o cirurgião anuncia que nada mais pode fazer, que é caso terminal e o fim chegará dentro de semanas ou meses.

Momentos desses são para uns de pânico, de benfazejo recolhimento para os que, abrindo o seu "Deve & Haver", não se envergonham das contas.

Duas vezes senti a morte perto, duas vezes a senti afastar-se, fugaz como sombra, sem me dar tempo a fazer o balanço. Noutra altura será. Por agora, e até que ela chegue, estou na fase de ir purgando e descartando, se bem que não me queira desfazer daquelas ilusões que guardo no "Haver", as que emprestam cor aos dias e ajudam a olvidar.