"Nos séculos 12 e 13 Portugal é um certo
território, propriedade dum certo príncipe: donde vem? quem é? pouco importa. O
conde . Henrique era francês. Assim, a época da primeira dinastia desmente por
todos os lados, e de todas as formas, a ideia duma raça, possuindo, dum modo
mais ou menos definido, a consciência da sua existência colectiva".
Quem era Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal?
"Era audaz, temerário até, pessoalmente bravo,
qualidades nem tão comum no tempo, como a muitos acaso pareça... mas era seco,
astuto, friamente ambicioso, sem quimeras nem ilusões. Submisso e humilde quando
se achava vencido, subscrevia a todas as condições, aceitava todas as
durezas; para logo mentir a todas as
promessas, rasgar todos os tratados, com uma franqueza ingénua, uma
simplicidade natural, que chegavam a espantar a própria Idade Média".
De D. Pedro, o Cru, já antes citado, alargava ele a
biografia horrorosa: "... tinha a paixão da justiça: era nele uma mania,
como no seu avô fora a guerra: não prescindia de julgar todos os delitos. Os
criminosos vinham à corte desde os
remotos confins do reino. Quando algum chegava, manietado, e o rei
comia, levantava-se pressuroso da mesa, e trocava a vianda pela tortura.
Prazia-se em ajudar e dirigir os algozes; indicava os expedientes e processos
ara obter a confissão dos réus. Nunca abandonava o açoute: enrolado à cinta em
viagem, tomava dele, e por suas mãos castigava o facínora que no caminhos lhe
traziam".
Valendo-se duma citação de Alexandre Herculano,
Oliveira Martins despachava assim o retratos de três reis da primeira dinastia:
"D. Dinis foi um avaro, Afonso IV um homem de juízo, Pedro I um doido com
intervalos lúcidos de justiça e economia".
Dali passava aos Descobrimentos. Ora nós, jovens, não
tínhamos sido insensíveis ao trovejar da epopeia de Camões e, sem excepção,
sabíamos de cor os primeiros versos de Os
Lusíadas. Além disso, o hino nacional, que cantávamos pelo menos todos os
sábados de manhã, era igualmente
belicoso. Pense cada qual o que quiser, não deixa de ser realidade que,
sobre esse período particular da História, nos encontrávamos razoavelmente doutrinados.
As façanhas dos nossos marinheiros e
soldados a caminho do Oriente, eram infinitamente mais excitantes do que as
lamechices de Texas Jack, Jesse James e os restantes outlaws do Far-West.
Ora o historiador, com um simples parágrafo limpou-nos
a cabeça das teias do heroísmo e, pelo menos no que me diz respeito, vacinou-me
contra as versões oficiais passadas, presentes e futuras dos acontecimentos
históricos: "Navegadores... a maneira como nos aventurámos ao mar retrata
ainda a nossa fisionomia colectiva: fomos prudente e pacientemente ao longo das
costas africanas, ou de ilha em ilha, no oceano, caminhando passo a passo,
avançando sempre, tenazes, mas jamais temerários".
As descrições que faz das atrocidades, dos crimes, das
ladroeiras e das selvajarias cometidas pelos grandes e pequenos homens dos
Descobrimentos – extraordinária empresa que pouco mais durou que cinquenta anos
– igualarão as feitas por outros historiadores sérios sobre as façanhas
igualmente heróicas doutros povos. Espanhóis, holandeses, ingleses e franceses
não se comportaram mais santamente. Mas isso pouco importa aqui. O que nos
deixou de boca aberta foi a disparidade entre aquela verdade e a que nos tinham
dado os compêndios, os mestres e as intermináveis comemorações dos
Descobrimentos, da Restauração, do Império, do Dia da raça e dos aniversários
de Camões.
Vasco da Gama perdia aquele ar de grão senhor comedido, protector do indígena: "um
terramoto agitou o mar da Índia quando o Gama pela segunda vez o trilhava; e o
almirante, imagem da bravura épica d povo português, acreditou e disse que até
as próprias ondas tremiam com medo nosso – com medo dele!"
Para começar ordenou o saque de uma nau cheia de
peregrinos que iam ou vinham de Meca, trezentos homens, mulheres e crianças e,
acabado o saque, carregou-a de pólvora e fê-la explodir. Depois intimou o rajá
de Calicut a que expulsasse as famílias mouras da cidade. Não queria expulsar?
Vasco da Gama "ao fundear diante da cidade apresara um número considerável
de mercadores do porto, mandou cortar-lhes as orelhas e as mãos, e amontoados
num barco, foram com a maré varar na praia, levando a resposta à recusa do
aflito príncipe".
Mas não só o Gama. Depois dele, Francisco de Almeida,
Afonso de Albuquerque e outros vice-reis apareciam como gente da mesma estirpe.
Sanguinários, fanáticos, movidos pelo duplo motor da fé e do lucro. Dê-se-lhes
esse desconto: não era só a ganância da pimenta, do ouro, dos diamantes e o
aumento do nome e honras do rei, mas igualmente
a pressa de pôr o Oriente de joelhos diante da Santa Madre Igreja.
"O domínio português – escreve Oliveira Martins –
adquiriu logo de começo o carácter duplo que jamais perdeu, apesar de todas as
tentativas posteriores de regularização e de ordem. Era no mar uma anarquia de
roubos, na terra uma série de depredações sanguinárias... A pirataria e o saque
foram os dois fundamentos do domínio português, cujo nervo eram os canhões,
cuja alma era a Pimenta".
Demorando a recobrar do choque, a História passou a
ter para mim interesse secundário e, desde então, não faço esforço para
reprimir a irritação e o pessimismo que sinto perante os "grandes
feitos".
Bondade de soberanos, inteligência de presidentes,
coragem de generais, espírito de sacrifício de ministros, argúcia sobrenatural
de diplomatas e políticos, guerras de seis dias e guerrilhas de seis anos, tudo
isso me dá a calma daquele que, sabendo-se intrujado, sabe igualmente que a sua
única - e fraca – defesa só pode ser a dúvida.
Hoje como ontem, os cronistas purgam a realidade,
enfeitam-na com guirlandas de boas intenções e ideais, ao mesmo tempo que os
fotógrafos das cortes e das presidências se põem de cócoras em busca do ângulo
mais favorável. Depois uns e outros vão meticulosamente retocando, apagam a
crueldade, as expressões alarves, a estupidez, a hipocrisia, a ganância, o
cinismo, e apresentam ao povo – em nome e para benefício de quem tudo é feito –
a imagem de Épinal que satisfaz as maiorias silenciosas e adormecidas."
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in Portugal, a Flor e a Foice - Quetzal, 2014