quarta-feira, dezembro 23

Dia de luto

 

Não morreu ninguém, não houve funeral, daqueles a quem estimo nenhum está doente, e contudo logo de manhã cedo senti que para mim o dia ia ser de luto. Não é a  primeira nem será a última vez que tenho esse sentimento, é como se tudo ao redor seja sombrio e pesado, descubro nos rostos tristezas que talvez o próprio não sinta, cada sorriso dá-me a impressão de um esgar de dor, uma subida ao Calvário, e embora a noite ainda demore já me sufoca o escuro.

terça-feira, dezembro 22

Feliz Natal, Próspero Ano Novo

É uma obrigação, um hábito, um ritual, e se ao longo das décadas resmunguei, quando estavam a ser horas lá fui comprar os postais e os selos, caligrafei os cumprimentos, os votos, as esperanças, por vezes com a ideia de que a sinceridade das palavras sofria com as obrigações da cortesia.

Há coisa de um mês ocorreu-me que estava a chegar o momento de desejar Feliz Natal e um Próspero Ano Novo. Foi então como se caísse em mim, e tão cedo não irei recuperar da tristeza e da angústia que espera o mundo. 

A mim pouco se me dá, estou perto da meta, mas com que cara posso desejar aos meus, àqueles a quem quero bem e ao próximo, que tenham um Natal Feliz e um Próspero Ano Novo, quando sei que os natais felizes e os anos prósperos acabaram, não vão voltar. Porque a ditadura está aí, nela só os líderes e os apparatchiks têm mando. Ao rebanho bastam o medo e a promessa de que para tudo há vacina.

 

segunda-feira, dezembro 21

domingo, dezembro 20

Vai o dia a meio

Desistir, abandonar, esquecer, deixar a corrente e ficar na margem, não ter olhos nem opinião, esquecer os sonhos, fingir de débil mental, velhinho gagá, e assim evitar que venham incomodar-te com gentilezas e palavras doces de carinho que tresandam a manual de instruções.

Na solidão é cara ou coroa

A solidão tem mil maneiras para atacar. Chega por vezes na forma benigna de umas horas nos sentirmos sozinhos; é pior quando começa de madrugada, tornando tudo de mau agouro; surpreende-nos estando num grupo e de súbito tudo se esfuma, sentimo-nos isolados, as vozes dos outros tornam-se um eco distante.

Solteirão, homem de regras e disciplina, meticuloso até ao exagero, o Emílio vive com a satisfação de que, fora os imprevistos do Destino, tem tudo organizado de modo a que quando chegar a altura gozar a velhice em segurança e conforto.

Nunca foi de insónias, desde que se lembra acorda às seis, tratada a higiene atende ao "Lambareiro", o quarto gato na sua vida e todos assim baptizados, feito isso prepara o pequeno-almoço, que há muito quer à inglesa, com salsichas, ovos estrelados, fiambre, queijo e torradas, por ter lido ser essa a maneira mais saudável de começar o dia.

Confortado, arruma a loiça, limpa a mesa, prepara uma segunda xícara de café, tira então do bolso a moeda de ouro antiga que o avô lhe deu quando era miúdo, pensa em duas coisas que gostaria que lhe acontecessem durante o dia e escolhe então qual será cara ou coroa.

Apertou a moeda entre os dedos, mas ao vê-la girar o "Lambareiro" deu-lhe com a pata e fê-la cair no soalho. Sorriu daquilo, levantou-se, mas para sua surpresa e aborrecimento por mais que procurasse não a encontrava. Ora se a cozinha era grande e no soalho quase centenário havia bastantes frinchas, uma moeda de ouro sempre reluz, mas já lhe doíam os joelhos por andar de gatas. Depois procurou pelos cantos com a lanterna mas foi pena perdida, desistiu, se não era bruxedo parecia.

Pronto para a volta aos sábados de manhã ainda olhou aqui e ali, de brincadeira sacudiu o dedo ao "Lambareiro", se a moeda se perdesse pagava ele as favas.

Sentia-se aborrecido por ter falhado a rotina da moeda, quem sabe se não seria aquilo um prenúncio, mas já agora trocava as voltas ao destino, em vez de ir comprar o jornal começava pelo café, talvez encontrasse o Freitas.

Encontrou a Sara, pecado da juventude, duas vezes divorciada, sorriu-lhe e ia passar de largo mas ela acenou-lhe e lá teve de ir. De pé atrás, que o estafermo era mesmo boa na coisa mas um perigo e sem papas na língua, a gracejar que não se pesca ao anzol sem isca.

Há quase um ano estão de casa e pucarinho, foi ela que ao brincar com o gato encontrou a moeda e agora lhe diz que deixe essa treta de deitar a moeda ao ar, porque o que tem de ser tem muita força.

sábado, dezembro 19

Assino por baixo

"Não se trata da Covid nem do SNS nem da saúde pública nem das festanças, não por acaso permitidas aos titulares do regime. Trata-se de pura exibição de autoritarismo. Há muito que as experiências empreendidas por Costa, Marcelo e Companhia Ilimitada excedem o ridículo, inevitável e compreensível em nulidades, e assumem o descaramento. Ridículo é por exemplo o dr. Costa tropeçar na língua e na lógica (“Devemos procurar evitar estar à mesa o tempo estritamente necessário…”). O descaramento é tropeçar no direito e achar-se habilitado a decidir o comportamento dos cidadãos. E o pior é os cidadãos consentirem. Os cidadãos consentem e aplaudem o enxovalho e a punição dos resistentes ao enxovalho. Não deviam: se a trupe no poder tem nojo de nós, convinha termos nojo deles. Enquanto não retribuirmos o sentimento, a humilhação não cessará, e não cessará de aumentar. Rir do médico das compotas não nos redime da situação vergonhosa em que caímos. Na comédia proporcionada por gente grotesca, os espectadores são o alvo da chacota. E essa é a tragédia."

Alberto Gonçalves no Observador

Um certo território

 

"Nos séculos 12 e 13 Portugal é um certo território, propriedade dum certo príncipe: donde vem? quem é? pouco importa. O conde . Henrique era francês. Assim, a época da primeira dinastia desmente por todos os lados, e de todas as formas, a ideia duma raça, possuindo, dum modo mais ou menos definido, a consciência da sua existência colectiva".

Quem era Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal?

"Era audaz, temerário até, pessoalmente bravo, qualidades nem tão comum no tempo, como a muitos acaso pareça... mas era seco, astuto, friamente ambicioso, sem quimeras nem ilusões. Submisso e humilde quando se achava vencido, subscrevia a todas as condições, aceitava todas as durezas;  para logo mentir a todas as promessas, rasgar todos os tratados, com uma franqueza ingénua, uma simplicidade natural, que chegavam a espantar a própria Idade Média".

De D. Pedro, o Cru, já antes citado, alargava ele a biografia horrorosa: "... tinha a paixão da justiça: era nele uma mania, como no seu avô fora a guerra: não prescindia de julgar todos os delitos. Os criminosos vinham à corte desde os  remotos confins do reino. Quando algum chegava, manietado, e o rei comia, levantava-se pressuroso da mesa, e trocava a vianda pela tortura. Prazia-se em ajudar e dirigir os algozes; indicava os expedientes e processos ara obter a confissão dos réus. Nunca abandonava o açoute: enrolado à cinta em viagem, tomava dele, e por suas mãos castigava o facínora que no caminhos lhe traziam".

Valendo-se duma citação de Alexandre Herculano, Oliveira Martins despachava assim o retratos de três reis da primeira dinastia: "D. Dinis foi um avaro, Afonso IV um homem de juízo, Pedro I um doido com intervalos lúcidos de justiça e economia".

Dali passava aos Descobrimentos. Ora nós, jovens, não tínhamos sido insensíveis ao trovejar da epopeia de Camões e, sem excepção, sabíamos de cor os primeiros versos de Os Lusíadas. Além disso, o hino nacional, que cantávamos pelo menos todos os sábados de manhã, era igualmente  belicoso. Pense cada qual o que quiser, não deixa de ser realidade que, sobre esse período particular da História, nos encontrávamos razoavelmente doutrinados.  As façanhas dos nossos marinheiros e soldados a caminho do Oriente, eram infinitamente mais excitantes do que as lamechices de Texas Jack, Jesse James e os restantes outlaws do Far-West.

Ora o historiador, com um simples parágrafo limpou-nos a cabeça das teias do heroísmo e, pelo menos no que me diz respeito, vacinou-me contra as versões oficiais passadas, presentes e futuras dos acontecimentos históricos: "Navegadores... a maneira como nos aventurámos ao mar retrata ainda a nossa fisionomia colectiva: fomos prudente e pacientemente ao longo das costas africanas, ou de ilha em ilha, no oceano, caminhando passo a passo, avançando sempre, tenazes, mas jamais temerários".

As descrições que faz das atrocidades, dos crimes, das ladroeiras e das selvajarias cometidas pelos grandes e pequenos homens dos Descobrimentos – extraordinária empresa que pouco mais durou que cinquenta anos – igualarão as feitas por outros historiadores sérios sobre as façanhas igualmente heróicas doutros povos. Espanhóis, holandeses, ingleses e franceses não se comportaram mais santamente. Mas isso pouco importa aqui. O que nos deixou de boca aberta foi a disparidade entre aquela verdade e a que nos tinham dado os compêndios, os mestres e as intermináveis comemorações dos Descobrimentos, da Restauração, do Império, do Dia da raça e dos aniversários de Camões.

Vasco da Gama perdia aquele ar de grão senhor  comedido, protector do indígena: "um terramoto agitou o mar da Índia quando o Gama pela segunda vez o trilhava; e o almirante, imagem da bravura épica d povo português, acreditou e disse que até as próprias ondas tremiam com medo nosso – com medo dele!"

Para começar ordenou o saque de uma nau cheia de peregrinos que iam ou vinham de Meca, trezentos homens, mulheres e crianças e, acabado o saque, carregou-a de pólvora e fê-la explodir. Depois intimou o rajá de Calicut a que expulsasse as famílias mouras da cidade. Não queria expulsar? Vasco da Gama "ao fundear diante da cidade apresara um número considerável de mercadores do porto, mandou cortar-lhes as orelhas e as mãos, e amontoados num barco, foram com a maré varar na praia, levando a resposta à recusa do aflito príncipe".

Mas não só o Gama. Depois dele, Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque e outros vice-reis apareciam como gente da mesma estirpe. Sanguinários, fanáticos, movidos pelo duplo motor da fé e do lucro. Dê-se-lhes esse desconto: não era só a ganância da pimenta, do ouro, dos diamantes e o aumento do nome e honras do rei, mas igualmente  a pressa de pôr o Oriente de joelhos diante da Santa Madre Igreja.

"O domínio português – escreve Oliveira Martins – adquiriu logo de começo o carácter duplo que jamais perdeu, apesar de todas as tentativas posteriores de regularização e de ordem. Era no mar uma anarquia de roubos, na terra uma série de depredações sanguinárias... A pirataria e o saque foram os dois fundamentos do domínio português, cujo nervo eram os canhões, cuja alma era a Pimenta".

 

Demorando a recobrar do choque, a História passou a ter para mim interesse secundário e, desde então, não faço esforço para reprimir a irritação e o pessimismo que sinto perante os "grandes feitos".

Bondade de soberanos, inteligência de presidentes, coragem de generais, espírito de sacrifício de ministros, argúcia sobrenatural de diplomatas e políticos, guerras de seis dias e guerrilhas de seis anos, tudo isso me dá a calma daquele que, sabendo-se intrujado, sabe igualmente que a sua única - e fraca – defesa só pode ser a dúvida.

Hoje como ontem, os cronistas purgam a realidade, enfeitam-na com guirlandas de boas intenções e ideais, ao mesmo tempo que os fotógrafos das cortes e das presidências se põem de cócoras em busca do ângulo mais favorável. Depois uns e outros vão meticulosamente retocando, apagam a crueldade, as expressões alarves, a estupidez, a hipocrisia, a ganância, o cinismo, e apresentam ao povo – em nome e para benefício de quem tudo é feito – a imagem de Épinal que satisfaz as maiorias silenciosas e adormecidas."

......

in Portugal, a Flor e a Foice - Quetzal, 2014