segunda-feira, outubro 28

Nótulas (19)


Tradução de um  excerpto de um artigo do semanário neerlandês Elsevier acerca das actuais manifestações no Chile, no Ecuador, na Bolívia, na Argentina e no Líbano:

“Não se trata – como muitas vezes se tem constatado – dos países mais pobres, nem daqueles no escalão imediatamente superior. Neles a população necessita de toda a sua energia e todo o seu tempo para assegurar a sua alimentação, e a amarga pobreza quase sempre vai de mão dada com a falta de desenvolvimento. Mas embora o povo tenha consciência de tudo o que está mal, o fatalismo vence: que adianta obrigar o governo corrupto a desaparecer, se o resultado é a vinda de um outro igualmente corrupto?
Os países onde se levanta o fantasma das demonstrações de massa – e onde vão caindo mortos e feridos – não são países pobres e a mediania da sua população é razoavelmente desenvolvida. Mas em todos eles é gigantesca a diferença entre os ricos e o restante da população, a corrupção está na ordem do dia, sucedem-se os governos compostos da mesma clique, esta procedendo muitas vezes das mesmas famílias. O Líbano e a Argentina são disso exemplo.
Muitos desses países têm um presidente que foi democraticamente eleito, mas que se está nas tintas para os prazos constitucionais e força nenhuma  consegue fazer com que abandone o poder. Evo Morales,  presidente da Bolívia, é número um na América Latina, mas também os há da mesma espécie em África, de que foi campeão o defunto Robert Mugabe.”

domingo, outubro 27

Nótulas (18)


Pouco ou nada me interessa o budismo, não sou de yogas nem meditações, retiros espirituais não é comigo, e contudo passo horas, muitas horas, imóvel a olhar para a copa das árvores e o bocado de céu que tenho defronte, perguntando-me se semelhante atitude é fraqueza do espírito, preguiça, desânimo ou dificuldade de viver.
Talvez seja uma mistura de tudo, mas não explica que dessa imobilidade resulte o cansaço físico de uma maratona que nunca corri, e me venham sombras como se vivesse ainda no Portugal da minha adolescência.

sábado, outubro 26

Há paz no "Xeque-Mate"

­Alguns riem-se daquele modo do Zeferino Bacelar, dizendo que parece da Polícia, porque quando encontra um conhecido automaticamente o agarra pelo braço com uma força despropositada, a que usaria para levar um suspeito para a esquadra, fosse ele guarda em vez do proprietário de duas ópticas que lhe garantem uma ociosidade confortável.
Há os que refilam, livrando-se do aperto, mas quem o conhece sabe que aquele feitio é a expressão dum carinho natural, são raras as pessoas tão genuinamente bondosas e preocupadas com o bem-estar do semelhante como o Zeferino. Ele não se limita ao habitual “Como vai isso?”, e porque tem boa memória recorda achaques que o próprio esqueceu, o que lhe dá oportunidade de provar a sinceridade do seu zelo.
De mim quer sempre saber se continua sem mudança o bom resultado da cirurgia que fiz há uma dezena de anos, e se ainda me queixo da ciática, padecimento de que também o apoquenta, embora sofra mais com a “cefaleia em salvas”, a terrível dor de cabeça a que os franceses chamam migraine e que já tem levado alguns ao suicídio.
Encontrei-o ontem ao fim da tarde, agarrou-me pelo braço à sua maneira, fez as perguntas do costume, mas quando sugeri que fôssemos tomar um café ao “Farripas” o seu rosto tomou uma inesperada expressão de desagrado, e ao mesmo tempo que me apertava com mais força o braço obrigando-me a parar, sussurrou que era melhor irmos ao “Xeque-Mate”.
- E porquê?
Um dos modos aborrecidas do Zeferino é a incapacidade de responder directamente a qualquer pergunta, pois mesmo a mais corriqueira, como por exemplo se tem visto Fulano ou Sicrano, resulta numa lengalenga de detalhes que não vêm ao caso ou num historial sem fim. Desta vez, contudo, adivinhando o meu aborrecimento, pigarreou, olhou em volta desconfiado e foi directo:
- A esta hora está lá o Chico Simões e eu não estou pra encrencas.
- Que encrencas? Vocês são amigos!
- Éramos. Não sei se ainda somos. Em todo o caso no “Xeque-Mate” estamos sossegados. Lá os ciganos não entram, porque o Remondes foi dos Comandos, guarda a moca atrás do balcão e eles também o sabem, não arriscam. Mas com o Valério do “Farripas” atrevem-se.
- E que tem isso a ver com o Chico?
- Que tem? Tem, e muito! É que o palerma já antes se gabava por aí que era do Chega, e como ganharam diz que é só o princípio, hão-de ganhar mais e vai ser uma limpeza. Mas cá na minha um dia destes espetam-lhe uma faca nas tripas e eu não quero ver, não estou pra chatices. Vamos pro “Xeque-Mate”.