quinta-feira, novembro 10

Venha o magala

Os sistemas de governo há tempo deixaram de me interessar e, francamente, sinto-me incapaz de escolher entre a democracia e a ditadura, se estaremos melhor governados por banqueiros, ou se tem vantagem deixar que os magalas, promovidos, condecorados, salvando-se primeiro a si próprios, dêem uma mão à Pátria. Um rei? Por que não?
Agradável e útil seria que, na sua nova forma, e antes de começar a meter medo, o governante ou governo, agindo como é uso por luto nacional, impusesse às massas três dias de silêncio. Do modo que as coisas andam, já não é cada cabeça sua sentença, mas cada cabeça dezenas, centenas de sentenças e sabichonices, todos a gritar como deve ser, desesperadamente peritos, arreganhando os dentes às ideias do vizinho, cobrindo o país de uma desmesurada e espessa nuvem de raivas e frustrações.
Por nós próprios não seremos capazes, e assim, ou nos obrigam a mudar ou isto acaba em sangue. Houve tempo em que zombei do seu ar mata-mouros, mas começo a alinhar com o genial Otelo.

quarta-feira, novembro 9

Deixa andar

Anos atrás escrevi a Deus(*) e durante um tempo tive a impressão que Ele tinha ouvido a minha prece. Mas tal como acontece com os produtos, talvez as orações tenham também  prazo de validade para a eficiência, pois ao contrário de como gostava de ser e permanecer, estou a dar comigo estranhamente manso.
Uns dizem-me que é cansaço, a minha mulher alvitra a idade, os brejeiros sorriem e, piscando o olho, garantem que o meu modo é só fingimento, aparento duro mas no íntimo sou  de algodão em rama.
Ultimamente dou comigo a compreender, a perdoar, a dizer-me que o outro talvez tenha a sua razão, o sacana é capaz de proceder assim por engano, nem todos os trafulhas merecem o azorrague.
Desconheço-me. Este não sou eu.Tenho vontade de sair em busca de zaragata. Mas num povoado de gerontes a possibilidade é nula de encontrar parceiro belicoso, fora que todos eles há muito alcançaram o estádio em que agora me encontro: o do deixa andar.
..................

(*) http://tempocontado.blogspot.com/2007/01/escutai-senhor.html

terça-feira, novembro 8

What the fuck...

Trás-os-Montes não conta porque, como alguns afirmam, isto é um "fim do mundo", mas no resto do país pouco inglês oiço falar. E o que oiço da boca dos compatriotas raro brilha pela qualidade da pronúncia ou riqueza vocabular. Na blogosfera nacional, porém, quase toda a  gente dá a impressão que come, dorme, copula, geme, sonha, escreve, cita, copia, chora e canta em inglês.
Vai-se de blogue para blogue, é um espantoso, embaraçoso, não mais acabar de canções e citações, poemas alheios ou de lavra própria, páginas e páginas a dizer "Olha isto! Olha para mim! Olha quanto sei! Estou ou não estou ao corrente?"
O que na blogosfera há de sério, inteligente, capaz, genuinamente culto, nem de longe  faz contrapeso à banalidade, à pelintrice, ao infantilismo do mostruário de aparências e fingimento. E não me venham com a influência da televisão, do cinema, do rock, da Coca-Cola. Sabe-o você, sabemo-lo todos: achamos de menos valia e pouco afidalgado o que temos, vá então de arremedar e importar, fazer de conta, viver de ilusões e aparência.
Não é de agora. Para a minha geração e as anteriores era com o francês que se fazia bonito e  botava figura. Dava menos na vista por serem outros os tempos, menos as gentes, e limitados os meios. Mais quand même.
Chego assim à melancólica conclusão de que isto de querermos parecer o que não somos, não temos, não sabemos e falamos mal, talvez seja coisa atávica, defeito que nos corre no sangue, e em vez de eliminar vamos refinando.

segunda-feira, novembro 7

O "Panças", a virgem e o seminarista

História contada ao serão. Enredo camiliano. Pai nobre, ameaças de morte, tiros que de propósito falham o alvo, virgem desflorada pelo amante da mãe, o "Panças".
O pai, ricaço no Brasil, conversa o seminarista, enche-lhe a bolsa em troco da cornadura, abalam os recém-casados para Belém do Pará.
Vêm de visita anos depois, "brasileiros" no luxo e no falar. Por artes que só podiam ser de Belzebu – como a bruxa de Algoso confirmou - o "Panças" reacende na rapariga o fogo da carne, o ex-seminarista apanha-o a montá-la no leito conjugal. Também ele dispara uns tiros e, bom aprendiz,  avisadamente também erra a pontaria. Escapam os adúlteros à fúria assassina, corre o povo a acudir, reza-se na igreja para que não haja mais desgraças.
Outra vez corno, e com razão descontente, o "brasileiro" mete-se a caminho para Lisboa, toma lá o paquete, e de momento sai da cena.
O problema agora é do "Panças", que cedo e com surpresa descobre que a amásia, a "Puta" – assim passa a chamá-la – não presta. Não presta na cama, não presta na cozinha nem nos arrumos, e como é senhora não se lhe fale em coisas de gado e lavoura, porque torce o nariz.
Habituado a fazê-lo às mulas que não obedecem, o "Panças" deita-se a ela à cinturada e pontapé, mas o estupor refila, não aprende.
Entra agora no enredo um padre de vila próxima. Ciente dos sofrimentos da infeliz e dos dinheiros do pai, apieda-se, recolhe-a, também a monta - o que se vem a saber por indiscrição da "sobrinha" do santo homem. De seguida, intermediário experiente, bom negociante, a troco disto e daquilo consegue os vários perdões e, final feliz, acompanha-a de retorno ao seio da família, ao bem-estar e à paz conjugal.

Como se veio a falar do caso? Estávamos a lareira depois das notícias, tínhamos discutido a crise e os processos que vão correr, quando alguém disse que os filhos da puta tinham chegado à aldeia de tal. Houve confusão, não se compreendia o que teria trazido o sucateiro, os banqueiros e os políticos corruptos para este longes. Mas logo se aclarou. Não era deles que se tratava, era dos filhos da "Puta", história dos anos sessenta que poucos  recordavam.

domingo, novembro 6

A Eduarda

Vem o pedido para que escrevas uma carta a ti próprio no tempo da adolescência. Grátis, claro. Escreves. Envias. Depois nada acontece, ninguém dá contas, se a publicaram ou não é mistério. Se fosse paga teria valor, mas coisa escrita Pro Deo até a cortesia dispensa.
Ponho-a aqui, porque afinal é trabalho, e talvez faça sorrir um ou outro que também conheceu um amor impossível.

Caro José,
Fraca ideia, a carta. Para mal já bastava teres-te apaixonado pela Eduarda, passando por alto que ela, com dezoito anos, nem sequer vê um puto de dezasseis. Narigudo, desajeitado, de fraco músculo e barba rala, nem de longe te podes comparar ao tenente Costa.
É verdade que te sorri, chama-te "o tagarela", e na noite de São João deu-te aquele beijo, inesperado, doce, cheio de promessas. Mas tudo isso é sonho de que não queres acordar, pois, como sabes, porque os espias, é com o tenente que vai para a praia e passa horas na esplanada do "Girassol".
Aos domingos à tarde, montado num baio, "O Fusca", como lhe chamas no teu azedume, atravessa a praça. A Eduarda espera à janela, ele estaca o cavalo, entrega-lhe a rosa, bate uma continência e segue adiante. Quem vê diz que fazem um lindo par.
E que dizes tu? Que um dia o matas! E para que te deu ciúme? Para escreveres a carta que ela já lhe mostrou e a esta hora estão ambos a rir.
Vê se aprendes.

sábado, novembro 5

Fantasmas

Obrigo-me, vou manhã cedo pelo monte a fingir que me convenço da precisão de exercício, mas mal a aldeia desaparece na volta do caminho, perco-me no longe da serrania, extravio nos pensamentos. Outra encosta e esqueço a paisagem, levantam-se os fantasmas do meu passado.
Mulheres de xaile, só o rosto à mostra, silenciosas, cardando lã, fiando linho. Homens enjeridos, curvados, gastando o dobro da força com enxadas de mau corte num chão de pedra e escassa terra. Calças de burel, puídas, remendadas. Botas velhas com solas de pneu. Fumo branco dos toros que ardem lentamente numa cova. Ajoelhado, o velho sopra de vez em quando, abana com o chapéu, cauteloso para que as chamas só queimem o preciso e façam carvão. Paciente, cuidadoso, se encher duas sacas e conseguir vender ambas terá ganho o dia. Uma mão na rabiça do arado, a outra a segurar a vara com que lhes bate, o homem berra, quer sulcos direitos, mas a mula e a burra, desiguais na força, fazem má parelha. Um vulto desaparece sob a carga do feixe de estevas para o forno. A aragem traz o chio longínquo dum carro de bois.
Confundem-se-me os anos e as estações, sobrepõem-se os rostos, as idades, os parentescos. Não distingo os que partiram dos que estão no cemitério, ora os vejo miúdos ranhosos a saltar nas medas de palha, ora me surgem desdentados, lacrimosos, o corpo torto da idade e do mau trato.
Caminho sem pressa,  despegado do mundo. Os fantasmas fazem boa companhia. Sou mais eu entre eles do que quando daqui a instantes, descida a encosta e feita a vénia à igreja, voltar à realidade.

quinta-feira, novembro 3

O ferro

Veio apressado, o sorriso largo, a acenar com o jornal, querendo saber se já me tinham dado a boa nova. Tinham, mas mesmo assim desdobrou o Expresso, abriu a página dupla a mostrar que daqui a nada voltam a abrir as minas de ferro de Moncorvo, para nós ao pé da porta.
- Vai ser um assombro! Muda tudo!
Conheço-lhe o feitio e os entusiasmos, o gosto inocente pelo exagero, aquele modo do doutor Margaride de A Relíquia: "Ninguém como eu aprecia o grandioso!"
Diga o jornal que são mil e quinhentos milhões de euros, ele tem outras certezas, sabe-o de fonte limpa:
- Cinco mil milhões! Ou mais!
Segura-me o braço, olha cauteloso em redor não vá alguém ouvir, porque a coisa ainda é confidencial:
- Vão pôr cá os altos-fornos! Disse-mo um engenheiro da barragem, primo da minha mulher.
Oiço-o com o ar compenetrado que o assunto pede, e ele, certo da minha atenção, entra em transe. É em simultâneo perito do minério, das finanças, do urbanismo, do meio ambiente, aponta o que vão desviar, o que vai crescer, descreve luxos futuros, apoia-se agora no semanário e garante, exaltado, talvez a temer que eu, desdizendo-o, quebre o feitiço:
- Isto vai ficar como Lisboa! Ou até melhor! Vamos ter auto-estradas, vamos ter hotéis, vamos ter infra-estruturas…
- Infra-estruturas?
Malícia minha, esta rasteira de pedir definição, mas ele apara o golpe:
- Infra-estruturas, sim senhor. Tudo como na capital. E já não é sem tempo, que também temos direito.
Entra agora numa explicação de como vai ser o transporte do minério, por onde passará a linha do comboio, as dragagens que vão fazer no rio, mas para seu desgosto o cansaço não me deixa acompanhar mais visões.
Contudo, ainda tenta: - Olhe que isto vai mudar o país!
Aceno que sim e sorrio, sem coragem de lhe dizer que no que toca a pátria já nenhum sonho me conforta.

quarta-feira, novembro 2

O enterro

Muito há que deixou de ser o que era. É muito o que, por ter mudado, baralha os sentimentos,  o comportamento, as ideias, as relações.
O enterro estava marcado para as três, mas bem antes começou a rua a encher-se de gente de fora, filhos, netos, primos, parentes afastados que aparecem em ocasiões destas e na festa do padroeiro. Malta que perdeu o ser da aldeia, mas ainda não ganhou por inteiro modos de cidade. Arrogantes, olham de lado ou sem ver, atiram displicentes um olá, mostram como se esmaga a ponta do cigarro com o sapato novo. Chegaram em Audis e Mercedes, jipões, 4WD pintados nas portas, Toyotas para andar na selva.
Exibem uma tafulice pateta, fardados do que julgam moda e é de um caricato de entremez. Deixa uma o coche, mostrando-se  de saiinha curta e botas a encher a perna grossa, botas altas, de cavalaria, com esporas e fitas para o estribo. Vem este fardado de cabedal vermelho e branco, montado numa Kawasaki TT com as mesmas cores, o rosto escondido pelo capacete. Pára, mas o motor que ronque, e assim se saiba que também veio. Uma tia espera encostada à parede do cemitério, mãos espalmadas sobre o peito. Será pose devota, mas só noto as unhas em exposição, o brilho de verniz roxo e lantejoulas. Passam duas, apressadas, a morder maçãs. São mesmo da cidade, por isso e para que se veja, levam na outra mão a garrafinha de água.
Veio recado que o padre ainda demora, talvez só chegue depois das quatro. Ouvem-se gargalhadas, piadas grossas, há bruteza nos gestos, impaciências de cidade.

Sento-me numa pedra, na rua que de momento não é minha, mas onde nos mais dias e noites passo sozinho. Entristece-me a recordação da falecida, amiga de muitos anos. Deveria ter  outros pensamentos, mas entristece-me também, mais ainda, esta gente que já não me pertence, mudada, travestida, vaidosa de ter trocado o genuíno pelo arremedo.
Por vezes, num funeral, não é só o morto que vai a enterrar.

terça-feira, novembro 1

Velório

Ontem  à noite fui a um velório, o ritual que a cidade perdeu, mas aqui se mantém,  partilha silenciosa de medos e respeito, dor, recordações do que poderia ter sido mas nunca foi, do que irremediavelmente nunca será, do que sonhámos e se esfumou.
Está a defunta no centro da capela e, todos anciãos, jovem nenhum, sentámo-nos em torno, uma voz reza o terço, outras respondem. Ensimesmados, os nossos pensamentos não acompanham a litania. Os olhos perdem-se num rosto que chora, seguem o mais idoso de todos nós que, quase centenário, acaba de entrar. Erecto, digno, curva-se um instante junto do caixão. Aperta depois a mão a cada um dos presentes, faz uma última vénia à defunta, e assim se despede, recusando ajuda ou companhia que o leve a casa e à solidão em que vive.
Uma mulher abraça a morta, retira o véu que lhe cobre o rosto e beija-a, sufocada de pranto,  talvez a remir um pecado, talvez a chamar a memória de uma alegria para sempre perdida.
A chuva grossa, de tempestade, matraqueia no telhado. Alguns cabeceiam, uma esfrega os dedos nos olhos, aquele vai espevitar o morrão dos círios e, da tremura ou desajeitado, entorna um vaso.
Anunciam a meia-noite. Levantamo-nos e aguardamos, veteranos em formatura, as bengalas por arma, a nossa marcha um marcar passo.

domingo, outubro 30

No fim do mundo

Pela graça de Deus, de Ulisses, D. Afonso Henriques e do "Navegador", Lisboa é desde tempos imemoriais um farol. O seu luzeiro brilha em especial na faixa de terra que, grosso modo, vai do Cabo Ruivo a Cascais, fazendo que aí, como numa estufa bem aquecida e  iluminada, se crie uma espécie superior do português: o lisboeta.
Infelizmente, como é sabido, o excesso de brilho distorce a visão, de modo que o lisboeta encontra alguma dificuldade em avaliar distâncias e distinguir em proporções mais ou menos correctas o que existe para além do seu confortável habitat.
Extraordinária anomalia é essa, que lhe permite, por exemplo, muito saber do mundo civilizado, mas lhe enevoa o entendimento e os olhos se por acaso os fixa  nas Beiras ou no Douro. De Trás-os-Montes então nem se fala. Assim se podia ler no Público de ontem que Vasco Pulido Valente se referia a alguém assinalando: "nasceu no fim do mundo (em Bragança)".
Isto é grave. VPV deveria saber que apenas quinhentos quilómetros separam Bragança da Cidade-Farol, mas aos seus olhos de lisboeta essa é uma lonjura de estepe. Paris ou Londres são duas horas de voo, mas Bragança? Onde fica? Têm lá electricidade?
Graças à União Europeia até estradas. Esgotos também. Embora, verdade se diga, que numa pressa nos agachamos atrás dos muros. E ainda cá há burras com alforges, vamos por água à fonte, somos da gaita-de-foles e dos pauliteiros .

Conta-se do rei D. Luís que, navegando no seu iate, perguntou a uns pescadores se eram portugueses.
- Saiba Vossa Majestade que somos só pescadores.
E assim parece ser connosco, senhor Pulido Valente: gente do "fim do mundo", somos só transmontanos.

sábado, outubro 29

Vale de lágrimas

Bem gostaria de começar o dia com pensamentos elevados, tomando decisões de monta, ouvindo aquelas vozes interiores que alguns felizes ouvem e lhes sussurram o caminho da importância.
Comigo, infelizmente, mal dou conta de ter acordado e já me lembram a vidraça quebrada, a porta que se desengonçou, o tubo do gás que é preciso substituir, o monte de garrafas a levar para o vidrão, o Milbemax do gato, a avaria da máquina de café, a encomenda do queijo.
Pouco passa das oito e meia e sinto-me primo de Fernão Mendes Pinto, com vontade de bradar também "Pobre de mim!", porque muito cansam as pequenas mas exigentes andanças da lida doméstica.
Invejo os que de manhã à noite se ocupam apenas nas actividades nobres do intelecto, ignorando como se varre um pátio, se despeja o lixo, afia uma faca ou põe de vinha-d'alhos a marrã.
Bem-aventurados esses, que irão do mundo sem saber que estiveram num vale de lágrimas.

sexta-feira, outubro 28

Falar da Pátria

Falar da Pátria? Criticar os governantes da Pátria? Os de agora, os anteriores e os futuros, porque escolhem quem tem lugar à manjedoura e esta sempre foi e será pequena?
Criticar a apatia e a inocência do cidadão, que não sonha com direitos, progresso, justiça, mas tem como anseio maior uma boa reforma? E cedinho, se faz favor, com anos que contem a dobrar?
Falas nada adiantam, e as críticas são efectivas se por detrás delas há uma força colectiva, uma vontade de agir que exceda a conversa no café ou o palavreado da televisão.
Infelizmente esta nossa Pátria – nós todos, você e eu - é das que espera. Espera redenção, melhores dias, um futuro de bons almoços e que se realize a sério aquela promessa do sol a brilhar para todos nós. Brilhou, sim senhor, três décadas, mas só para alguns, os mais contentaram-se com o brilho do cartão de crédito. Mas pouco importa.  Se o homem do fraque perdoa aos outros, também nos perdoará. E não é vergonha ter dívidas, vergonha é não ter um Audi topo de gama, não vestir Armani, ir à Madeira em vez das Maldivas.

quinta-feira, outubro 27

Romance em dois volumes

Ambos sabem. Ambos fingem e escondem. Dura há anos, mas continua febril como se fosse de ontem o começo daquela excitação sem nome.
Nem amor oferecido, nem desejo da carne confessado, é nuvem que a ambos envolve e neles descarrega a electricidade que lhes faz sentir o que fica aquém e além das palavras. Falam-se com sorrisos, olhares, pequenos gestos que a outros parecerão de inocente acaso ou coincidência, mas se lhes tornaram linguagem confidencial.
Pode parecer fortuito o modo como se  contam uma anedota, relatam um acontecimento, mas as palavras vão carregadas de segundo sentido e ternura secreta. São outras tantas mensagens em código o braço que se aperta, a mão ligeiramente espalmada no dorso, pousada no ombro, o choque acidental dos corpos ao passar uma porta.
Encheria um livro o que sentem e calam com os beijos castos na face quando chegam ou se despedem. Os olhares dariam um segundo volume.

terça-feira, outubro 25

Susto

 (Clique para ver melhor o "rabelo" e a preta de Angola, recordação de soldado que lá penou)
Nem sempre, mas há ocasiões em que as aparência iludem e noutras assustam. No meu quarto de trabalho em Amsterdam, de que falei aqui  http://tempocontado.blogspot.com/2008/10/priso.html ,e no resto da casa, contando por alto deve haver cerca de quinze mil livros.  Houve mais, mas nem o espaço é elástico e muitos há que, uma vez lidos, não merecem a estante.
Cá na aldeia tenho oficina na antiga adega que, agora arranjada, é uma modesta, confortável, e sossegada acomodação. Mas o que a mim agrada a outros transtorna, alguns há que forçam um sorriso de circunstância, dias atrás um acusou o susto e não se conteve:
- Você só tem estes livros!?
Entre perplexo e atordoado, apontava os armários e a cantareira que antigamente serviam na cozinha da minha avó Elisa, e agora uso como desleixada estante.
De facto, com esta "pobreza" não correspondo à imagem do verdadeiro escritor, pois esse sabe que a pose se toma defronte de estantes de pau-preto e prateleiras a abarrotar com lombadas de couro e ouro.

segunda-feira, outubro 24

Disfarce

Disfarçamo-nos no que escrevemos. Ora mostramos como gostaríamos de ser, ora escondemos os nossos medos entregando-os ao personagem, fingimos rir do que nos envergonha, criamos a virtude que seria bom ter e a coragem que nos falta, escondemos nesse irmão de empréstimo a cobardia e as hesitações que nos afligem, comete ele os crimes que não ousamos.
Toda a escrita é auto-retrato. Quanto melhor conseguida, mais difícil se torna, mesmo para o próprio, separar o vero do inventado. É também frágil equilíbrio em corda bamba, que uma vez perdido leva a cair na pose, dá a ilusão de que se pertence aos eleitos.
Quem pensa em escrever deveria, pois, como um beneditino, obrigar-se à clausura. A probabilidade é grande que, terminado o retiro, corra dali ao psiquiatra em vez de se  arriscar à escrita.

domingo, outubro 23

Sem bengala

Depois de uma ligação infeliz e tantos anos de espera, nove, acredita que finalmente encontrou o amor. Diz que ele a ouve, lhe pergunta como foi o dia no trabalho, se se sente bem, se pensou tanto nele como ele pensou nela.
Criancices. De uma mulher de trinta e seis, cabeça no seu lugar, doutorada numa ciência muito concreta, esperava eu outro raciocínio e argumentação de mais solidez. Porque mesmo que hoje se dê o nó com tanta facilidade como se pode desatar, a vida a dois exige ingredientes de mais peso que um ouvido atento ou o carinho de "como foi o teu dia".
Enfim, cada um lá sabe as linhas com que se cose.
Agora queria ela apresentar-mo, a modos de trazê-lo à inspecção, não que o meu juízo fosse modificar a escolha, mas para receber como que o beneplácito de quem, tendo corrido mais mundo, seria capaz de farejar mazelas.
Recusei. O tempo lhe ensinará que na vida os passos se dão sem bengala nem garantia.

sexta-feira, outubro 21

Unhas

Em terras de eficiência e outros modos, o diferendo que tenho com um serviço e dura há quase um ano, não seria diferendo. Nesta nossa, porém, de brandos costumes e sem pressas, a coisa inexplicavelmente se arrasta.
Ora é um documento que falta, outro a que falta o carimbo, o fraseado que tem de ser diferente, a assinatura mal reconhecida, a certidão que caducou, os dados certos que misteriosamente deixaram de corresponder.
Pedi conselho e o amigo ouviu-me paciente, mas em vez da explicação demorada para que me tinha preparado, a resposta foi breve:
- Untas as unhas a…
Má hora e fraco conselho, pois se assim tiver de ser o caso vai-se arrastar ad infinitum ou desisto. Pela simples razão de que não faço ideia de como se untam as unhas de alguém.
Pergunta-se de caras quanto vai custar? Mete-se dinheiro num envelope? Haverá tarifas? Regateia-se? Onde encontro a desfaçatez de propor a outro o que eu próprio consideraria um rebaixamento sem nome?

quinta-feira, outubro 20

Desaparecidos

Alertam-me alguns seguidores deste blogue que os seus retratos ou indicativos desapareceram ou não constam da barra "Seguidores". O "Patrão da Barca" permite a colocação, mas nada tem a ver com a remoção dos mesmos, o que é da responsabilidade de www.blogger.com

Voltas

(Clique para aumentar)
Saio de casa por volta das oito e vou pelos caminhos da infância, afastando de mim memórias  e ilusões românticas.
Isto são terras ermas, perdidas. Asfalto, antenas, paredes caiadas, nada mais que aparência, fatinho domingueiro a esconder a solidão, a tristeza, a velhice e o abandono.
Venha para estes lados quem quiser visitar o Portugal que foi e ainda é, aquele a quem nenhuma crise anunciada assusta, pois para quem sempre teve pouco, menos miséria já é melhoria.
Duas horas de monte sem encontrar vivalma, resmungando contra os meus fantasmas, contra  a dor que dá o sentimento de impotência de ser apenas um número.

terça-feira, outubro 18

A mulher-a-dias

E é assim que uma amistosa conversa ao jantar desanda em azedume. Somos quatro à mesa. O casal a findar os quarenta, a minha mulher e eu anciãos com um pé na cova. Como é inevitável acabámos por discutir a crise, que a nós não afectará, pois vivemos nos Países Baixos, numa sociedade rica, democrática, com justiça modelar e de excelente organização a todos os níveis.
Eles, porém, têm todas as razões e mais uma de recear o futuro, pois são poucas as garantias de que continuem a manter os ganhos e mordomias que até agora têm desfrutado. Em determinado momento, tentando ele esclarecer os sacrifícios que os esperam, explicou que já tinha dito que talvez a mulher-a-dias passasse a arranjar-lhes a casa três dias em vez dos cinco.
Crente de que falava sem ironia, sugeri que seria mais avisado, e por certo mais económico, seguir o nosso exemplo, pois desde que casámos em 1962 somos nós quem, em equipa, faz os trabalhos domésticos.
Primeiro disse que lhe custava a acreditar. Que não compreendia. Repliquei com algum veneno. Retorquiu ele, com desdém. Na posição que ocupa não se vê a limpar o pó ou a fazer camas. E o cargo da sua senhora "tão-pouco lhe deixa tempo ou disposição para as lides domésticas, que aliás são melhor desempenhadas pelas classes baixas".
Vi vermelho, mas contive-me, afinal estavam em minha casa. Fingi a calma que não sentia e uma sabedoria que não possuo. Expliquei-lhes que na Holanda também há mulheres-a-dias. Emprega-as  quem, por trabalho ou filhos pequenos – não por estatuto social – necessita de ajuda. E são caras. Dez a quinze euros por hora para as ilegais, vinte e oito para as restantes. Em quatro horas fazem os trabalhos pesados, o casal ou a família trata do resto durante a semana. Salvo casos muito excepcionais, a ninguém, mesmo aos ricos, passa pela cabeça ter mulher-a-dias a semana inteira.
Preferi esquecer que um holandês ou holandesa acharia imoral, e um desperdício, estar horas numa esplanada, cinema ou chá das cinco, em vez de lavar a roupa ou sacudir a passadeira.
Ética calvinista? Pois será. Mas abençoada terra de moral, respeito,  justiça e igualdade. Infeliz pátria onde trabalhar ainda é "p'ró preto".

segunda-feira, outubro 17

O piloto da barra

Comenta, analisa, berra, excita-se, pragueja, insulta, sublinha a negrito, dorme mal, tem azia.
O mundo não se dá conta, o seu blogue não é lido (retirou o Sitemeter). Colegas, amigos, mulher, o vizinho do terceiro, o Sousa, que também é socialista, parecem todos surdos e desinteressados. E ele, que estudou a fundo o assunto, sabe exactamente onde encontrar a salvação para a desgraça do país.
Aponta um a um os erros, os falhanços, os crimes, a estupidez deste governo que levará Portugal à bancarrota. Se lho perguntassem, mas ninguém pergunta, explicaria em detalhe o que se deveria fazer, traçaria a rota do caminho da salvação.
Já duas vezes o aturei com paciência, recordando este ditado holandês, sabiamente náutico: "os melhores pilotos da barra são os que ficam no cais".

Os seguidores (cont.)

Apresentá-los aqui - veja a barra lateral - é a forma que tenho de lhes agradecer a constância e o interesse.

domingo, outubro 16

Manif

Vêem-se uns já no Maio 68, sonham outros com nova Abrilada, mas tudo aquilo é filme e festa, arraial de cegos que preferem não ver, manif  das boas para discutir no café depois de almoço com os argumentos da ignorância.
Desobediência civil? Será preciso repetir-lhes que não leva a parte nenhuma? Que acabam sempre por vencer os que têm na mão a faca, o queijo e o prato onde isso se serve? E que o voto é miragem?
Foi grande a festa, a paulada será em proporção. O pesadelo veio para ficar, porque o país continuará a ser de desigualdades medievais, corrupto nos órgãos de governo e controlo, corrupto também na mentalidade do jeito, da cunha, da subservência, do favor e do clientelismo.
Em vez de sair à rua para o inútil folclore do protesto, ou ficar em casa a remoer a sua impotência, melhor seria que cada um deitasse contas àquilo que como cidadão aceita ou definitivamente  recusa.
Essa, sim, essa é a escolha difícil, fundamental. Improvável, também,  no Portugal que os portugueses ao longo das últimas décadas transformaram num teatro de irrealidade e fantochada. Escolha que se faz no íntimo, não na praça pública.

sexta-feira, outubro 14

Estou ao "SOL"

(Clique para aumentar)
Está no "SOL"de hoje e também aqui: http://quetzal.blogs.sapo.pt/

Os seguidores

Jornalista que muitos anos fui, escritor que ainda sou, a relação com os meus leitores  nunca ultrapassou a breve troca de correspondência ou os encontros fortuitos em Feiras do Livro, apresentações e semelhantes.
Começado em Janeiro de 2007, este blogue não trouxe mudança a essa situação e, julgava eu, assim permaneceria. Lá vinha de vez em quando um mail que, como tenho por costume, era respondido "pela volta do correio", ou então, num encontro fortuito, uma gentil pessoa queria  saber de mim isto e aquilo.
Até ao dia em que dei conta do fenómeno que me foi novidade: o blogue tinha seguidores, gente que, na minha suposição, ao ligar o computador, recebe a prosa que debito. Ora isso veio transtornar a relação que atrás referi, pois me recorda que os actuais sessenta e quatro seguidores do Tempo Contado formam o que temo desde a instrução primária: um júri de exame.
Imagino-os de sobrolho franzido e muito críticos, espiolhando as frases, corrigindo mentalmente os meus erros, comparando-me a este e àquele, escrevendo más notas a tinta vermelha. Recentemente desapareceram três deles e logo me senti culpado como na quarta classe, com o sentimento de não ter estado à altura do que de mim esperavam ou não ter dado a resposta certa.
Que tudo muda, desde as simpatias às qualidades do mundo, já desde Camões o sabemos, mas não é isso que me vai curar do temor que me causam os seguidores, nem do trauma do  abandono pelos que, sabe-se lá com que boas razões, o deixaram de ser.

quinta-feira, outubro 13

Essa coisa da admiração

Estou no  mundo, aceito o geral das regras da vida em sociedade, mas no contacto directo com o semelhante o meu comportamento deixa por vezes a desejar. Ou porque emitimos em ondas diferentes, os caracteres se desajustam, ou fala cada um em sua "língua", uma conversa comigo pode descambar em irritação.
Falávamos de literatura, influências, estilos, leituras feitas, quando com genuína curiosidade e simpatia, a senhora disparou:
- Quais são os escritores que mais admira na literatura portuguesa contemporânea?
- Nenhum.
Tive a impressão de vê-la recuar, chocada com a bruteza, a falta de tacto, e o meu descaso pelas regras da conversa.
Ela esperava nomes, e mais tarde, tentando apaziguar-me, falou da inevitável Agustina, de Saramago, do Vergílio, enquanto que a minha cabeça, desinteressada das várias famas, continuava presa ao significado da palavra e ao sentimento de admiração.
Evidentemente há colegas que leio com interesse e simpatia, mas, oficial do mesmo ofício, a leitura que deles faço tem exigências que o leitor comum dispensa. Respeito-lhes o trabalho, sim, louvo-lhes o esforço – porque esforço é – a persistência, a coragem e a teimosia. Gostaria de vê-los remar mais contra a maré? Pois gostaria. De ver menos a sacrificar às modas? Seria bom.
Mas se respeito e louvor é coisa para muitos, o merecimento de admiração, de verdadeira admiração, cabe a poucos, todos mortos, facilmente se lhes faz a lista.

quarta-feira, outubro 12

Pesadelo

Se disser que me preocupa e entristece, ninguém vai acreditar. É o corrente, os olhos habituam-se, quem passa atentará num ou noutro detalhe, mas não vai perder tempo nem pensamento com o que aquilo tem de lúgubre.
A esplanada da bomba de gasolina, ontem a meio da tarde: quatro matulos na força da vida, derreados, cada um em sua mesa, olhando a bica vazia, trocando de vez em quando um dichote, um piscar de olho, um sorriso alvar.
Se fossem mexicanos deitados ao sol, as caras tapadas pelo sombrero, dois ou três cães por companhia, a cena seria pitoresca e folclórica. Nesta caso não é. Talvez se refugiem ali para esquecer, a fingir que repousam do trabalho,  lhes sobra tempo por estarem "entre dois empregos". Que abrem uma pausa nos problemas que a vida traz. Que não aguentam a rezinga das mulheres.
Mil desculpas poderia arranjar, umas válidas, ou então piedosas, nenhuma satisfatória. O que  de facto não interessa, pois o que me apertou o gasganete foi a ideia de que, não fosse o instinto que me levou a fugir, a minha vida poderia ter sido assim.
Quando o senhor disse que o depósito estava cheio e eram quarenta euros, tive a impressão de acordar de um pesadelo.

terça-feira, outubro 11

Arraial

Foi num arraial, irá em quatro ou cinco anos, e quando presenciei a cena disse comigo que o sinal era mau. Delgadinha, bonita, radiante como uma rapariga pode ser aos vinte, fazia um lindo par com o moço que a prendia nos braços, ambos tão apaixonados no ritmo que os outros tinham deixado de dançar e ficaram a ver.
O espectáculo valia a pena. Houve bis e mais bis, alguém disse que um conjunto assim e um par daqueles, parecia  mesmo o filme do Travolta.
Rapaz pesadão e mole, o marido sorria com ternura, na sua ingenuidade de apaixonado não tinha olhos para o erotismo do par, o langor com que a mulher ora se abandonava ao outro, ora o incendiava com requebros, peito contra peito, os lábios quase a tocar-se, os olhos num ardor, as pernas entrelaçadas, os corpos em labareda.
Não assisti ao fim e recordo que me fui dali com o vago sentimento de que tinha presenciado algo mais que um jovem par entusiasmado na dança. O tempo, felizmente, parecia ter-me contradito, e quando meses atrás nos encontrámos no supermercado – conheço-a de miúda – tive de sorrir da vivacidade com que falou do trabalho na cooperativa, dos dois meninos que gerou, de como ainda um dia há-de fazer uma grande viagem por aí fora, ver mundo, escapar…
- Escapar a quê? – quis eu saber.
- A isto! Esta morte lenta!
Vi-a afastar-se, delgadinha, bonita, nada mudada desde a noite do arraial. Deu-me até a ideia de que a rodeava uma aura quando se voltou a acenar um adeusinho.
Disseram-me ontem que escapou. Ninguém sabe com quem, nem para onde, mas o que mais estranham é que tenha abandonado os filhos e levado o cão.

segunda-feira, outubro 10

O gajo não é rico!

A vida corre como quer, as coisas são o que são, outra verdade não resta: o gajo não é rico!
Para seu bem, e porque usa outra bitola,aprendeu a reconhecer quem vale, frequentou terras várias, gentes de muitas cores e, como que de nascença, recebeu o dom de distinguir o genuíno do pechisbeque, a sinceridade do fingido, o pasmo alheio diverte-o, não lhe faz mossa.
Quando lhe dá para desbobinar o filme da sua vida, o próprio fica de boca aberta, pois aquilo não são episódios do Rin-Tin-Tin mas vivências do real com um gráfico estonteante como o das grandes febres.
Ninguém acreditará, mas isso é supérfluo: teve a fortuna à mão, mais de uma vez lha ofereceram de bandeja, mas feitas as contas e visto o resultado, o que aquilo ia implicar de cumplicidades, compinchiches, obediências, subserviências e genuflexões, agradeceu, ficou-se pela mediania.
Para ser livre como os pardais só lhe falta voar. Tem amizades, amores, carinhos, uma família de gente boa e laços fortes. Desconhece grilhões ou grilhetas, caminha de cabeça levantada, não deve, não teme, dispensa favores, jeitos ou arranjos. Respeita a todos e a todos trata por igual, cuidando que alguns não cheguem perto, porque a natureza lhes manda morder.
Não lho dizem de caras, que a mesquinhice, a inveja, o medo e a ignorância doutros mundos assim manda, mas sussurram-no perplexos entre si: "Pode ser que tenha alguma coisa, mas não se vê!"
Uma certeza possuem que lhes é de grande conforto, lhes dá o gozo de olhar de alto e esquecer a própria miséria: o gajo não é rico!

sábado, outubro 8

Hibisco (Hibiscus)


(Clique para aumentar)