sábado, janeiro 15

É síndrome!


Acabo de ler e acho que é notícia interessante, merece divulgação, vai explicar o motivo de muitas arrelias e discórdias conjugais:
Marcel Waldinger, neuropsiquiatra no hospital de Haia, estuda o caso desde 1998. Descobriu ele que centenas de homens adoecem depois da ejaculação, apresentando sintomas comparáveis aos da gripe: extremo cansaço, dores nos músculos, olhos injectados, o nariz a pingar.
De início pensou que se tratasse de questão psíquica, mas afinal a causa está em que alguns de nós somos alérgicos à própria esperma!
Que lhe parece? É ou não é boa notícia? É ou não é excelente desculpa? E até já tem nome:: Post Orgasmic Illness Syndrom.

sexta-feira, janeiro 14

The Espresso Book Machine

Prémio de design não vai receber e é pobre de enfeites, mas que eficiência, que sonho realizado! Por enquanto, que eu saiba, na Europa a Xerox só instalou uma em Londres, e a que vi em Amsterdam.
Imagine: chega você com o manuscrito que nenhum editor aceitou, o desenho da capa, o texto da contracapa. Paga cerca de € 12.50 e dali a minutos sai para a rua com o seu livro na mão. O-SEU-LIVRO!
Acredite, porque sou ruim  de contentar, o produto acabado em nada se distingue do que se vê nas livrarias.

quinta-feira, janeiro 13

Para quê tanto berro?

Para quê tanto berro? Que querem vocês? Que adianta esse atirar de lama e insultos? Gritam que governe quem governar nada mudará, só as moscas serão outras. Pensaram bem? Então nestes anos todos escapou-lhes que as moscas são sempre as mesmas e cresce a estrumeira onde elas engordam?
Por que esperam? Um redentor? Já não há. Revoltas e revoluções também não. Aliás, é sempre melhor que as faça quem sabe, pois das dos amadores resulta o que temos. 
Berram vocês na internet, exigindo mudanças e melhorias, mas a internet não é praça pública, nem tribuna, nem sequer o café. É um nevoeiro. E um blogue poderá dar-vos a ilusão de ser trombeta, mas nem chega a apito, é um murmúrio.
Passam por lá dez, cem, mil visitantes? Dois mil? Pois passam. Espreitam, farejam, lêem umas linhas, esquecem, os mentecaptos – linda palavra doutro tempo – aproveitam para vomitar ódio nos comentários. Parece movimento e é só vento. Uma pequenina, triste, por vezes cómica sarabanda, diversão púbere, mau grado as doutas e menos doutas análises políticas, económicas, sociais, as profecias de desastres e misérias que não se levam a sério. Porque é só falação, entretenimento, a aragem a fingir de ciclone.
Mas a realidade – contenho-me para não dizer, a triste realidade – é que o tempo passa. O meu já passou, mas vocês têm quê? Vinte e cinco? Trinta? Quarenta anos? Na força da vida e sem genica, sem ideal, sem sonhos, apenas aos berros de que isto está mau e vai piorar?
Ninguém vos ouve, os vossos berros nem sequer fazem eco.

terça-feira, janeiro 11

Boas pessoas

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 Fora de dúvida é você boa pessoa, solidário com o semelhante, caridoso para com os que sofrem, os despojados, as criancinhas esfomeadas da África, da Ásia, do Alentejo e Famalicão. Também  é fanático a defender a Natureza e o belo planeta em que nos puseram, a ameaça do aquecimento global mete-lhe um medo maior do que os ricos de antigamente tinham do Comunismo.
Eu também seria boa pessoa, não fosse este hábito de incomodar. Não porque isso me agrade, mas é coisa dentro de mim, desculpo-me dizendo que deve ser questão genética, neuras e neurões herdados.
Oiça: em 2007, na Espanha, o governo concedeu um subsídio de 44 cêntimos por kilowatt/hora a quem instalasse painéis solares - dez vezes mais do que o custo da electricidade corrente. Cinquenta mil espanhóis aceitaram essa super-ecológica e tola benesse "verde". Para com eles tem o governo uma dívida de 126 biliões de euros que não pode pagar. Sobre quantos dos cinquenta mil faliram com o projecto não há estatística. Energia solar? Boa treta. Limpa, barata e segura é a nuclear, mas por azar não é "verde".
Na Holanda havia uma proposta para a construção de dois gigantescos parques eólicos no Mar do Norte com uma capacidade total de 600 megawatt. Infelizmente, mesmo no Mar do Norte nem sempre venta, a estimativa de produção seria de 200 megawatt, comparável à de uma central eléctrica alimentada a gás natural. À boa e decente maneira holandesa fizeram-se cálculos: a central custaria 280 milhões de euros, os quixotescos parques de moinhos: 4.4 biliões. Fora com eles.
Claro que você é contra os alimentos geneticamente manipulados, quer tudo biológico e o mais "verde" possível. E não deseja que o seu semelhante passe fome. Eu também não. O que acontece é que se os nove biliões de "formigas" humanas que haverá daqui a umas décadas -  no tempo dos seus filhos e netos - quiserem comer "biológico", não vão guardar o Amazonas nem as mais florestas virgens, porque não haverá terreno que chegue.
Para se poder ser boa pessoa, por vezes é melhor não pensar.

domingo, janeiro 9

Preparem-se os jovens Saramagos

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Entre os livros que ando a ler está uma colectânea dos discursos de dez laureados do Nobel da Literatura e, a acompanhar, estudos sobre a obra e a personalidade de cada escritor.
Dos discursos uns são longos e maçudos, o de Günter Grass, por exemplo, outros assim-assim; V.S. Naipaul (2001) e Harold Pinter (2005) mostram-se acima dos restantes.
Esta é a minha opinião, por força haverá apreciações diferente, alguns até serão capazes de tomar por brilho as banalidades do discurso de Elfriede Jelinek ou o tom doméstico do de Doris Lessing.
Aprendem-se interessantes detalhes biográficos, por exemplo sobre J. M. Coetzee, que uns idolatram, a mim cansa, e outros figadalmente detestam, como o editor Colin Bower, que no Sunday Times publicou um artigo sob o titulo de J. M. Coetzee: literay con artist and poseur.
Voltando ao laureado: recorda ele que aos quinze anos ouviu, vindo de uma casa vizinha, uma música que o encantou, e só mais tarde saberia tratar-se de Das Wohl Temperierte Klavier (O cravo bem temperado). E prossegue: "Depois dessa música de Bach tudo se modificou. Foi um momento de revelação e enorme significado para a minha vida. Que me deu Bach? Deu-me a verdadeira ideia da forma!"

Preparem-se os jovens Saramagos. Não é caso de correrem a ouvir Bach, para dele receberem também a revelação da "verdadeira ideia da forma", mas aprender que são muitos e variados os caminhos que levam a Estocolmo.
Os melhores chegam lá como Pinter e Naipaul, mas também se alcança o Nobel como Coetzee, ou Elfriede Jelinek, de quem Martin Mosebach, um colega, afirmou que era, de longe, a pessoa mais estúpida do hemisfério ocidental, e o respeitado crítico Marcel Reich-Ranicki disse que nunca tinha escrito um bom livro.

sábado, janeiro 8

Desesperos


Com que me entretenho? Como passo os dias? Que superficialidades me fazem rir? Que pensamentos me iludem, com a aparência de questões profundas? Para que realidades sou cego? Quantas serão as que finjo não ver? De que fujo?
Seria longa a lista se encontrasse resposta, e sombrio é o modo como comecei o dia, tocado por dores alheias, a extraordinária notícia de que neste momento há vinte e quatro pessoas na Holanda que, em desespero, oferecem na Internet um dos seus rins à venda. É proibido, arriscam um ano de prisão, mas quem vai saber? Quem pode provar?
80.000 euros é o preço. E com a triste notícia esta sugestão da sempre desumana economia do mercado: sendo o custo anual de uma hemodiálise 75.000 euros, o governo bem poderia negociar com os "doadores", oferecendo-lhes, digamos, 50.000 euros. Lucravam as Finanças e escapavam eles à pena.

sexta-feira, janeiro 7

Fuja das estrelas


Ó Deus de Misericórida, Senhor do Céu e da Terra, para que ma mandastes ontem ao fim da tarde! Que mal fiz para me obrigardes a aturar a compatriota tonta, ouvi-la a desfiar as suas imensas leituras, os livros que tem na mesinha de cabeceira à espera de vez, os tremores que lhe dão à ideia de que um dia destes vai começar  um livro de Cormac McCarthy:
- Você é capaz de nunca ter ouvido falar, porque é um moderno. Fenomenal. Todos os críticos lhe deram quatro estrelas, um até lhe deu cinco!
Não recorda o título, mas depois dirá. E enquanto desfia, fecham-se-me os ouvidos, vai-se-me o pensamento para o curioso funcionar deste nosso mundo onde os críticos literários dão estrelas e pontos de restauração à Michelin, fazem listas, debitam banalidades, esfregam-se mutuamente as costas, fingem que analisam e dissecam, que franzem o olho, mas nem sempre conseguem esconder o jeito que fazem aos compinchas e aos mais que têm na mão o queijo e a faca com que o dito se corta.
Quer ela agora saber se também gosto do Eggers e da Marguerite Yourcenar:
- Olhe que Mémoires d'Hadrien!...
Não sei que lhe diga, ponho-me a pensar naqueles "o Eggers", "a Marguerite", porque sempre me aflige a familiaridade bacoca. E de salto em salto lá vem outra questão perturbante, a de descobrir como é que os críticos arranjam tempo para ler tanto livro em cada semana, escrever cada semana longamente sobre tanto livro e, desafiando a ubiquidade antonina, participar ainda no singular corrupio de apresentações, debates, congressos, colóquios, programas, aberturas, eventos, feiras, sabe Deus que mais.
Ela canta as loas do… - o embaraço manda calar o nome – "Muito inteligente, muito lido, e tão culto!" – mas o que agora me ocupa, a pergunta que me faço é de saber que espécie de gente compra um livro só porque tem quatro estrelas. Que crítico digno da sua profissão se acriança a dar estrelas? Que gente é essa que produz listas de leituras em que a presunção tresanda? Para que o fazem? Que julgam provar?
Você, quando mais logo entrar na livraria, tenha tento: vire as costas às novidades, passe de largo pelos 10 mais, fuja das estrelas.

Razão têm

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Razão têm os que se queixam de que o mundo encolheu; que desde os arranha-céus ao sorriso de George Clooney, dos Toyotas à balofice dos políticos, tudo é de uma cansativa monotonia.
Paga-se bom dinheiro para visitar o Afganistão e encontra-se lá o que também se pode ver em Trás-os-Montes.

quinta-feira, janeiro 6

O guião da vida


Bem seria se fosse sempre de paz e harmonia, dias lindos, temperaturas amenas, amizades seguras, mas a vida faz segredo do guião que para nós escreveu, só de dia para dia revela os episódios, entremeando os momentos altos e baixos com uma excessiva dose de mediania.
Aguenta-se? Pois aguenta, que outro remédio não há. Aprende-se a fazer das tripas coração, a sorrir até que o infortúnio passe, a afivelar a máscara que, em simultâneo, felizmente nos esconde e protege.
Chegada certa idade, aí por volta dos cinquenta, sessenta, a vida muda os episódios e acrescenta-lhe  um suspense de roleta russa: começam então as visitas aos especialistas e a cada uma, como se estivesse em tribunal, prepara-se você para ouvir se a sentença vai ser de meses, prisão perpétua, ou de morte. De vez em quando os juízes retiram-se para deliberar, mas pena suspensa não há, nem perdão, só adiamento.
Daqui a nada vou ao cardiologista.
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Este blogue fez ontem quatro anos. O contador dos textos vai em 1315.

quarta-feira, janeiro 5

Pecador me confesso

Não é caso de arrependimento ou de adoçar a pílula, pois o que aqui disse saiu do coração e assim é: uma palavra ou frase em língua estrangeira, pode ter a sua utilidade num texto. O abuso, não. A pose, ainda pior. Ninguém acredita que você comece o dia a folhear o Times e dê prioridade à leitura da New York Review of Books sobre o pequeno-almoço ou o cumprimento dos deveres conjugais.
A mim obriga-me a franzir  o sobrolho, diminui o apreço em que o tenho, mesmo que no resto se salve leva má nota.
E agora, metendo a mão no peito: a minha geração e as anteriores sofreram de idêntica pecha. Não tínhamos rádio, nem têvê, os filmes eram poucos, a fonte em que bebíamos eram os jornais e os livros, de maneira que botávamos figura usando a moda então secular do Francês, com a desculpa de que o senhor Eça de Queiroz também o fazia. Não nos incomodava que dele alguém tivesse dito: "Tem muito talento este rapaz, mas é pena que estudasse em Coimbra, que haja nos seus contos sempre dois cadáveres amando-se num banco do Rossio, e que só escreva em Francês".
O que contava, assim nos iludíamos como você se ilude, era mostrarmos uns aos outros e ao Mundo (que Mundo?), que não éramos do vulgo, mas eleitos, muito ao corrente, gente fina.
Que eu saiba, espanhóis e franceses, maus em línguas estranhas e excessivamente orgulhosos das suas, mostram-se avessos em usar as alheias, mas aqui na Holanda não faltam bizarrias.
Assim, em prosa ou palestra, discurso político, charla de café, certo tipo de gente mostra quem quer ser, ou se julga, atirando uma pitada de Latim. Cartas particulares, comunicações da Câmara, folhetos de saldos e avisos da Policia começam às vezes pela críptica abreviatura L.S. - em cursivo, claro, pois os iniciados sabem que atrás dela se esconde Lectori Salutem (Saudações ao Leitor). Outros há que acham distinto começar as missivas com um Amice – o vocativo de amicus (amigo).
Curioso e também corrente é hábito de crismar os recém-nascidos com nomes latinos.  A um rapaz chamarão familiarmente Ad, ou Bart, ou Ton, mas oficialmente, na acta do baptismo e na do Registo Civil,  é ele Adrianus,  Bartholomeus ou Anthonius.
Está a ver? Não é só você, nem só eu. O pavão também mostra as penas e o holandês, que pouco e ao de leve o aprendeu na escola, arrota  em Latim a sua posta de pescada.

terça-feira, janeiro 4

Tocqueville dixit

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"Imagino uma incontável e inquieta  massa de indivíduos, todos idênticos, girando em torno de si própria para conseguir obter os pequenos e vulgares prazeres que o seu coração ambiciona."

Alexis de Tocqueville

Passei ontem algum tempo a reler umas tantas páginas de De la Démocratie en Amérique, de Alexis de Tocqueville (1805-1859). Este interessante livro li-o eu pela primeira vez com dupla admiração: pela perspicácia com que analisa a então jovem sociedade americana, e pela enorme fosso entre o saber de Tocqueville aos vinte e seis anos, quando o escreveu, e a minha ignorância e ingenuidade quando com pouco mais de vinte e seis o li.
Amparado por um artigo no semanário holandês Elsevier, surpreendeu-me agora descobrir algo que em leituras anteriores me tinha escapado, o carácter profético de certos aspectos da obra.
Na opinião de Tocqueville a Revolução Francesa "não foi uma cesura com o passado, mas o culminar de lentos processos dificilmente controláveis. Fundamental nesses processos seria o facto de os indivíduos se retraírem no ambiente particular e em círculos cada vez mais restritos.
Daí resultaria um verdadeiro vácuo social e, por consequência, o perigo do seu preenchimento  por  uma burocracia estatal todo-poderosa. Ao deixar a condução do interesse público nas mãos de burocratas paternalistas, o indivíduo aparentemente livre e independente, senhor do seu destino, tornar-se-ia um súbdito, deixando assim que o individualismo evoluísse para um despotismo burocrático.
"Imagino uma incontável e inquieta  massa de indivíduos, todos idênticos, girando em torno de si própria para conseguir obter os pequenos e vulgares prazeres que o seu coração ambiciona."

Acho que é aí onde infelizmente chegámos.

Uma frase que em 1957 sublinhei no meu exemplar: "Se me perguntarem como se explica a extraordinária prosperidade e o poderoso crescimento da nação americana, direi que isso deve ser atribuído à superioridade das suas mulheres."

segunda-feira, janeiro 3

Shit

Todos conhecemos momentos em que se hesita entre a gargalhada e o choro, mas não são esses os piores. Ruins mesmo são os que enfastiam e nos deixam num estado de prostração, porque pôr o dedo na chaga de nada adianta quando sabemos que nos falta remédio para ela.
Vem isto a propósito do fenómeno generalizado e nacional do arroto de postas de pescada no que toca o uso a língua inglesa. De doutor a semi-analfabeto há uma rapaziada a quem se lhes meteu na cabeça que a demonstração de ser fino, sabido, pertencer aos eleitos, à fina-flor, não dispensa umas pazadas de Inglês. E vá de arrotar. Ora em exclamações, ora citando meia página de Shakespeare, umas frases de Johnson, às vezes lavra própria, causando arrepios a quem sabe da poda e se pergunta se aquilo é sintoma de doença.
Porque doença é, e uma forma de pobreza. Nada mais deprimente do que ver alguém julgando que bota figura no carnaval da suposta intelectualidade com uma fantasia de empréstimo, que ainda por cima lhe fica curta nas mangas.
Oiça, mesmo na forma simples e popular, a sua, a nossa língua-mãe é tão rica que lhe permite exprimir adequadamente, e até com elegância, os seus sentimentos, conviver, comunicar impressões, participar no trato social. Quer mais? Abra os ouvidos. Há gente bastante a falar um Português correcto. Quer apurar o vocabulário e o estilo? Tem aí Fernão Lopes, Vieira, Camões, Bocage, Fialho, Eça, Pessoa, tantos outros. Leia.
Mas por favor, caia em si, poupe-nos o espectáculo, não se envergonhe de quem é, de quem somos, da língua que nos deram.

domingo, janeiro 2

São assim

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São assim de nascimento. Adoram a multidão. Gente séria afirma que lhes vem aquilo do tempo remoto em que tinham de se unir para erguer os diques que os protegiam do mar. Será, mas eu tenho outras ideias sobre o comportamento dos holandeses.
Ontem à tarde, em várias praias do Mar do Norte (temperatura do ar 1 grau, 2 na água) mais de 27.000 deles atiraram-se às ondas a festejar o Ano Novo sob o patrocínio de uma fabricante de salsichas. O mais novo tinha três anos, o mais idoso oitenta e um. Não houve mortos.

sábado, janeiro 1

Sábado - 01.01.2011

Estranha ilusão que nos oferecemos, a de que com o calendário os dias sombrios terminam e outros chegam, soalheiros, esperançosamente melhores. Que assim não é, nunca foi ou será, sabemo-lo de sobra, e contudo deitamos foguetes, fazemos votos, bebemos champanhe, damo-nos abraços.
Quimera, sonho acordado, o momento foi de festa na imaginação. E melhor seria que este dia um de 2011caísse numa segunda, pois dava menos tempo a remoer e recordar o que de boa vontade se olvida.
Está você bem, contente, saudável e feliz? Benza-se, isto não tem a ver consigo. Comigo também não, que graças a Deus vou indo na forma do costume. Mas apiedemo-nos dos que vão ter um fim-de-semana inteiro, dois dias e sobretudo duas noites, para antecipar os medos, as agruras, as tristezas e misérias que um instante esqueceram - "Feliz Ano Novo!" - e segunda-feira os aguardam.

sexta-feira, dezembro 31

ABT - 9 (fim)

(© Helmuth Newton)

quinta-feira, dezembro 30

ABT - 8

(© Erwin Olaf)

quarta-feira, dezembro 29

ABT - 7

(© Rachel Weisz)

terça-feira, dezembro 28

ABT - 6

segunda-feira, dezembro 27

ABT - 5

domingo, dezembro 26

ABT - 4

sábado, dezembro 25

ABT - 3

sexta-feira, dezembro 24

ABT - 2

quinta-feira, dezembro 23

ABT - 1

Aquela minha amiga dos segredos condoeu-se de me ver sombrio e propõe, já que me dá para negrumes, que daqui ao fim do ano deixe de escrever.
Esperançada que isso me desanuvie e ajude a esquecer a neve e o frio, encarrega-se ela de, começando hoje, mandar diariamente uma fotografia da sua colecção, de modo a aligeirar o conteúdo deste blogue e, eventualmente, fazer crescer água na boca aos/às visitantes. 
As duas primeiras fotografias contam a história de uma vida. Cada um/a interpretará a seu modo.


        

Natal

(Clique para acender as luzes e pôr o cão a abanar o rabo)
Natal branco de neve? Visão romântica. Nós aqui vamos ter um dos Natais mais brancos de sempre, mas poucos acharão graça e a mim foi-se-me a boa disposição.
Desde que cheguei, dez dias atrás, saí uma vez à rua, mas nem estas ferraduras evitaram o tombo. Carro? Contra a porta da garagem ergueu-se um muro de neve, gelou, mais facilmente se deitaria abaixo se fosse cimento armado. Adeus mobilidade.
Daqui a nada recomeça o nevão, o vento sopra da Sibéria e nos próxima dias, talvez até ao Ano Novo, a temperatura baixará para os dez negativos.
Natal branco de neve? Quem dera um com bacalhau cozido, arroz doce, rabanadas, bolo-rei, vinho fino e solzinho de inverno.
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As caleiras estão assim:


quarta-feira, dezembro 22

Lojista

A época é natalícia, cheia de bondades, cânticos, presépios, boas intenções, amor do próximo, mas o sujeito não pode comigo, eu posso mal com ele, e como não nos conhecemos em pessoa, só da escrita, não vai ser à bruta, um caso de murros, esboço-lhe com palavras o retrato e assim me vão doer menos os dedos.
Sabe de tudo. Muito. Pintura, política, relojoaria francesa, glaciares, motores Diesel, África, Médio Oriente, Lucas Cranach, gastronomia do Maghreb, Renascença, geografia da Indonésia, história da Ucrânia… um sem-fim.
Conhece você Magtymguly Pyragi, o clássico turquemenistanês do século XVIII? Nunca ouviu falar? Pois conhece-o ele, e não pergunte, que se arrisca a uma prelecção tão minuciosamente detalhada sobre esse venerando que vai sentir ouras.
É poeta. Publicou três romances que os amigos elogiaram. Não os procure, que não encontra, nem insista, porque, aconteceu-me a mim, o livreiro é capaz de desatar a rir, gozando que o enfatuado dono de tão espaventoso saber seja oco no verso e desenxabido na prosa.
Sabe de confeitaria, dos produtos Gucci, da Literatura de Cordel do Nordeste do Brasil, dos amantes da rainha Vitória, das ilhas Lofoten, de locomotivas do século XIX, do fabrico de porcelana, das doutrinas de Thomas à Kempis, dos costumes do Hawai. É, como se dizia antigamente num tom de respeito e assombro, enciclopédico.
Tudo verdade. O homem é de facto enciclopédico. Inteligente de sobra também. Poderia ser mesmo agradável não fosse a inveja que o corrói. Porque, fama alheia, boas palavras sobre alguém, êxito de amigo, vizinho, colega, ou desconhecido, logo ele empalidece de raiva e azedume.
Aquilo, creio, vem-lhe de família. Descendesse de gente de espírito por certo o apregoaria, mas prudentemente cala que entre os seus é o primeiro sem loja aberta. E é, creio eu, essa herança de lojista que lhe torna a vida um inferno.
Homem do balcão conhece apenas duas molas: a do lucro e a da inveja. Seja o que for, o que vai para os outros é-lhe de facto devido, é seu, não o recebe porque lho roubam.