sábado, abril 24
quinta-feira, abril 22
Estranho
segunda-feira, abril 19
Finalmente as caras e os nomes
sábado, abril 17
LeV

De amanhã a quarta-feira vou estar aqui, mas com alguma surpresa, ora me vejo no programa, ora desapareço dele.
Quando me convidaram perguntei que papel seria o meu e o que ia lá fazer. Responderam-me gentilmente que iria sobretudo para comer bem, conhecer pessoas, divertir-me e descansar.
Então deve ser isso. Despeço-me até quarta ou quinta e começo já o descanso.
sexta-feira, abril 16
Pernas (2)
Faltou pela primeira vez uma terça-feira, mas o desapontamento neles notou-se apenas em pequenos gestos de irritação, num ou noutro remoque, nos "até logo" indiferentes quando se separaram.
Viram-na na quarta e no dia seguinte. Quando de novo desapareceu ainda demorou até que, com rodeios e palavras vagas, alguns se decidiram a perguntar no banco. Sim, era funcionária muito competente, tinha sido transferida, mais não podiam dizer.
Pasmo quando tempos depois a viram atravessar a praça, de braço dado com um desconhecido, mas só o Aníbal não conseguiu conter-se: - É a gaja, não é?
Os outros olharam como se não tivessem visto, encolheram os ombros e continuaram o dominó, desinteressados quando ele saiu.
Descobriu-os quando já iam perto dos Bombeiros, seguiu-os até ao Campo da Feira, passaram o cemitério, ele uma sombra desatinada, a resfolegar, atónito quando se viu defronte do desconhecido que lhe barrava o caminho:
- Quer alguma coisa?
Não, não queria nada, mas já o outro o pegara pelos ombros e sacudia como se quisesse...
Estas coisas acontecem e desculpas não faltam. A verdade é que de vez em quando se começa uma história com a ideia de determinado enredo e de súbito tudo emperra: os personagens recusam tornar-se "vivos", o movimento perde o ritmo, as cenas surgem banais em demasia.
Em ocasiões dessas Raymond Chandler recomendava que, para sair do impasse, um dos personagens cometesse um assassinato ou descobrisse um cadáver.
Na história acima tentei o assassinato, mas não resultou. Por mais voltas que lhe desse o desconhecido continuava a agarrar o Aníbal pelos ombros e a sacudi-lo.
De modo que resolvi parar e a deixo aqui como testemunho, mais um, dos falhanços sem conta que são o pão nosso de cada dia de quem escreve.
quarta-feira, abril 14
Pernas (1)
As pernas. O problema são as pernas, mas já lá vamos. Nalguns dias são eles sete, às vezes só os quatro mais fiéis, depois do almoço, hábito de anos, sentam-se no café à mesa junto da janela. Reformados, mas no viço dos sessenta com força e saúde. Gostam da companhia e entretêm-se com a política, mexericos, futebol, a televisão de ontem, uma ou outra piada, o dominó. De vez em quando há um que não resiste e olha discretamente o relógio, mas os outros, se vêem, fingem não dar conta.
Ao quarto para as duas, pontual, ela surge no outro lado da praça, mas em vez de cortar a direito, o previsível, caminha ao longo dos prédios e só depois atravessa a placa, dando a impressão de que se dirige ao café. Olham-na calados, seguem-na até que dobra a esquina.
Houve uma altura em que se não continham – "Que pernas! Olha-me para aquilo!" - mas depois qualquer coisa aconteceu e desde então, silenciosos, só olham.
Terá trinta anos e de rosto não atrai, os olhos são miúdos. Mas o busto perfeito, aquelas incríveis pernas, a elegância das passadas! A saia que mal cobre as coxas!
Quando vão ao banco vêem-na numa secretária lá atrás, e um ou outro, com esperanças de adolescente, acontece andar por ali às cinco horas.
Às vezes encontram-se e fingem surpresa:
- Então, a dar uma volta?
- A dar uma volta.
(Continua)
terça-feira, abril 13
Prometido
Frases sobre blogues
Ouvidas e anotadas desde Setembro passado.
- Não tenho ido ao seu blogue. Às vezes vou.
- Ela tem um blogue? P'ra quê?
- É um blogue de merdices. E bonecada.
- Mas vai lá alguém?
- O mais cómico é julgar-se poeta.
- O que é um blogue?
- Escreve-se como se lê: b-e-l-o-g-u-e.
- A filhota fez uns rabiscos e ele pôs aquilo no blogue. "Obras da Manuela".
- O blogue até tem piada, mas como ele está na Câmara...
- Um blogue? Não sabia. Desde quando? E é coisa de jeito?
- Modernices.
- Visitantes? Que visitantes?
- Ele dois, a mulher um, a filha dois? Cinco blogues!
- Concordo. Mas é um chato, e no blogue ainda é mais chato.
- O vocabulário! "Impropérios"; "deambular"; "nefando"; "braquicéfalo";"paraninfo"...
- O "Arrastão"? Quem é que lê o "Arrastão"? Eu não leio.
- Um blogue de política? O que é que ele sabe da política?
- Nunca lá fui. Tem gajas?
segunda-feira, abril 12
William Saroyan (1908-1981)
Nos meados da década de 40, adolescente que se respeitasse lia muito, e de certeza John Steinbeck, Erskine Caldwell, Ernest Hemingway e William Saroyan. Os outros ficaram, mas a fama deste último, nascido na Califórnia de pais arménios, brilhou uns anos e logo se extinguiu como estrela cadente. Seja como for, quando aos dezassete o li impressionou-me a ponto de tentar escrever umas histórias à sua maneira. Palavras simples, enredo idem, optimismo, pequenas alegrias, o comezinho do dia-a-dia. A entrada de Somerset Maugham e Graham Greene nas minhas simpatias eclipsou a prosa deSaroyan. Até ontem, quando dei uma vista de olhos a este livro de contos seus, comprado no Porto em 1947.
Comecei a entristecer, mas logo me recompus: lida agora acho-a má, mas quem dera poder voltar aos entusiasmos e descobertas da juventude!
