quinta-feira, setembro 24

Correspondência

Leio de vez em quando a notícia de que o escritor Sicrano ou o literato Beltrano entregaram à Biblioteca Nacional as suas correspondências. Detalha quase sempre a notícia de que se trata de correspondência trocada com "importantes figuras do tempo", apontamento esse que por várias razões me diverte.

Imagine-se você a escrever pelos anos adiante coisas sérias a figuras importantes, a guardar cuidadosamente as folhas de prosa, catalogá-las por data e destinatário, apertar os maços com fitas de seda e, cinquenta anos depois, avisando os jornais, ir pomposamente de fato e gravata entregar o espólio à BN.

Terá essa gente uma tão exagerada certeza da sua importância que espera que alguém se interesse pelo que escreveu ou deixou de escrever? Pelas frases que arrebicou? As sentenças que produziu? As amizades que teve?

Num mundo de rapidez, superficialidade e esquecimento, é pelo menos curioso que haja quem espere ficar na memória colectiva depositando uns quantos papéis. Garanto-lhe eu que não fica, como não ficaram outros que no seu tempo foram pesos pesados. E a propósito de cartas recordo o que noutro lugar escrevi: as únicas que valeria a pena guardar são aquelas que se deitaram ao lume para que delas não ficasse rasto.

quarta-feira, setembro 23

PIRATARIA

Alguém, com o IP 95.6952#, um daqueles que se escondem atrás de um "Unknown" tem uma ligação pirata e ilegal com este blogue. É bom que se dê a conhecer antes que lhe aconteça mal.

E agora um outro alguém que sabe destas coisas alerta-me dizendo que não é pirataria, mas que a minha ligação deve ter "caído" e que eu entrei na minha própria conta com outro IP. Será possível?

Não é não. Outros que sabem ainda mais explicaram o que aconteceu e aguardam que o pirata volte a manifestar as suas artes.

O caminho da horta


"De manhã cedo ouvia o Ti Serafim aparelhar os animais e depois, cerrando os olhos, esperava que subisse as escadas e entrasse no meu quarto. Eu a fingir que dormia, ele a fingir que se ia embora sem me acordar, mas chegado aos pés da cama puxava o cobertor com um safanão.

Ríamo-nos ambos, ele dava-me a benção, eu dava-lhe os bons-dias, e num pronto estava vestido, borrifava a cara com água. Comer não queria, porque levávamos merenda para quando nos desse a fome, e então chegava o momento de nos pormos a caminho: ele trazia uma burra para junto da escada e quando a albarda ficava à boa altura eu deixava-me escorregar, com a ilusão de que era um cavalo e o montava como faziam os cowboys, saltando do chão.

Íamos lavrar a horta até ao sol-pôr. Naquela monotonia de abrir sulcos e amanhar a terra, eu imaginando-me também lavrador quando ele me deixava ir sentado no arado, ou me dava um sacho dos mais pequenos para que também cavasse.

Se o calor era muito mandava que me fosse refres­car na ribeira, mas tivesse cuidado com as cobras e os lacraus. Sozinho, descalço, metia-me na água que nem sequer aos joelhos chegava e ia-me a explorar.

Qual Amazonas! A selva era ali! A catarata de metro e pouco ao pé do moinho rugia mais forte do que se dela se despenhassem as águas do Nilo. A qualquer momento poderiam saltar leões dentre os fieitos e os juncos, as rãs a nadar eram os meus crocodi­los, mais adiante conse­guia ver no alto das árvores a cabana onde Tarzan morava."

terça-feira, setembro 22

Miragens

De longe a longe, tomado de ilusão, converso com um imaginário leitor - quem espreita um blogue não é necessariamente leitor, antes visitante – e costumo dizer-lhe:

- Olhe, isto é consigo.

Na verdade nada menos exacto. Esse leitor imaginário é o espelho em que projecto a minha solidão, o alter ego de que me valho para que a cabeça não desande de vez, para me dizer que o invisível, mas poderoso, torvelinho que me agita, alguma razão terá.

No fundo sei que não tem. São tudo reviravoltas, miragens, a minha maneira de ir vivendo, inventando tormentas e perigos que até certo ponto compensam da banalidade e da monotonia do meu dia.

segunda-feira, setembro 21

Felizardo

Comecei o dia escrevendo palavras de amizade a alguém que as merece, sosseguei depois uma alma que sem razão se desassossegara, agradeci um bem que me fizeram, acarinhei o cão que anda tristonho porque ontem lhe atropelaram a companheira. E porque há quem me queira bem, não tenho achaques que me incomodem, como e bebo com gosto, os olhos distinguem, os braços e as pernas mexem, a cabeça tem poucos desvarios, fazendo a soma posso dizer-me um felizardo. Pena é haver diferença entre felizardo e feliz.

domingo, setembro 20

THE END

Sobre a família já alguém disse que é prisão perpétua, não se lhe escapa. Mas é pena que não haja manual que ensine a boa maneira de fugir a uma paixão que nos afoga, uma amizade que cansa, uma companhia que aborrece, uma admiração que incomoda.

Fazemos boa cara, sorrimos, vamos aguentando, e ao mesmo tempo a úlcera pica o estômago, o fígado excede-se na bílis, os cantos da boca descaem em permanência, ganha-se aquele ar azedo dos casais que chegados à meia idade se descobrem mal emparelhados.

Ah! Se a vida fosse um filme! Terminada a sessão íamos tomar café e, avesso ou favorável, tudo recomeçava. Infelizmente, no ecrã da vida THE END é mesmo o fim.