quarta-feira, junho 24

Traição

Não custaram uma fortuna, mas gastei neles um ror de dinheiro. Uma excepcionalmente erudita Moderne Encyclopedia van de Wereldliteratuur em 10 volumes; a edição compacta do Oxford English Dictionary – os dezassete volumes comprimidos em três, numa letra miudinha que necessita lupa; os restantes dicionários, se os conto, ultrapassam os cinquenta; duas enciclopédia, um sem-número de volumes de referência…

Fazem-me companhia há décadas, mas o Google ganhou.

Imóveis e inúteis como anciãos num Lar, só esporadicamente lhes toco, mas quando o faço sinto o remorso de quem traiu.



domingo, junho 21

Pecadora


Vai, pecadora arrependida
Vai tratar da tua vida
Por favor, me deixa em paz
Me deste um grande desgosto
Eu não quero ver teu rosto
Palavra de rei não volta atrás
Eu quero um amor perfeito
para aliviar meu peito
que por ti já padeceu demais (ai, demais...)

Agora tens o mundo aos teus pés
a caminhar
Cansei-me de sofrer,
Cansaste de errar
Eu plantei flor, colhi espinho
Mas agora arranjei outra
para me fazer carinho
Vai pecadora!


Rio de Janeiro fins de 1965. Você entra por acaso na loja, ouve a canção, gosta, pergunta, compra. Quando sai já sabe quem é o Jair do Cavaquinho, conhecido depois por Joãozinho da Pecadora, admira o Paulinho da Viola.

Perdeu-se o disco entre o considerável monte de LP's acumulado numa pré-história em que a música brasileira era importante para o meu sentir. Encontrei-o ontem. Outra surpresa: não tinha esquecido a letra. Cantei. Daí fui-me à cornucópia do YouTube e voltei a cantar, acompanhando Paulinho e Maria Bethânia. Vá ouvir. A canção começa aos 2'10 da faixa.

E se alguma vez se atravessou uma pecadora na sua vida, cante também, sorria como eu sorri.

sábado, junho 20

Biografias

Biografias sempre li bastantes e de modo geral com agrado. No início, supondo que aprenderia com as vivências doutrem, mais tarde levado sobretudo pela curiosidade, fazendo aferições entre a minha e a vida alheia, uma forma de voyeurismo.

Em certo momento, perguntando-me se teria interesse deitar-me a escrever uma autobiografia, concluí pela negativa. É que forçosamente iria mentir, ajeitar, pintá-la de ficções, pôr suspense na banalidade. E sobretudo esconder. Tanto por vergonha como por aversão ao ridículo.

De modo que não me vejo a escrever a minha autobiografia, pois o resultado seria uma coisa híbrida, nem carne nem peixe, meias mentiras, meias verdades, gris e nevoeiros, alçapões, portas falsas, olvidos, alindamentos, paisagens trompe l'oeil

Dessa introspecção resultou também que agora, ao lê-las, as meço por mim, e tento descobrir nas entrelinhas as verdades que as biografias escondem.

sexta-feira, junho 19

O fado já não é só nosso

O fado e eu temos uma relação que ultrapassa a da minha idade. Foi a primeira música que inconscientemente ouvi, pois meu pai e o dele tinham talento para a guitarra. Tocavam nas festas da vizinhança e com os amigos, tocavam nas noites de melhor disposição, de modo que, ouvindo e olhando, aí pelos oito anos comecei um dedilhar que duraria até pouco antes dos quarenta.

Toquei, ou melhor: deixaram-me tocar n'O Estribo, na Travessa da Queimada do Bairro Alto, e aceitaram-me também n'A Parreirinha de Alfama. Depois a vida teve as suas andanças, os dedos foram lentamente emperrando, tornaram-se artríticos. Hoje, ao sabor dos momentos, o fado ora me põe de mau humor com a lamechice e a modernice, ora me obriga a lágrimas de não sei quantas saudades.

Nos anos sessenta, na Holanda, havia as aparições esporádicas da Amália, contando tanto a voz como o xaile preto, e teriam de passar quase quatro décadas antes do talento de Cristina Branco tornar o fado suficientemente chique para ser ouvido nesse templo da música que é o Concertgebouw de Amsterdam.

Desde então até já se canta o fado em frísio e, se não sou apreciador, abstenho-me de desdenhar. Nesta outra interpretração a cantora é bem portuguesa, faz os trejeitos adequados, mas causam-me espécie os guitarristas. É que guitarrista autêntico quer-se franzino, de fato preto e gravata a condizer, moreno, cabelo de azeviche, com o rosto magro e mal disposto das noitadas. Estes aqui, em traje de férias, além de loiros e nutridos têm modos de jazz! E riem!