quarta-feira, janeiro 7

Vanitas vanitatis, omnia vanitatem

 
                             O grande retra­tista dos por­tu­gue­ses
       Diá­rio de Ren­tes de Car­va­lho con­fronta-nos com um país esque­cido por quase todos

Con­ta­mi­na­dos pelo dis­curso polí­tico ras­teiro, somos ten­ta­dos a achar que uma obra lite­rá­ria focada na busca da alma de um povo é, dema­si­a­das vezes, o sub­ter­fú­gio de ímpe­tos ou inten­tos naci­o­na­lis­tas. Erro crasso, já se vê. Atente-se em José Ren­tes de Car­va­lho, o escri­tor do nosso tempo que mais e melhor tem glo­sado o que é ser por­tu­guês, feito ainda mais extra­or­di­ná­rio se se levar em conta que não vive em per­ma­nên­cia no seu país desde a já muito dis­tante década de 1950.

Nos roman­ces e nos con­tos, assim como nas cró­ni­cas e nos diá­rios, cada escrito do autor de “Ernes­tina” esmi­úça a con­di­ção por­tu­guesa com uma luci­dez assaz rara. Quer esteja em Moga­douro ( Este­vais) ou em Ames­ter­dão, onde reside na maior parte do ano desde 1956, há nas suas obser­va­ções sobre o país uma von­tade per­ma­nente de ace­der a esse recanto secreto da psi­que do povo.

Não o dos pos­tais turís­ti­cos, ou o supos­ta­mente expor­tá­vel (“com men­ta­li­dade à Cris­ti­ano Ronaldo”...), mas o que ficou há muito em defi­ni­tivo para trás nas pri­o­ri­da­des gover­na­men­tais. Esque­cido e ultra­jado, é, muito pro­va­vel­mente, o último bas­tião de uma por­tu­ga­li­dade cada vez mais espar­ti­lhada entre o res­sen­ti­mento sala­za­rista e a inge­nui­dade (pseudo) uni­ver­sa­lista.

É nessa aná­lise per­ma­nente a um país do qual nunca se apar­tou ver­da­dei­ra­mente que se ins­creve o seu mais recente livro, “Recor­da­ções e ando­ri­nhas”, uma reco­lha dos seus diá­rios escri­tos entre 2007 e 2009 mas que con­ser­vam ainda a sua pre­mên­cia. Em meia dúzia de pará­gra­fos (ou até menos), Ren­tes faz-nos che­gar, atra­vés da sua escrita simul­ta­ne­a­mente ágil e rigo­rosa, dúc­til e infle­xí­vel, ecos de um país pro­fundo. Em tudo o que isto possa sig­ni­fi­car de misé­rias e gran­de­zas.

Nes­tes ver­da­dei­ros tra­ta­dos de huma­ni­dade, o “patrão da barca”, como se auto­in­ti­tula nesse mag­ní­fico repo­si­tó­rio do quo­ti­di­ano que é o seu blog Tempo Con­tado, não está inte­res­sado em com­por um certo retrato que possa (des)favo­re­cer os seus – das recor­da­ções sur­pre­en­den­te­mente intac­tas da juven­tude aos epi­só­dios ocor­ri­dos hoje, reve­la­do­res da mudança dos tem­pos ou da sua eterna con­for­mi­dade, o que o move e ins­tiga é, ainda e sem­pre, a vida pul­sante, des­pida dos ardis que abun­dam nas atmos­fe­ras urba­nas.