segunda-feira, maio 6

Graças ao Altíssimo

 

Para os que sabem ler, gostam de aprender, apreciam humor, inteligência e allure: agaffe está de volta. AQUI

 

domingo, maio 5

A mesa do canto

 

Na roda que há vidas fazemos no café, sempre a mesa do canto e longe da porta, as mais das vezes somos seis. Mais ano menos ano todos da mesma idade, excepto o Valentim, que se tudo correr como ele prevê, e cansativamente repete, será o primeiro a chegar aos cem.

Um estranho com menos anos, que por acaso ou curiosidade se nos viesse juntar, logo notaria a duração dos silêncios, a frequência dos resmungos, o tom azedo dos comentários e miudezas, mas sobretudo a quase ausência de saudosismo e suspiros sobre o antigamente, as coisas boas que definitivamente se perderam.

Não se vá, contudo, deduzir que esse comportamento é voluntário, pois uma vida de muitos anos, porque acarreta uma carga substancial de vivências, recordações, dores e alegrias, necessita por vezes, como diz o Fonseca, de um “tubo de escape” por onde saia o que vai cá dentro, evitando assim o que de mau pode acontecer.

Esse “tubo de escape” foi-nos negado de mau modo pelo Magalhães, na tarde em que estávamos a recordar a saudade que tínhamos dos aviões da nossa infância: ronceiros, com hélice, quatro asas, a voar tão baixo que se acenava adeus ao piloto. E daqueles Citroën Traction do comissário Maigret. Mais ainda das...

De facto é possível que já estivéssemos há um bom bocado nessa conversa do antigamente, o que nos surpreendeu foi que, ao contrário do que julgávamos conhecer do seu pensamento e maneiras, vimos o nosso camarada levantar-se agitado, fazendo voz grossa para avisar que se continuássemos com as merdices do “antigamente era melhor, ninguém precisa de tantas novidades, o telemóvel só é bom prós  putos...” e outras que tais, ele não nos ia negar a amizade, mas podíamos ter a certeza de que se viesse uma vez por mês seria o máximo, ou talvez mudasse para a mesa do Ginja, porque aí pelo menos era só política.

 

sexta-feira, maio 3

Pode ser gaffe

 

Se não me engano no cálculo, durante uns três anos segui com alegria, surpresa, muitas vezes invejoso, a elegante prosa da jovem. Porque jovem é, e em vários sentidos, não só o da idade. Surpreende também por ter lido o suficiente - Fernão Lopes! - amar o Douro, falar en passant  de Paris e Nova Iorque como só falam os que têm olhos que realmente vêem. Fotografia é com ela, muitas vezes deixando de boca aberta o amador que fui.
Tempos atrás, à conversa com uma querida, jovem e inteligente amiga, lamentámos que nos falta a prosa de https://agaffe-easavenidas.blogspot.com/ .

Como é vão esperar que a estupidez jamais deixe de se sentir ofendida, saiba agaffe que seria uma feliz surpresa continuar a lê-la.

 

terça-feira, abril 30

Bem-aventurado

 

Bem-aventurado aquele que na solidão da noite faz o balanço e conclui que, a traços largos e nos episódios maiores, a vida que leva é a que desejou. bem-aventurado também o outro, que à mesma hora revê o seu passado, o seu presente, lembra os sonhos que teve, os que não realizou, e ao somar ganhos e perdas sorri contente, se diz que valeu a pena. bem-aventurado ainda o que deixa correr os dias ao sabor da ocasião, indiferente aos atropelos e às benesses, perdendo a memória do que aconteceu, do que sentiu, interessado apenas no que vem a caminho.
Infeliz o que, desejando ser o que nunca será, querendo possuir o que não lhe cabe, se mata aos poucos julgando que vive.
Falamos de nós próprios e vivemos nos outros, para os outros, eles a condicionar-nos os actos, o pensamento, o modo, as intenções, impondo usos, aguardando gestos.