domingo, fevereiro 18

Leitura fácil, escrita sofrida

 

Questão de sensibilidade, modo de encarar a vida, temperamento, por vezes até a disposição nesse instante, a alguns os cumprimentos parecem sempre poucos. Outros há que, como eu, reagem de modo desabrido em que a timidez e o embaraço levam a melhor, dando assim uma  impressão de sobranceria, assemelhando-se noutras a crianças envergonhadas com o tamanho do presente.

Ocorre-me isto a propósito de uma frase que li há dezenas de anos quando, aprendiz da escrita, a fome de leitura levava a melhor sobre a da comida, adormecia com os olhos baralhados e a doer.

A frase em questão era atribuída ao escritor inglês Ford Madox Ford (1873-1939), a quem um dia uma leitora cumprimentou, dizendo-lhe “O que o senhor escreve lê-se com muita facilidade!”, ao que ele com algum azedume respondeu: “A facilidade com que a senhora me lê, vem da grande dificuldade que eu tenho em escrever.”

Fora o apreço que me causou, recordo que invejei não ser capaz de uma resposta assim. Mas ontem, para meu desgosto e surpresa, ao acaso de uma pesquisa na internet sobre outro assunto, dei com a frase citada que, afinal, foi originalmente escrita por Nathaniel Hauwthorn (1804-1864) e desde então, confirma o Google, plagiada de várias formas por alguns com nome na praça, e sabe Deus quantos mais, ansiosos por botar figura.

Tem isso importância? De facto nenhuma, como também nada adianta discorrer sobre a vaidade, literária ou outra, pois além de ser assunto com pano para mangas, o risco é grande de, ao apontar o dedo ao semelhante, nos esquecermos de dar uma olhadela ao espelho, e arrotando postas de pescada com um vanitas vanitatum et omnia vanitas, nos iludirmos de que a vaidade alheia é desmedida, nada que se compare à pouca que temos.

 

quinta-feira, fevereiro 15

Na Corte de Lisboa

 

“O Observador foi considerado o meio de comunicação com melhor reputação (com 74,8 pontos) no segmento de media&digital, no estudo “RepScore 2024” feito pela consultora OnStrategy.

O estudo foi realizado através de entrevistas com 50 mil cidadãos representativos da sociedade portuguesa tendo em conta o distrito, género, idade e grau de formação, assim como 5 mil empresários, administradores e diretores de primeira linha e 800 jornalistas.

O Observador lidera o ranking no segmento de media&digital, com 74,8 pontos. Em segundo lugar aparece o Expresso (74,1), seguindo-se o Diário de Notícias (73,7), A Bola (73) e o Público (72,3).

Foram avaliadas diversas dimensões, como notoriedade, relevância, consideração, confiança, admiração, preferência, recomendação, qualidade de produtos e serviços, inovação, cidadania, ambiente, ambiente de trabalho, governo, liderança e saúde financeira. Mais de 2.000 marcas foram selecionadas e auditadas ao longo de 52 semanas.”

 Será que no "Obervador ignoram que  as sondagem e a Econometria pertencem às artes de mentir com números?

 

terça-feira, fevereiro 13

Mas para quê?

 

Para quê tanto berro? Que querem vocês? Que adianta esse atirar de lama e insultos? Gritam que governe quem governar nada mudará, só as moscas serão outras. Pensaram bem? Então nestes anos todos escapou-lhes que as moscas são sempre as mesmas e cresce a estrumeira onde elas engordam?

Por que esperam? Um redentor? Já não há. Revoltas e revoluções também não. Aliás, é sempre melhor que as faça quem sabe, pois das dos amadores resulta o que temos. 

Berram vocês na internet, exigindo mudanças e melhorias, mas a internet não é praça pública, nem tribuna, nem sequer o café. É um nevoeiro. E um blogue poderá dar-vos a ilusão de ser trombeta, mas nem chega a apito, é um murmúrio.

Passam por lá dez, cem, mil visitantes? Dois mil? Pois passam. Espreitam, farejam, lêem umas linhas, esquecem. Os mentecaptos – linda palavra doutro tempo – aproveitam para vomitar ódio nos comentários. Parece movimento e é só vento. Uma pequenina, triste, por vezes cómica sarabanda, diversão púbere, mau grado as doutas e menos doutas análises políticas, económicas, sociais, as profecias de desastres e misérias que não se levam a sério. Porque é só falação, entretenimento, a aragem a fingir de ciclone.

Mas a realidade – contenho-me para não dizer, a triste realidade – é que o tempo passa. O meu já passou, mas vocês têm quê? Vinte e cinco? Trinta? Quarenta anos? Na força da vida e sem genica, sem ideal, sem sonhos, aos berros de que isto está mau e vai piorar?

Ninguém vos ouve, o vosso berreiro nem sequer faz eco.