sexta-feira, janeiro 12

Tempo soalheiro

 

Atrocidades da guerra. Chacinas. Depurações étnicas. Atentados suicidas... Quase na vizinhança,   e contudo tão longe do nosso interesse. Os horrores do genocídio e da fome são-nos servidos na televisão entre desastres na estrada – "um morto, dois feridos graves" - as cotações da bolsa, um novo Iphone. Para os próximos dias as previsões meteorológicas são de tempo soalheiro e temperaturas a rondar os quatro  graus.

Jantamos, discutimos, fazemos planos de férias, dormimos o sono dos bem-aventurados.
Solidariedade? Claro que sim, sentimos. E até pena, durante os minutos que passam no ecrã os corpos esqueléticos, os rostos dos mortos, dos refugiados, dos que em terramotos perderam lar e família.

Abanamos a cabeça, descrentes, dizemos que é terrível, não se compreende que no mundo em que vivemos possam acontecer semelhantes tragédias.
Infelizmente, e para mal de nós todos, o mundo em que vivemos pouco mais longe alcança que a nossa porta.
Na melhor das hipóteses a nossa rua.

 

 

quarta-feira, janeiro 10

Cadeia virtual

 
De nada adianta dizer estou aqui, em carne e osso, presente, olhos abertos, repetindo que existo. Bem posso gritá-lo, este ou aquele distraidamente dará conta, logo esquecendo, confundindo o meu grito com o seu, imaginando ecos.

Quanto mais tempo existo mais estranha se me torna a percepção do semelhante e de mim próprio, toma-me o receio – de facto o pânico – que vivo a imitar, a supor, iludindo-me que vou por um caminho, negando que há muito não mexo, se é que jamais me dei conta de realmente existir, participar, pertencer.

Sinto-me no mundo, mas acorrentado a ele, estranha cadeia que, embora virtual, é a que mais dolorosamente prende, exigindo a morte como preço da libertação.

 

 

terça-feira, janeiro 9

domingo, janeiro 7

Rosário de queixumes

 

Nada adianta dizer-me, e repetir cem vezes,  que uma dose cavalar de indiferença ajuda a paz da alma e a saúde do fígado. O problema é que a indiferença, a genuína, tem de ser de fabrico próprio, não se compra em pílulas ou injecções.

Ora nesse particular da indiferença, - e da paciência também - confesso que a minha craveira se  encontra muito abaixo da média, pois antes de ter ideia do que me está a acontecer, e accionar o necessário travão, já o humor se me azedou. É assim que, numa ou noutra altura, me vejo a cair na armadilha da muita idade, recordando vivências e casos que, tivesse eu melhor juízo, deveria deixar nos arrumos para onde os atirei.

Infelizmente, já a sabedoria antiga avisa que burro velho não toma andadura, e para mal dos meus muitos pecados há décadas entrei nessa categoria, de forma a ser nula a probabilidade de mudança ou melhoramento.

É assim que me descubro incapaz de varrer da memória o “Paraquedista”, trafulha de quatro costados, não porque o dano que a sua “amizade” me causou tenha sido por aí além, mas devido ao remorso de me ter deixado intrujar, como se ele me tivesse hipnotizado ou, num momento de desvario, eu retornasse aos cinco anos, quando ainda acreditava no Pai Natal, e a tia Guilhermina, trombuda, aos meus olhos centenária, curava a minha soltura e as dores da barriga com uma longa reza em latim, ao mesmo tempo que na cabeça me deitava – um por cada pecado - sete pingos de azeite.

Ambos faleceram num já bem remoto trinta e um de Dezembro, mas continuo sem compreender que neles não penso  o ano inteiro, mas chegando a data é o mesmo que tê-los à minha frente em carne e osso.

 

sábado, janeiro 6

Linha do Sabor


 29 de Junho, 1974

domingo, dezembro 31

O tempo é um carrasco

 

Longe de mim gracejar ou querer fingir sabedoria, pois nem a ocasião se presta a ligeirezas, nem os muitos anos me tornaram sábio, e o que fui aprendendo durante o longo caminho percorrido, é travão bastante para exageros ou diversões.

Todavia, um ano a encerrar e outro a surgir, no momento em que soam as doze badaladas finais, poucos -  e entre eles me conto -  escapam ao vago sentimento que, inexplicavelmente, junta ao medo que os primitivos conheceram nas cavernas, uma angústia que parece sem fundamento, pois são colossais os avanços e melhorias que deles nos separam.

Por si só, tomar consciência um instante que fosse, do muito que temos e podemos, mesmo o que os nossos antepassados, um par de séculos atrás nem se atreviam a sonhar, deveria ser mais do que o preciso para conseguirmos alguma paz de espírito. Infelizmente, para nosso mal, parecemos condenados a uma permanente dúvida, inquietação e insegurança, só em raros instantes nos mostramos capazes de calar o temor e o desespero, fazer frente à adversidade, termos consciência do que, indivíduo ou cidadão, não somente podemos, mas é nosso dever, contribuir para que se realize um mundo próspero e muito mais justo.

Contudo, no instante em que soam as doze badaladas, das quais como por mágica, esperamos que façam esquecer dores e prenunciem boas-novas, vemo-nos devolvidos à condição dos nossos mais longínquos antepassados.

Não estaremos, como eles vestidos de peles; o calor que nos aquece não vem de toros a arder numa fogueira; não satisfazemos a fome rasgando com os dentes nacos de carne crua; não comunicamos aos urros e aos guinchos. Todavia, mesmo assim,  embora seja apenas num relâmpago, à meia-noite somos tomados pela angústia milenar da ignorância do que nos espera, e o temor de que essa angústia, impiedoso algoz, não tenha a caridade de ser fugaz, e no instante seguinte desapareça, mas regozije no poder que tem de alongar o nosso sofrimento. Aqui.