terça-feira, novembro 14

domingo, novembro 12

Cara-de-pau


A minha mulher diz que é o Destino, eu perguntou-me por que carga de água tenho de ser o escolhido.

Como sempre fazem  quando estão de volta, a Regina e o Abreu telefonaram a dizer que correu tudo bem. Estiveram na Argentina, Bolívia, Paraguai, passaram no Iguaçu, deram uma volta pelo Pantanal, mas ainda nem desfizeram as malas, por isso só depois de amanhã ao fim da tarde virão contar tudo.

Desanimadora perspectiva. Uns dez anos atrás este simpático casal descobriu o feitiço das viagens, e assim, ela dentista reformada, ele podre de rico, o muito tempo livre que a desafogada existência lhes proporciona, gastam-no a ver mundo.

Nada a censurar, bem ao contrário, eles próprios sublinham de vez em quando os benefícios do turismo para a economia dos países, fora o impacto positivo que a presença de turistas tem na mentalidade e nos hábitos das populações atrasadas.

Aceno sempre que sim, pois além de serem ambos gente agarrada ao bem fundado das suas opiniões, suportam mal debates e discordâncias. Típica de ambos, e também repetida ao longo do tempo, mas graças a Deus nunca realizada, era a promessa de trazerem os vídeos e as fotografias que agora reservam para o Facebook.

Delicados, boa gente, facilmente se passa a esponja sobre as suas falhas e idiossincrasias, embora uma dessas custe a digerir. Dá-se o caso que, seja a Galleria degli Uffizi em Florença, o Hermitage de São Petersburgo, o Taj Mahal, a Cordilheira dos Andes, a selva africana, os mosteiros da Grécia, a paisagem da Anatólia, perguntados sobre tudo isso e o mais que já viram, só se lhes tira um comentário: "É espectacular! Gostámos muito!"

Reprimindo o bocejo, faço de modo que a cara que ponho não traia o que penso, perguntando-me de que adianta tanta viagem para tão pequeninas cabeças.

 

sábado, novembro 11

quarta-feira, novembro 8

Do antigamente (6)

 


 

domingo, novembro 5

Tudo se aprende

 

As palavras de amor eram dos poetas, dos apaixonados, dos adolescentes, sussurravam-nas as solteironas aos gatos, as beatas diante do Crucificado. Liam-se nos romances em que a doente se apaixonava pelo médico, ou a lavradeira caía nos braços do fidalgo. Ouviam-se nos fados, soletravam-nas as actrizes nos filmes a preto e branco.

Hoje as palavras de amor continuam a ser dos poetas e dos namorados, das solteironas, das beatas, mas são-no também da publicidade, ajudam a vender mixórdias e cremes, automóveis, iogurte, pasta dos dentes, gelados, café e chá, o caldo Knorr. São usadas pelas agências de viagens, fabricantes de telemóveis, político americano que queira manter o posto tem de terminar a arenga às massas com um sonoro I love you.

Já havia inflacção, até que vinte e tal anos atrás chegaram os blogues, e com eles as palavras de amor tornaram-se enxurrada, com a qualidade das enxurradas. Permito-me afirmá-lo porque investiguei, investigo, exploro-as na blogosfera com uma dedicação de entomologista à procura do insecto raro.

De certeza anda por lá, bem escondida, a expressão de amor original, elegante, formulada de modo em que nela a paixão brilhe e ressalte. Mas para nossa perda e sinal dos tempos, a tendência é para nivelar pelo mais baixo, compreensível para os fracos do espírito, e assim abunda a chochice, a frase requentada, aquele "amo-te" tão desgastado pelo abuso que dá para parafrasear o "se fosses só três sílabas" de Alexandre O'Neill.

E a julgar pelo que leio, senhoras e meninas levam a palma. Deve haver, mas ainda não encontrei uma que exprima a sua paixão com um vocabulário ou estilo que me dê vontade de, literalmente, sair à rua a deitar foguetes.

Senhoras e senhores, meninos e meninas: as vossas paixões e a nossa língua bem merecem o esforço: aprendam a falar de amor.

 

sábado, novembro 4

sexta-feira, novembro 3

quinta-feira, novembro 2

Do antigamente (3)

 

 

30 de Abril 1977, na Damplein, Amsterdam, no "Koninginnedag" (Dia da Rainha), feriado nacional, um tempo em que a fotografia continuava a ser a minha grande obsessão. Vi, disparei, nem me pareceu impróprio, só cómico.

quarta-feira, novembro 1

Do antigamente (2)

 


 

terça-feira, outubro 31

Um texto de antologia

 

"Em Israel não existem humanos, apenas soldados; não existem casas, apenas tanques; não existem mortos, apenas estatísticas. Não há mater dolorosa israelita neste conflito: toda a Pietà é palestiniana." Aqui

 

Do antigamente (1)

 


domingo, outubro 29

Assino por baixo

 

“Globalmente, no universo das rivalidades, no panorama das relações internacionais, estou do lado de Israel. Não porque esteja sempre de acordo com os seus governos. Não porque aceite tudo quanto fazem. Também não por tudo o que são e defendem. Nem por serem brancos. Nem ainda por terem sido vítimas de perseguições, de expulsões e de massacres. Mas apenas e tão só porque, tudo somado, Israel está mais do lado da liberdade e da democracia do que os outros países seus rivais, adversários e inimigos. Em caso de divergência e luta, não é a cor da pele, a religião, a tradição, a etnia e a língua que me fazem tomar partido ou simpatizar com uns, em detrimento de outros. É o lado da liberdade e da democracia. Em caso de conflito, nenhum critério, pele, língua, etnia ou religião, me faz tomar partido por um qualquer país, em qualquer parte do mundo, Rússia, China, América ou África. Mas a democracia, sim. Não tenho dúvidas: em última instância, Israel fará sempre mais pela democracia do que o Hamas, o Hezbollah e os governos do Irão, da Síria ou da Rússia. Como também não tenho dúvidas em condenar a política do governo de Israel e de Netanyahu relativamente aos colonatos, ao reconhecimento do Estado da Palestina e ao embargo contra Gaza. Mesmo assim, estas políticas não são argumento suficiente para ter uma qualquer simpatia por quem quer destruir o Estado de Israel. E nem mesmo a compaixão pela sorte do povo da Palestina me faz acreditar no Hamas e desejar a extinção de Israel.” Aqui

 

 

 

A cegueira das certezas

 

Tão firmes se sentem os fanáticos nas suas certezas, que argumentar com eles é tempo mal gasto. Alem disso, o que por vezes parecia simples cavaqueira, ameaça então terminar aos berros e insultos, de modo que o mais avisado é fazer de surdo, ou deitar água na fervura, em caso nenhum cair na asneira de continuar a discussão.

Agora que abundam as circunstâncias de escolher campo, não vejo cómico que consiga ser tão divertido como um fanático. Não desses fanáticos que torturam e degolam, mas o fanático em versão simplória, como o do futebol ou dos Rolling Stones, e sobretudo o da política, filiado em partido. Esse endeusa tudo, mas mesmo tudo o que o partido decide, certo e seguro que o líder trilha o caminho exacto, só ele está na posse da milagrosa bússola que, sem falha nem desacerto, invariavelmente aponta para o norte das decisões sábias, das medidas certas, necessárias para o bem-estar e felicidade geral.

Diverte-me em particular o fanático que, sem falsa modéstia, se considera perspicaz e inteligente, porque esse deixa aperceber na vida política, sobretudo nas estratégias e medidas que o seu partido recomenda, possibilidades idênticas às de um dia se conseguir realizar a quadratura do círculo, a Coreia do Norte aliar-se aos Estados Unidos, ou encontrar prova do monstro de Loch Ness ser lampreia extraterrestre.

Entre as minhas relações conto dois desses extravagantes, mas não há indiscrição em revelá-lo, e perigo de perder a sua amizade também não corro, pois mesmo se me desse para lhes gritar que são tarados, eles nem por sombras acreditariam.

É que o fanatismo, e o da política partidária é felizmene dos mais mansos, tem por vezes isso de maravilhoso: causa uma cegueira igual à das grandes paixões que nas óperas se contam e cantam.