quarta-feira, outubro 25
terça-feira, outubro 24
domingo, outubro 22
A escrita em dia
O mais provável é que seja sintoma da muita idade, ou então um excepcional fenómeno de mudança, pois com o aumento dos anos a norma é que a memória falhe, não que de súbito se ponha a reavivar acontecimentos de décadas longínquas e, estranho bónus, insista nos detalhes, sobretudo nos que mais mágoa ou prejuízo causaram.
Ando a contar mortos. Não todos, só este e aquele, às vezes também uma ou outra, tornando actual a ocasião de acertar contas, e finalmente tivesse chegado a hora de pôr a escrita em dia. Revivo assim momentos de traição e falsidade, ocasiões perdidas, ódios e ciumeiras, questiúnculas. Como se misteriosamente fosse agora a melhor altura de os interrogar. Mesmo sabendo que é impossível descobrir o que então quiseram de mim, ou confessem porque razão se atravessaram no meu caminho, o motivo da inimizade escondida, das rasteiras, das armadilhas, do falso louvor, das cortesias de fingimento.
Digo os nomes e vejo os rostos, recordo as maneiras. Quedam-se eles inexpressivos e silenciosos, imóveis, manequins em montra de loja, dando ideia de que ao deixar a vida tenham também descartado o que foram e fizeram, o que sentiram, as molas que os empurravam, os temores, os sonhos e ambições que tinham.
Conto-os, porque num passado já muito distante contaram, fizeram parte de mim, dos meus dias e andanças, mas também por terem sido o que preferi não ser, porque deram os passos que com eles recusei dar. E ainda, porque em vez das ruas arejadas escolheram os becos e as vielas, a máscara, o esconso dos subterrâneos onde a luz não chega.
Surpreendo-me a recordá-los sem pesar, e vou-os arrumando, não como os viventes de carne e osso que foram, mas personagens da surpreendente e misteriosa ficção em que a vida por vezes se torna, aquela que escritor nenhum consegue pôr em livro.
sábado, outubro 21
quarta-feira, outubro 18
Sangue asiático
Enganas-te, minha linda, não há conversas nem troca de confidências, partilhas no Facebook, nas caixas de comentários, nas salas ou nos quartos. Não há. Nem mesmo quando tens o outro ao teu lado na cama ou no café. Palavra que não há.
De nada adianta pores cara feia, chamares-me cínico, velho azedo.
Um dia, mas tarde demais, irás descobrir que são tudo ânsias de parecer, convencer, demonstrar. O diálogo pode ter ares de conversação entre duas pessoas, mas é a aparente sintonia de dois monólogos. As palavras que saem da boca não são as que o cérebro forma, nem as que mais tarde lembram. Se reflectires verás que não disseste o que pensavas dizer, e transformaste o que te pareceu ouvir. Com boa razão intercalamos gestos e sorrisos, muitos sorrisos, naquilo que dizemos, pois não se vai à luta sem resguardo ou camuflagem. Porque tudo é luta, minha linda. Mesmo o que parece conversa.
…
Na intimidade ou em público, amarrados ao imperioso desejo de agradar, não ferir, estar de acordo, nós, portugueses, mantemos estranhas e subservientes conversas. Deve ser a gota de sangue asiático que trouxemos das navegações
segunda-feira, outubro 16
Todos têm razão
Agora que mais uma vez são tantos os que têm razão, vem à memória um episódio verdadeiro, ocorrido com Getúlio Vargas, o “sabido” que durante dezanove anos governou o Brasil.
Ganhara ele o hábito muito doméstico de despachar com os seus ministros, tendo sempre a esposa a seu lado, ocupada a fazer crochet.
Um tarde entrou no gabinete o ministro das Finanças, apressado e furioso, acusando o colega do Comércio de ser um patife, traficante de primeira, corrupto até à medula.
- Você tem razão, ministro. Vou tratar disso.
Logo depois entra o acusado, também a barafustar que o do Comércio era um bandalho, um vendido, um ladrão.
- Você tem razão, ministro. Vou tratar disso.
O homem a sair e a esposa a perguntar:
- Mas então como é, Getúlio? Têm ambos razão? Não estou a compreender.
- Alzira, você tem razão.
domingo, outubro 15
A festa dos salvadores
Alguns queixam-se de com a idade a memória vai falhando, as recordações se esfumam, confundem os acontecimentos. É lamentável, mas já Amália Rodrigues cantava que ninguém foge ao seu destino.
Separam-nos quinze anos, conheci o Abel ainda alferes, depois capitão sem barriga e sem barba, mais tarde com barba à Che, mangas arregaçadas, uniforme de camuflagem, botas de paraquedista. Ainda tenente, visitei-o num modesto rés-do-chão em Benfica, e quando a Revolução tinha ano e meio mudara para um apartamento dos altos do Restelo. Felicitei-o pela promoção a general, benesse que há muito aguardava e no seu pensar merecia pelos - palavras suas – "relevantes serviços prestados à Pátria e à Revolução".
Gosta de mostrar fotografias desse "incrível momento". Não se distingue bem, mas diz que é aquele ao lado do Jaime Neves. Ao lado do Chaimite também é ele.
- Aqui com a G7, ao pé do Salgueiro Maia. Sou eu.
Talvez seja, mas a figura é a três quartos num instantâneo desfocado.
- Fomos amigos. Um grande herói. Olha eu aqui, quando fomos esperar o Cunhal à Portela. Um momento em que só se acredita tendo estado lá.
Aproxima a fotografia, receoso de que a miopia dificulte o meu apreço.
Para não o desgostar aceno que sim, mas é uma confusão de barbas, ora à Che, ora à Fidel, uma ou outra à Marx. Pega na esferográfica, aponta uma cabeça na massa de gente:
- Eu.
Ultimamente fala menos no passado. A barriga pesa-lhe, há muito rapou a barba, sofre do fígado, tem problemas com o genro, acha que a Pátria, entregue "a esta súcia" vai água abaixo.
Gosto dele, enternece-me quando acrescenta: - E eu nesta idade não lhe posso deitar a mão!
Enternece-me também porque é o fiel retrato do salvador que vive em tantos, assustados de que não cheguem a festejar o Abril do meio século.
quinta-feira, outubro 12
Ganhar calo
Calo ganha-se nos pés, é o incómodo do muito que andamos. Criam-no nas mãos os que com elas trabalham. Calo doloroso ganha-se na alma, aquela parte de nós onde constantemente embate a malvadez alheia, a malquerença, a inveja, as mil gotas de veneno que tantos cordialmente dispensam, uns com o ar de displicente superioridade, outros mostrando a sanha de cão que guarda osso.
Dá-nos Deus possibilidades imensas e campo de sobra, um Sol que a todos aquece, mas nem isso aquieta os mesquinhos, roídos de ciúme pela serenidade alheia, o pão que o outro come e a alegria que mostra, o descanso que ganhou.
Morder, odiar, achincalhar, torna-se-lhes segunda natureza, vivem nesse pântano como peixe na água, iludidos pelo poder que se inventam, as certezas que se dão, a triste crença de se verem de tribuna e que uma multidão os aplaude.


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