sexta-feira, abril 21

O futuro a Deus pertence

Iniciado em Janeiro de 2007 este blog começa a ressentir-se do cansaço do autor, o que tem resultado numa menor frequência dos textos e a repetição de textos antigos.

Assim sendo, de hoje em diante será aleatória a publicação, e aproveito a oportunidade para agradecer aos leitores, alguns deles fiéis desde o início.

domingo, abril 16

O professor inglês

Moramos na mesma rua, mas seria exagero chamar-lhe vizinho, já que que a rua é quase uma  avenida, e não faço ideia em que prédio mora. Por razões que só ele sabe, se por acaso nos cruzamos faz uma espécie de aceno, mas logo desvia os olhos, dando a impressão de se envergonhar ou arrepender.

O Filipe, esse sim, vizinho e amigo, já numa ocasião mo quis apresentar, mas recusei sem lhe dizer porquê. Acontece que se o conhecesse de modo íntimo, certamente compreendia e aceitava os seus tiques, o que, por muito estranho que pareça – adiante explicarei porquê – resultaria para mim num prejuízo.

Personagem de certeza é, e dos melhores, muito actor festejado nem de longe lhe chega aos calcanhares na capacidade de representar. Segundo o Filipe explicou, é proprietário de uma sapataria que herdou dos sogros, mas quem com ele se cruza, talvez devido ainda ao seu metro e oitenta e ser ruivo, há-de supô-lo um professor inglês de meia idade, desses que vêm a férias com fome de sol e, sobranceiros, olham de alto para os locals com o mesmo modo que os seus antepassados tinham para os indígenas.

Ligeira­mente desleixado, veste fatos dum tweed tirante a verde, pullovers de lã grossa à moda dos anos trinta, sapatos de um vermelho que hesita entre o roxo e o sangue-de-boi. Fuma cachimbo, e num exagerado fingimen­to de excentricidade que se lhe tornou natural, ao caminhar olha vagamente para o ar e parece sorrir, ao mesmo tempo que mexe os queixos como quem masca. De vez em quando hesita no andamento, tropeça, e se alguém de repente lhe quer falar, dá a impressão de não ter ainda acordado.
Insistem em mo apresentar, mas nunca aceitarei, porque se o conhecesse pessoalmente teria um acesso de fúria com os seus tiques, e acabaria por matá-lo. Não como pessoa, pois não sou dado a violências, mas como personagem.

sexta-feira, abril 14

Vamos todos !


 

quinta-feira, abril 13

Mau tempo

 

Com dívidas colossais, a Itália (2.700.000 milhões – uma vez e meia o PIB), a França, a Espanha, a Bélgica põem em risco o Tratado de Maastricht. Assim afirma Hans Hoogervorst, antigo ministro das Finanças, (e antigo estudante meu) que não deve ser tabu o sair da Zona Euro.

E vamos nós então continuar a falar da TAP, dos inefáveis Marcelo, Costa, Nuno Santos, Mendes, Medina e quejandos?

 

quarta-feira, abril 12

Simenon e Liège


 

De Georges Simenon (1903-1989) li tantos romances que não me arrisco a dizer quantos foram, mas a avaliar pelos que tenho nas estantes devem ter sido mais de cinquenta.

Do seu Comissário Maigret, superiormente interpretado na televisão por Jean Gabin (1904-1976), guardo excelentes recordações.

De Liège, onde nasceu, que odiou e tão sombriamente retratou, não adianta dizer bem ou mal. Gente haverá que gosta dela; outros, como ele e eu, acham-na desagradável, se a visitam é por obrigação.

Acontece que, e não somente devido ao talento de Simenon, como que paira sobre a cidade e os seus habitantes uma estranha maldição. Dão-se lá estranhos crimes, formas bizarras de vícios, corrupção de topo, já foi considerada a cidade mais criminosa da Europa, merecendo a alcunha de Palermo do Mosa.

Vem-me isto à lembrança devido à notícia que um dia li e agora recordo: uma noite, ao regressar a casa, um habitante de Liège deparou com uma cena mais lúgubre do que as inventadas por Simenon: no portão da moradia pendiam os corpos da esposa (56) e das suas duas filhas (29 e 30) que ali se tinham enforcado com uma corrente de ferro.