sábado, fevereiro 25
sexta-feira, fevereiro 24
O poder do Além
O Cardoso aceiava com duas condições.
Uma risonha:
– Você manda preparar uma feijoada, que nós estamos precisando mesmo! Certo?
Antes de poder responder já o outro tinha mudado de voz, acrescentando num tom
preocupado:
– E me faz um grande favor, não convida mais ninguém, não. Têtê está passando
mal.
Depois ocorreu-lhe que devia ter mostrado interesse, peguntar o que é que ela tinha,
se era grave. Paciência.
Desligara porque estava com pressa,
assoberbado de trabalho. E agora o aborrecimento de os ter convidado sem
pensar.
Através da porta aberta gritou ao chanceler:
– Vasconcelos! Onde é que a gente pode arranjar farofa? Tinha sido impossível.
Na França inteira não havia farofa. A salvação veio na manhã anterior, quando a
embaixatriz
telefonou a dizer que cedia um pacotinho. O último. Mandava pelo chofer. Numa
cidade como Paris era indecência! Nem o Fauchon tinha, o célebre Fauchon! Ela
pedia aos amigos que
vinham do Rio.
– E alguns esquecem, viu?
– É, embaixatriz, a senhora tem razão. Esquecem. Eu sei.
Ia assinando os papéis que o chanceler punha sobre a secretária e
involuntariamente acenava que sim, concordando, como se ela o pudesse ver.
Já se despedira várias vezes, recomendando-se
ao embaixador e aos meninos, agradecendo a
farinha, mas ela ainda quis saber para quem era o jantar:
– Qual Cardoso? A gente conhece ele?
Ficou sem voz. Ao dar conta do perigo atabalhoou como pôde:
– A embaixatriz não conhece. Primo de Minas, da parte de mamãe. Estão viajando,
ele mais a mulher.
A embaixatriz acrescentou que estava uma tarde esplêndida (ela pronunciava
eispélêndida) para passear no Bois, disse Ciao e desligou.
Graças a Deus tinha corrigido a tempo! Nos anos trinta, no começo da ditadura
Vargas, o Cardoso tinha sido sujeito de legenda, esquerdista, homem de
revoluções. Acompanhara
o Prestes. Falava-se de mortes e torturas, mas com certeza nada disso era
verdade. Só que o embaixador, com aquele jeito safado dele, se soubesse de quem
se tratava não deixaria passar a ocasião. «Foi esta embaixada informada da
presença em Paris do conhecido agitador e revolucionário...» Capaz de o meter
também na dança, de levantar suspeitas, numa altura
em que estava esperando transferência para Washington.
Na rua a friagem obrigou-o a se aconchegar no sobretu-
do. Uma tarde «eispélêndida»! Seria verdade que ela ainda mantinha aquele
gigolo libanês Bébert?
Apetecia-lhe ver gente, deixar passar o tempo. Tudo eram complicações.
Impossível convidar um amigo para uma feijoada sem começarem logo as
desconfianças, as más-línguas.
Caminhava para casa a contragosto, parando diante das montras, acompanhado pela
lembrança de Cardoso e Têtê.
Uma amizade de acaso, oito ou nove anos atrás, quando lhe tinham aparecido no
consulado – em Quito ou em Dacar, já não sabia – por causa de um visto,
recomendados pelos Mes-
quitas. Casal simpático. Passavam, jantavam, desapareciam, eram fiéis nos
postais de Boas-Festas. Uma intimidade assim.
Mas se o embaixador viesse a saber, o bastante para dar bronca. «Confidencial, urgente.
É do conhecimento desta embaixada que o cônsul Aniceto Dias convidou para
jantar em sua
residência, quarta-feira passada, o perigoso chefe guerrilheiro José Cardoso.
Fonte digna de toda a confiança informa ainda...»
Num impulso entrou num café e telefonou à mulher que, mesmo antes de ele
perguntar, lhe disse que o chofer da embaixada já tinha entregado a farofa.
– Ótimo, Luísa. Você convidou mais alguém?
Não. Ela tinha seguido as instruções à risca. Jantavam só os quatro. Mas queria
dizer ainda uma outra coisa: a empregada esquecera de dar água ao papagaio.
– Outra vez!
– É. Ela é meio esquecida – concordou ele, para não ter de ouvir o relato das
guerras domésticas. – Eu vou acabar este expediente, discutir umas coisas com o
Vasconcelos, aí pelas nove estou em casa.
Descobriu uma mesa vazia, tirou o sobretudo e pediu conhaque. Sentia um
mal-estar vago. Abriu o jornal, mas em vez de ler ficou absorto, seguindo o
movimento da rua.
– Têtê que diga! Chegámos num sábado e deu logo bronca! A pontos que o regime
de lá tremeu!
Doía-lhe a cabeça. Não se sentia com forças para aguentar aquela exuberância do
Cardoso, os detalhes mais mínimos da viagem a Moscovo.
– Imagina! Quarto acabado de pintar! Fedendo! Privada sem papel, sem água...
Sem água!
– José...
– Descemos. Eu chamei o tal de gerente. Me dá um quarto limpo, privada com água
e papel, ou você vai se arrepender! E o cara enfiou.
– José. Quando nós fomos...
– Exacto. Lotaria! No metrô. Aliás troço feio. Grande, mas feio. E garçom no
restaurante de mão estendida, esperando xixica! Uma sem-vergonha! Chofer de
táxi pedindo xixica! Têtê está aí para confirmar.
– José, eu queria contar o nosso caso.
– Conta, bem. A Luísa e o Aniceto vão gostar.
Não se lembrava de uma dor de cabeça assim. Tinha a impressão de que o crânio
acabaria por explodir, cedendo à formidável pressão interior, mas eles pareciam
não dar conta. Nem a mulher, aliás, sorridente, passando outra vez a feijoada.
Têtê, com voz de menina:
– Só mais um nadinha. Deliciosa. Está mesmo uma beleza. E é a empregada
francesa que faz? Não me diga! É?
Cardoso, depois de limpar os lábios:
– Vocês têm de vir passar uma temporada lá na chácara da gente, em Ibiquí.
– Querido. O caso.
– Já estava me esquecendo. Você quer contar? Conto eu?
– Conta você. É melhor. – E numa mudança repentina de humor: – Nada, não. Eu
conto. Me está lembrando perfeitamente.
No ano anterior, em Paris – «Vocês estavam de férias na Holanda, a gente não se
viu.» – tinha acontecido com ela uma coisa fabulosa.
Para contar melhor afastou-se um pouco da mesa, dobrou o guardanapo lentamente,
com gestos precisos, como a criar um efeito. Depois cruzou as mãos. Mulher de
meia-idade, sobre o gordo, vestida de seda preta, os cabelos entufados num
cilindro descomunal. Cândida e caricata na maneira de se encostar ao marido,
mostrando uma precisão de apoio.
Ele deitou-lhe o braço pelas costas, carinhoso:
– Está sentindo alguma coisa, bem?
Ela sorriu frouxamente, a cabeça pendeu-lhe para trás, os olhos rebolaram
mostrando o branco. Aniceto quis acudir e a mulher deu um gritinho de susto,
mas Cardoso sossegou--os com um gesto:
– É e-xaus-tão! – sussurrou ele. – Passa logo. Deixa ela descansar. Pois faz um
ano, a gente ia passando na Conciergerie, Têtê começa a suar frio, a tremer e
viu, reviveu! a morte do Robespierre, do Danton, da Marie Antoinette, de
centenas de condenados à guilhotina. Tudinho! Em detalhe! Durante horas ela
acompanhou tudo isso. Com o poder do Além! No hotel ficou dois dias paralisada.
Sem comer. Sem dormir. Num grande sofrimento. Pedindo água, só água. Às vezes
gritava “Mon Dieu!” e caía sem sentidos!
Seguiu-se um silêncio constrangido, ambos desnorteados como se tivesse
acontecido uma inconveniência, sem saber que responder, os hóspedes abraçados
um no outro, ele acariciando-lhe o pescoço, ela ainda de olhos em branco e com o
mesmo sorriso beato.
– Vocês faz de conta que não está acontecendo nada.
Continua a comer. Mesmo se começar em delírio. Porque ela está aqui e não está
aqui. Têtê me transformou. Lhe devo tudo! A fé! Duro como eu era, me
transformou!... Nesta viagem... Vamos pela rua, em Moscovo, ela repara numa
mocinha e me diz assim: «José! Essa menina tem fome! Vou falar a ela!...»
Têtê tinha sentido a fome espiritual
da mocinha! Es--pi-ri-tu-al! A vontade de acreditar! A recusa total, to-tal! daquele
regime odioso. E deu logo a ela um livrinho espírita, seu livro de cabeceira de
muitos anos. Vocês não imaginam a cara da menina, compreendendo com o coração!
– Eu sempre julguei que você, Cardoso...
O outro fez um aceno impaciente com a mão, ao mesmo tempo que esvaziava o copo:
– O comunismo de hoje não tem nada a ver com o Marx, o Engels, o Lenine. Esses
eram verdadeiros Cristos! Mas um Breznjev, um Estáline, os outros, são bestas
do Apocalipse, au-
tênticas feras!
– Mas quando você fazia parte da guerrilha do Prestes...
Cardoso ignorou a interrupção:
– Pois contra os espíritos do Mal, para destruí-los totalmente, Vera aceitou
uma missão espírita, vai começar sua cruzada. Nem quis ver São Petersburgo. Só
acha importantes as visões, as mensagens que recebe a cada momento. Quando passarmos
agora em Fátima tudo vai se aclarar. Vera fica lá dois dias, meditando. Se o
avião não saísse no sábado, ela ficava mais tempo. Infelizmente, não pode. E eu
também não, com os meus compromissos no Rio.
– Um pedacinho de Camembert?
– Não. Me dá antes desse chèvre.
Cardoso saboreou lentamente o queijo, com um murmúrio de apreço e depois de um
golo de Porto continuou:
– Não é por ser minha esposa, não, mas essa moça é excepcional! Se vocês vissem
de noite! Os espíritos ficam trabalhando com ela até altas horas, pedindo,
exigindo, dando ordem. E essa Têtê, que é autêntica força de mulher, se dobra e
obedece, faz tudo que eles mandam. Seu único interesse é o bem da humanidade.
– Como é, amor? – perguntou ela, meio ausente.
– Nada. Estava contando. Você se sente bem?
– Ótima.
– Você quer queijo?
– Não. Mas eu comia um pedacinho de melão, se tivesse. Eles hoje estão pedindo
fruta, só fruta. Principalmente melão. Não sei porquê. Talvez porque na Rússia
não tem. Estes são russos. Você se lembra do que eu te disse em Moscovo, quando
eles se manifestaram pela primeira vez? Todos desiludidos? O comunismo vai por
água abaixo. É o que eles estavam agorinha me contando. Que o próprio Marx já
se desinteressa.
quinta-feira, fevereiro 23
quarta-feira, fevereiro 22
terça-feira, fevereiro 21
Manias
Prezado senhor Liebkoff,
Porque eu ignorava a sua fixação maníaca pelos gadgets úteis e inúteis, não
compreendi de imediato que a minha confissão de que não possuo, nem quero
possuir, câmara de vídeo o surpreendesse e irritasse tanto. E foi para não aumentar
a sua irritação que lhe escondi que também não possuo micro-ondas, nem
telemóvel, gravador DAT, alarme infravermelho, TV portátil, agenda electrónica
ou relógio que continue a marcar a hora certa a 30 metros de profundidade.
Tudo isto lhe poderia ter eu dito de viva voz em resposta à sua diatribe, mas
tenho um bom motivo para lho dizer por carta: é que cada vez mais vou dando
preferência à palavra escrita sobre a palavra falada. E talvez porque elas compreendem
a minha idiossincrasia, é que ainda consigo participar numa hora de cavaqueira
com as três ou quatro pessoas que conheço há uma eternidade e cuja companhia prezo.
Mas com as restantes o conversar vai-se-me tornando
uma sobrecarga, de forma que começo a preferir o silêncio e a solidão da
escrita.
De princípio temi ver nisso um preocupante sintoma do ensimesmamento que
resulta da idade. Raciocinando depois com mais calma, dei-me conta de que essa
antipatia tem menos a ver com qualquer diminuição das minhas faculdades mentais,
do que com a insignificância do geral das conversas que oiço, ou em que dum ou
doutro modo tomo parte. Para lhe dizer a verdade, ter de discorrer sobre a
utilidade dos gadgets, ou o desinteresse que por eles se sente, também me não
pareceu o que se chama um exercício do espírito.
Esta minha franca afirmação não significa, contudo, que eu nutra por si uma
animosidade particular. Bem ao contrário, como verá. O desinteresse em
conversar tenho-o também
com outros, e a tal ponto que, para meu mal, me afecta o humor.
Se por exemplo passo por uma
esplanada ou entro num café, acontece-me olhar os presentes com o mesmo malicioso
deleite de um polícia ou de um sacerdote que surpreende
quem peca contra os artigos do código ou os mandamentos da divindade. Porque a
maioria daquela gente está ali em infracção! A conversar para matar o tempo!
Um ou outro terá parado para um refresco. Aqui e ali haverá alguém envolvido numa discussão sensível e inteligente, numa útil troca de ideias, no andamento dum negócio. O resto cacareja com o desconchavo de galinhas agachadas num poleiro.
Cacareja sobre o tempo, sobre o
quizz de ontem, as doenças, o sabor da sande de queijo, a política, a arte,
cata fiapos de inveja, pica grãos de má-língua. E o mesmo se dá um pouco por
toda a parte, nas recepções, nos foyers dos teatros, nas festas de família,
emprestando ao mundo o aspecto duma imensa capoeira.
Não vá, porém, acusar-me de misantropo, que (ainda) o não sou. Deus sabe com
que gosto oiço alguém que, conversando, me ensina ou diverte. Mas isso é a
excepção. Por regra, e infelizmente, no seu estado mais simples a conversa parece
ser a versão humana do ritual de farejos e toques com que os animais, quando se
encontram, verificam as disposições mútuas. Depois, sem terem permutado nada
que valha a pena, vai cada um para o seu lado, fazendo acenos, a nossa forma de
abanar o rabo.
Espectáculo tão deprimente que eu, afinal, lhe venho agradecer que tenha tentado, com entusiasmo e paixão, incutir-me a sua mania.
In Mazagran – Quetzal, 2012
segunda-feira, fevereiro 20
Bom mestre
Com os bons mestres se aprende. Tenho tido muitos e Raymond Chandler (1888-1959) conta entre os melhores. Diálogo, carpintaria do enredo, fluência da narrativa, tudo nele é de fazer inveja. Aflige-se a gente ao lê-lo, e ao medir pela sua a prosa que tanto esforço custa, por mais que se remende nunca sai a preceito.
Há na língua holandesa um provérbio que, livremente traduzido, diz que quem nasceu para tostão nunca chegará a conto de réis. De facto assim é. A sageza não está em, com fracas forças e pouca bagagem, querer subir aos píncaros, mas fazer o que se pode e, sem desânimo, receber as lições de quem é capaz de perfeição.


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