domingo, janeiro 22

Outra vida

 

Faz quanto pode para que a recordação se torne menos crua, mas não consegue. Pior: em vez de esfumr-se com os anos, a memória força-o a prestar atenção a minúcias que não lhe tinham escapado, mas escamoteara da lembrança, tentativa cobarde de ignorar o nojo, esquecer a baixeza de se sentir inimigo de si mesmo, vítima dócil, querendo fosse doutro o eu que ali tinha estado.

Para seu mal não fora, nem o restaurante um palco de teatro e ele actor, mas tudo real, acontecido, sala cheia, agitação, fumo, ar de festa, gargalhadas, e o que nem de longe poderia imaginar: ia ser dado ali o tiro de partida para o seu destino.

Alma de subalterno, sempre no receio de fazer esperar chegara adiantado, o empregado a indicar-lhe a mesa num tom de falsa cortesia, o olhar a traduzir que pela atitude e o fato não pertencia ali, mas atencioso na vénia, ao puxar-lhe a cadeira, na pergunta do que iria beber.

O patrão chega, o gerente em rapapés, mesura à desconhecida. Levanta-se e aguarda, recruta em sentido, desajeitado, uma mão na do patrão a outra a puxar a cadeira da rapariga, incapaz de parar o sorriso tolo. Emília? Repete o nome, fingindo não ter ouvido. Toca-lhe o braço, espera que se sente.

Com o burburinho mal se compreendiam, recorda frases soltas, vê-se a reparar no sorriso da desconhecida, indiferente, como se  estar ela ali fosse obrigação ou tempo de serviço. Referindo banalidades, mesquinhices, um interesse de cortesia.

Que poder o obriga ao martírio? Que feitiço o impede de safar a memória? O que o leva a negar-se a compaixão que lhe traria paz e descanso?

Conhece a resposta, como sabe por demais que embora nem sempre assim pense, recordar essa ocasião e as consequências que teve é um mal menor. Mas quando o vê à luz do tempo de uma vida, muitas vezes se pergunta se é a sua ou foi um engano da reincarnação.

 

 

 

 

sábado, janeiro 21

Como será?


 

À quarta-feira há mercado no bairro. Talvez por isso a farmácia estava cheia de gente e teria de esperar, mas só quando tirei o número me dei conta que eram vinte e seis a atender antes que chegasse a minha vez. Felizmente há por ali bancos corridos, mesas com jornais, mesas com brinquedos, televisão (o som baixinho) a passar filmes da Natureza.

Sentei-me no único lugar livre, junto de uma espécie de gigante que ocupava o espaço de dois, com a musculatura que se supõe em homem da construção ou estivador de antigamente.

Ele sorriu. Eu sorri. Uma rapariga, coquete, espelhinho em riste e desatenta do que a rodeava, corrigia imperfeições que, a piscar e a franzir, ia adivinhando, ora nas sobrancelhas, depois nas pestanas, nos lábios, e de novo nas sobrancelhas, e de novo nas pestanas...

Atento ao meu observar, o gigante voltou a sorrir. Com o queixo fez o gesto de quem aponta, e só então reparei que à nossa frente estava uma matrona com incríveis unhas postiças. Ridículas no exagero do tamanho, rectangulares, pintadas de esmaltes variados.

Encolhi os ombros.

O gigante, deu-me uma cotovelada a acompanhar o riso, sussurrando:

- Como será que essa...

Infelizmente, estou cada vez mais surdo e ele, compreendendo, repetiu alto:

- Como será que ela limpa o...

A gargalhada dos que estavam perto foi simultânea com o resto da frase.

Indiferente ao mundo, perdida na sua vaidade, piscando, franzindo, o espelhinho virado para aqui e para ali, a dona continuava imperturbável o seu fazer.

 

 

sexta-feira, janeiro 20

Ondas

Supunhamos que, embora com capacidades primitivas, nós humanos funcionamos talvez como receptores de sinais, ideias e mensagens, cujos resíduos, à falta de melhor equipamento, processamos através do sonho e da fantasia.
Imaginemos agora que esses sinais, provenientes dum ou doutro remoto planeta, sofrem por vezes de trocas de linha (de onda?) e são recebidos pelo destinatário errado.
Não se poderia explicar assim o destrambelhamento que, sem razão visível às vezes sentimos, tornando-nos por instantes estranhos a nós próprios?

Dá para pensar.