Tinham-me encontrado sem sentidos no
ascensor do prédio, e um mês depois, ao acordar do coma, descobri que guardara
a visão, mas perdera a fala e o ouvido, o restante em paralisia.
Soará estranho, facto é que não
senti medo nem me apiedei de mim próprio, surpreendi-me a aceitar com uma
capacidade de indiferença que me desconhecia, assim a modos de quem, por
inesperado motivo, se vê num tempo de cadeia, mas recebeu garantia segura de
que não será pena perpétua.
Exótica quarentena. Desinteressado
das horas, do cariz do tempo, das mudanças de estação. Distraído com os rostos
que se debruçavam a examinar-me, os cuidados que recebia, surpreso de não
sentir dor ou fadiga, apenas alguma curiosidade acerca de um estado que,
talvez para compensação de limitações drásticas, extremava algo que não era a
capacidade de observação ou a agudeza do raciocínio, mas um modo de existência
em que, sem descartá-la, à memória tivesse sido retirada a capacidade de modificar.
Exagero, mas só ligeiramente, se
disser me que divertiu a perplexidade dos polícias à paisana que,
acompanhados de uma enfermeira, ao segundo dia da
"ressurreição" me vieram observar, atónitos de que a minha identidade
não condissesse com a do locatário do apartamento onde eu oficialmente residia.
Suponho também que, passada a surpresa, se devem ter perguntado, e gostariam
que lhes explicasse, o não haver lá um único móvel, estarem as gelosias
cerradas em permanência, não se descobrir indício de jamais ter sido habitado.
Deu-me a impressão de que
perguntavam qual era o meu estado, provavelmente se seria possível
interrogar-me. Um deles, esperançado de ver um sinal, aproximou-se, pondo-me
defronte dos olhos o passaporte canadiano que, por acaso, eu nesse dia trazia
no bolso.
Ficou assim um instante, mas ao
dar-se conta que nada adiantava devolveu-o à enfermeira, disse qualquer coisa
aos colegas e saíram.
Em circunstâncias normais talvez
tivesse jubilado com a vitória que apenas eu sabia ter obtido, mas limitei-me a
sussurrar no íntimo a frase que anos atrás me ocorrera, e condensava a ânsia de
anonimato que há muito se me tornou segunda natureza: escapei à vida.
Assim era, e a minha satisfação
provavelmente maior do que o daqueles que, tendo corrido um perigo, dizem ter
escapado à morte.