sábado, junho 25

Cogito ergo sum

De nada adianta dizer estou aqui, em carne e osso, presente, olhos abertos, repetindo que existo. Bem posso gritá-lo, este ou aquele distraidamente dará conta, logo esquecendo, confundindo o meu grito com o seu, imaginando ecos.

Quanto mais tempo existo mais estranha se me torna a percepção do semelhante e de mim próprio, toma-me o receio – de facto o pânico – que vivo a imitar, a supor, iludindo-me que vou por um caminho, negando que há muito não mexo, se é que jamais me dei conta de realmente existir, participar, pertencer.

Sinto-me no mundo, mas acorrentado a ele, estranha cadeia, que embora virtual é a que mais dolorosamente prende, exigindo a morte como preço da libertação.

sexta-feira, junho 24

Escapar à vida

 

Tinham-me encontrado sem sentidos no ascensor do prédio, e um mês depois, ao acordar do coma, descobri que guardara a visão, mas perdera a fala e o ouvido, o restante em paralisia.

Soará estranho, facto é que não senti medo nem me apiedei de mim próprio, surpreendi-me a aceitar com uma capacidade de indiferença que me desconhecia, assim a modos de quem, por inesperado motivo, se vê num tempo de cadeia, mas recebeu garantia segura de que não será pena perpétua.

Exótica quarentena. Desinteressado das horas, do cariz do tempo, das mudanças de estação. Distraído com os rostos que se debruçavam a examinar-me, os cuidados que recebia, surpreso de não sentir dor ou fadiga, apenas  alguma curiosidade acerca de um estado que, talvez para compensação de limitações drásticas, extremava algo que não era a capacidade de observação ou a agudeza do raciocínio, mas um modo de existência em que, sem descartá-la, à memória tivesse sido retirada a capacidade de modificar.

Exagero, mas só ligeiramente, se disser me que divertiu a perplexidade dos  polícias à paisana que, acompanhados de uma enfermeira, ao segundo dia da  "ressurreição" me vieram observar, atónitos de que a minha identidade não condissesse com a do locatário do apartamento onde eu oficialmente residia. Suponho também que, passada a surpresa, se devem ter perguntado, e gostariam que lhes explicasse, o não haver lá um único móvel, estarem as gelosias cerradas em permanência, não se descobrir indício de jamais ter sido habitado.

Deu-me a impressão de que perguntavam qual era o meu estado, provavelmente se seria possível interrogar-me. Um deles, esperançado de ver um sinal, aproximou-se, pondo-me defronte dos olhos o passaporte canadiano que, por acaso, eu nesse dia trazia no bolso.

Ficou assim um instante, mas ao dar-se conta que nada adiantava devolveu-o à enfermeira, disse qualquer coisa aos colegas e saíram.

Em circunstâncias normais talvez tivesse jubilado com a vitória que apenas eu sabia ter obtido, mas limitei-me a sussurrar no íntimo a frase que anos atrás me ocorrera, e condensava a ânsia de anonimato que há muito se me tornou segunda natureza: escapei à vida.

Assim era, e a minha satisfação provavelmente maior do que o daqueles que, tendo corrido um perigo, dizem ter escapado à morte.

quinta-feira, junho 23

Culto da personalidade (3)

 


                                                                          (Clique)

quarta-feira, junho 22

O romance vai morrer


Desde que comecei a ler com algum entendimento chama-me a atenção que, de longe a longe, às vezes em grupo, noutras com a forte certeza de quem viu a luz, aparece uma rapaziada a anunciar a morte do romance, ou descartando como ninharia tudo o que se escreveu antes do falecimento.

Formam cliques, agrupam-se em escolas, reúnem-se em capelas, criam modas, depois tudo aquilo passa, fenece, e o romance continua pacatamente o seu caminho, num futuro próximo não se lhe descortina o enterro.

É assim que, em mais de uma altura, me tenho perguntado donde será que lhes vem a birra. Saberão o que o resto do mundo desconhece? Será gente com dons de vidência? 

Ao longo de gerações tenho visto como surgem a refilar, para logo depois, tal morrão de candeia, deitarem um fuminho e sumirem em inglório anonimato. Por isso mais de uma vez me tem ocorrido que, empurrados pela universidade, a família, os compinchas, ou então, com aquele ânsia tão nossa, tão portuguesa, de "fazer como se faz lá fora", ressentem uma urgência de dar nas vistas.

Mas darão? Sabe você quem é o rapaz que recentemente anunciou a morte do romance? Ou o outro que pregou o mesmo há dois anos? Ou os avôs desses, que em Maio de 68 juravam que a salvação  da literatura era o Nouveau Roman?