terça-feira, abril 26

O "Peregrino"

O pai, depois ou antes dele os irmãos, os tios, o padrinho. Mais tarde, quando já se sabia, um qualquer acenava e ela, detrás do muro, levantava a saia, deixava-os fazer. Alguns batiam-lhe. Chamavam-lhe cadela. Puta. Porcalhona. De longe a longe deixavam-lhe uns tostões, pagavam-lhe um copo na taberna. Um amarrou-lhe as mãos com uma corda, prendeu-a a uma cerejeira, e foi buscar o irmão tolinho que, aos quarenta anos, ainda não conhecera mulher.
Foder? Arrombar? Começou aos onze e para aquilo, para o que em mais de vinte anos fizeram com ela, os verbos da ralé não servem, não chegam, não dão a medida da bestialidade e do desprezo, do sofrimento, do nojo, do vácuo animal, do escuro de algumas vidas.
Era desmanchar ou parir, parir e enterrar. Nunca ninguém quis saber quantos, nem ela guardou memória.
Escaparam dois. Criados ao Deus-dará com o pão das esmolas e aguardente na chupeta, ficaram gente na aparência, bichos no resto. O mais novo levaram-no os ciganos e têm-no na Espanha como escravo.
Corpo de gigante, cabeleira ruiva, uma perna torta, ao mais velho “deu-lhe uma coisa”, e como o médico mandou que andasse, anda sem parar. Dia e noite, chuva ou sol, calor ou frio. Chamam-lhe agora o "Peregrino”. 

As mulheres têm-lhe medo, tremem quando se cruzam com ele nos atalhos. Diz-se que o ouviram prometer que um dia uma não escapa, há-de lhe fazer o que fizeram à mãe.

segunda-feira, abril 25

O salvador

Conheci o capitão sem barriga e sem barba, depois com barba à Che, mangas arregaçadas, uniforme de camuflagem, botas de paraquedista.

Visitei-o num rés-do-chão em Benfica, e quando a Revolução tinha ano e meio num belo apartamento dos altos do Restelo. Felicitei-o pela promoção a general, benesse que há muito aguardava e no seu pensar merecia pelos - palavras suas – "relevantes serviços prestados à Pátria e à Revolução".

Gosta de mostrar fotografias desse "incrível momento". Não se distingue bem, mas diz que é aquele ao lado do Jaime Neves. Ao lado do Chaimite também é ele.

- Aqui, com o Salgueiro Maia. Sou eu.

Será. A figura é a três quartos, num instantâneo desfocado.

- Fomos amigos. Amicíssimos. Um grande herói. Olha eu aqui, quando fomos esperar o Cunhal à Portela.

Digo que sim, mas é uma confusão de barbas, ora à Che, ora à Fidel, uma ou outra à Marx. Ele pega na esferográfica, aponta uma cabeça na massa de gente:

- Eu.

Ultimamente fala menos no passado. A barriga pesa-lhe, há muito rapou a barba, tem problemas com o genro, acha que a Pátria, entregue "a esta súcia" vai água abaixo.

Gosto dele, enternece-me quando acrescenta:

- E eu, nesta idade, não lhe posso deitar a mão!

 Enternece-me também porque o vejo como fiel retrato do salvador que vive em tantos de nós.

 

domingo, abril 24

A pressa mata

É aflição bem frequente nos que escrevem para um periódico, e distraídos, desleixados ou preguiçosos vão adiando, até que se dão conta de que o prazo de entrega não é para a semana que vem, nem logo à tarde, mas daqui a nada.

Em certa altura, apanhado numa dessas urgências e sem assunto para relatar, Eça de Queirós escreveu simplesmente sobre a morte do bei de Tunis, confessando depois que ignorava se em Tunis havia um bei, e se esse governante estava vivo ou tinha falecido.

Hoje em dia e mais do que então, pois tudo é urgente e muitas vezes se quer imediato, o último momento para entrega de um texto bem merece que lhe chamem deadline, e embora seja improvável que o atraso cause a morte do escriba, de certeza lhe desgasta o cérebro, põe em crise de nervos e afecta gravemente a tensão arterial.

No que me respeita, embora ainda nunca me tenha visto aflito a ponto de ter de fantasiar a morte de alguém, verdade é que já uma vez, a braços com a falta de assunto e o tempo a correr, deitei mão a um caso real e extraordinário de guerra entre sogra e genro, um daqueles em que não é apenas questão de ganância e avareza, mas da parte da senhora um refinado sadismo e uma duplicidade de Maquiavel.

Mudei nomes e lugares, mas a respeito do enredo pouco havia a fazer, pois se o modificasse demais perdia o interesse, deixava de ser bizarro. Finalmente, a deadline a chegar, o remédio foi deixá-lo ir para o jornal.

Seguiram-se uns meses de suspense, voltei ao ramerrão, e há muito tinha esquecido o assunto, quando uma noite o Zé Moreira telefona. O intróito é sombrio, de mau prenúncio, digo-me que dali não vai sair nada de bom, tanto mais que ele vai esticando o assunto, mas quando espero uma descompostura rebenta ele às gargalhadas:

- A santinha já lá está! Não juro que foi por ter lido aquilo teu, mas se calhar ajudou!

 

 

domingo, abril 17

O perigo dos ultimatos

Num mundo de surpresas e incertezas, o Alípio destaca-se pelo fanatismo de querer que muito aconteça, se comporte e resulte segundo as regras por ele estabelecidas. Ora se duma engrenagem se espera que funcione e não empanque, um ser humano ou um animal nem sempre reagem como se deseja, e logo refilam se a exigência lhes desagrada ou parece excessiva.

Dado o carácter do Alípio, facilmente se compreende que o ambiente doméstico há muito se possa comparar a uma situação de guerrilha: a esposa e a filha as forças atacantes, ele o defensor, entrincheirado no que considera ser o bom ramerrão da vida doméstica.

À semelhança dos generais que não se limitam à estratégia, mas querem mandar em tudo, mal se viu casado o Alípio não esperou para estabelecer regras e horários, levando o cuidado a escrevê-los num caderninho. Além de assim garantir a disciplina, retirava à esposa a possibilidade de se desculpar que não sabia ou tinha esquecido.

Obcecado e autoritário, concebe mal que a Noémia desobedeça, enquanto ela, muito mulher nas manhas, finge, finta, e tem na Paula, filha única, uma rabiosa aliada.

Do futuro genro esperava ele, se não um aliado, pelo menos um sujeito capaz de solidariedade, mas o Júlio, de macho tem tão pouco que será milagre se dali vierem netos. De modo que vendo-se em minoria, e cercado de oponentes, um domingo ao almoço lançou-lhes o ultimato: ou aceitavam as suas regras, ou então...

Certo de que cederiam, nem tinha pensado numa alternativa, menos ainda que a réplica viesse da herdeira: - Ou então quê? Voltas pra Soraia? Olha que ninguém te vai sentir a falta!

O golpe foi tão certeiro que parece outro homem, e vive agora um inferno. Como é que sabiam? E se a brasileira não se ficar pelas ameaças que lhe tem feito?