Em 2021 foram vendidos na Holanda 43 milhões de livros,
com um valor de 647 milhões de euros.
Em 2021 foram vendidos na Holanda 43 milhões de livros,
com um valor de 647 milhões de euros.
Astuto, trabalhador incansável, nascido em família que há gerações, e muito bem, vive do comércio, o meu amigo diz do povo o que Mafoma não disse do toucinho, e aumenta a dose. O povo é mandrião, trafulha, ignaro, sorna, medroso, cobarde, vive para comer e fornicar, não tem espinha dorsal.
Horrores de Estaline, torturas de Mao, bairros de lata, fome e miséria, o povo merece tudo isso e mais. Culpa sua.
Com menos paixão nos argumentos, também eu tenho os meus cavalos de batalha, mas como me esforço por avaliar prós e contras, tornei-me incapaz de arrebatamentos, raro vou mais além do que franzir as sobrancelhas.
Não me agradaria que pudessem fazer de mim um retrato como o que pinto do meu amigo, mas tenho-lhe inveja, pois é muito o que me apeteceria desancar, pôr a nu a desfaçatez, a pulhice, o desdém pelo semelhante, a arrogância dos que se crêem com poder, os que julgam ter recebido do Alto, e em exclusivo, o que aos mais é negado.
Infelizmente, para minha frustração fico-me pelas palavras, que aliás ninguém ouve, porque as guardo para mim.
O que é compreensível, pois também sou do povo.
Foi legenda, e assim continua
na recordação dos que a conheceram nesse tempo. Um corpo formoso, pernas de
entontecer, e como não sofria de modéstia começou cedo a tirar proveito da
beleza.
Casou rica, divorciou-se, casou ainda mais rica, voltou a divorciar-se. No
dizer de um antigo amante conseguia transformar os seus gestos e movimentos em
momentos de arte, chegando – são dele as palavras e a estupefacção – " a essa
coisa extraordinária de, com as pernas, se exprimir numa verdadeira
linguagem."
- Falava com as pernas.
- Realmente, era como se falasse - respondeu ele, indiferente à minha ironia.
Vi-a hoje pela primeira vez, num beberete em que se festejava um aniversário.
Passa dos sessenta e infelizmente envelheceu sem amadurar. No corpo e no rosto
há vestígios da beldade que foi, a voz mantém um timbre melodioso, mas aquele
pestanejar e as boquinhas, que com certeza a tornavam atraente na juventude,
incomodam agora como um tique nervoso.
Quando a vi sentar-se os meus olhos seguiram curiosos as pernas que tinham
"falado", mas surpreso com a diminuta saia e os estragos da idade,
mandei-lhes que discretamente se retirassem.
Esta época de pandemia é cheia de bondades, boas intenções, amor do próximo, mas o sujeito não pode comigo, eu posso mal com ele, e como não nos conhecemos em pessoa, só da escrita, não vai ser à bruta, um caso de murros, esboço-lhe com palavras o retrato e assim não me vão doer os dedos.
Sabe de tudo. Muito. Pintura, política, relojoaria francesa, glaciares, motores Diesel, África, Médio Oriente, Lucas Cranach, gastronomia do Maghreb, Renascença, geografia da Indonésia, história da Ucrânia… um sem-fim.
Conhece você Magtymguly Pyragi, o clássico turquemenistanês do século XVIII? Nunca ouviu falar? Pois conhece-o ele, e não pergunte, que se arrisca a uma prelecção tão minuciosamente detalhada sobre esse venerando que vai sentir ouras.
É poeta. Publicou três romances que os amigos elogiaram. Não os procure, que não encontra, nem insista, porque, aconteceu-me a mim, o livreiro é capaz de desatar a rir, gozando que o enfatuado dono de tão espaventoso saber seja oco no verso e desenxabido na prosa.
Sabe de confeitaria, dos produtos Gucci, da Literatura de Cordel do Nordeste do Brasil, dos amantes da rainha Vitória, das ilhas Lofoten, de locomotivas do século XIX, do fabrico de porcelana, das doutrinas de Thomas à Kempis, dos costumes do Hawai. É, como se dizia antigamente num tom de respeito e assombro, enciclopédico.
Tudo verdade. O homem é de facto enciclopédico. Inteligente de sobra também. Poderia ser mesmo agradável não fosse a inveja que o corrói. Porque, fama alheia, boas palavras sobre alguém, êxito de amigo, vizinho, colega, ou desconhecido, logo ele empalidece de raiva e azedume.
Aquilo, creio, vem-lhe de família. Descendesse de gente de espírito por certo o apregoaria, mas prudentemente cala que entre os seus é o primeiro sem loja aberta. E é, creio eu, essa herança de lojista que lhe torna a vida um inferno.
Homem do balcão conhece apenas duas molas: a do lucro e a da inveja. Seja o que for, o que vai para os outros é-lhe de facto devido, é seu, não o recebe porque lho roubam.
A defunta Madre Teresa, o Papa Francisco, o sempre bem disposto Dalai-Lama, o senhor António da garagem, você, o seu vizinho do terceiro, eu próprio - todos temos maus hábitos. Uns mais do que outros, alguns até ao exagero, e esses são os que se apressam a apontar o dedo.
Entre os meus, na verdade poucos, dizem-me que um dos que mais irritam é o de que pareço incapaz de responder séria e laconicamente quando me contam um caso ou pedem uma opinião. Segundo os que me acusam, em vez de dizer sim ou não, começo por contar uma história que, na opinião deles, raro tem a ver com o assunto.
Dias atrás falava-se de um casal desavindo e dos argumentos com que cada um procurava demonstrar a sua razão. Quando quiseram saber de mim o que decidiria, eu, mau Salomão, repliquei com a história que, em casos semelhantes, é a minha favorita.
Foi em Roma, na era de César. Um poderoso, rico e muito elegante senador convidou os seus melhores amigos para jantar. Antes, porém, de fazerem as abluções e passarem ao triclinium – a sala de jantar com os clássicos três leitos - não querendo perturbar os convivas durante a refeição, anunciou logo ali que se ia divorciar.
Pasmo geral. Como podia acontecer semelhante coisa? Então não era a sua esposa uma das mulheres mais ilustres do Império? Das mais inteligentes? Haveria outra que a igualasse em beleza ou elegância? Tinha ele entontecido?
O senador ouviu-os em silêncio. Finalmente, chamando um escravo, ordenou que lhe desapertasse uma sandália e, com um gesto teatral, mostrou-a aos amigos, pedindo que lhe dissessem o que pensavam dela. E eles que sim, claro, não havia sandália mais elegante, de cabedal mais fino, melhor forma ou mais belos enfeites.
- De facto, meus amigos, de facto! Bela. Bonita. Nova. De excelente qualidade. Mas digam, onde é que ela me magoa?