quarta-feira, novembro 24

Se Portugal fosse pessoa

 

 

Meu caro Portugal,

Dizem-me que mais uma vez está você em maus lençóis, mas essa é, creio eu a opinião dos que o conhecem mal a sua História. Tanto quanto sei, e para falar apenas da experiência dos meus quase oitenta anos, você raro esteve em bons.

Recorda o que lhe aconteceu depois dos Descobrimentos? Lembra-se do Volfrâmio? Tem presente como há vinte e poucos anos se deixou ir no vigário de que para ser feliz e rico bastava fazer-se pequenino e chupar as tetas da UE? Porque os gajos eram mesmo burros e você esperto sem igual?

Que fez com os milhares de milhões que lhe deram para que crescesse e melhorasse? Descanse, não vou esfregar sal nas feridas, mas para quê esses estádios, essas auto-estradas, as inúmeras e inúteis Casas da Cultura em terra de analfabetos? Não se envergonha do quarto miserável que em sua casa é o Nordeste transmontano?

Deram-lhe fortunas para aplicar no bem comum, gastou-as você, pobre novo-rico, em relógios de ouro, Mercedes, Jaguars, e reformas milionárias, esquecendo que um terço dos seus familiares não tem dinheiro para aquecer o lar no inverno, que são sem conta os miseráveis, os desesperados, os que sofrem porque ninguém lhes acode na doença e morrem sem amparo.

Entretanto, você, meu caro Portugal, dança no Rock in Rio, esbanja dinheiro que não é seu para se embasbacar com a Red Bull Air Race, gasta em férias exóticas o sustento dos seus filhos. Já alguma vez lhe passou pela cabeça que o que paga pelos almoços de gourmet em restaurantes chiques é tirado da boca dos seus?

E diga-me: que cara devo pôr quando aqui onde vivo, sabendo-me português, me apontam e se riem, me envergonham dizendo de si as verdades cruas? Já nem o comparam às repúblicas bananeiras, que essas são de longe, não pertencem à Europa, mas colocam-no numa categoria à parte, a dos trafulhas, (*) os que sabem que um dia virá em que inevitavelmente se descobre a trafulhice, o que pouco importa, porque lhes falta vergonha na cara e outros terão de pagar o desfalque.

Poupo-lhe o que me contam da sua Justiça, da suas autoridades, das quadrilhas e camarilhas que, fingindo governá-lo, lhe sugam o que tem e o que lhe emprestam.

Para mim, meu caro Portugal, e isso desde que nos conhecemos, você sempre foi uma dor. Mesmo naquele momento de euforia dos cravos não pude esquecer quem você é e como sempre se comporta. Quer acreditar que não dei vivas? Em coisa de meses já as quadrilhas e as camarilhas se deitavam ao bolo, deixando ao povo dois ossos: o da democracia e o da liberdade, ambos fraco sustento para quem tem fome.

Muitos anos passados, com um humor que escondia o pesar, sugeri que, para o salvar de si próprio, um consórcio de nações o comprasse e transformasse numa reserva. Mas nesta altura creio que ninguém o quererá, mesmo dado. Teremos de continuar a suportá-lo nós, seus maltratados e desprezados filhos, da mesma maneira que fazemos há séculos: mourejando no chão de pedras ou indo amargar em terra alheia.

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(*) The Garlic Belt (A Zona do Alho) em europês.

terça-feira, novembro 23

Falar da Pátria

 

Falar da Pátria? Criticar os governantes da Pátria? Os de agora, os anteriores e os futuros, porque escolhem quem tem lugar à manjedoura e esta sempre foi e será pequena?

Criticar a apatia e a inocência do cidadão, que não sonha com direitos, progresso, justiça, mas tem como anseio maior uma boa reforma? E cedinho, se faz favor, com anos que contem a dobrar?

Falas nada adiantam, e as críticas são efectivas se por detrás delas há uma força colectiva, uma vontade de agir que exceda a conversa no café ou o palavreado da televisão.

Infelizmente esta nossa Pátria – nós todos, você e eu - é das que espera. Espera redenção, melhores dias, um futuro de bons almoços e que se realize a sério aquela promessa do sol a brilhar para todos nós. Brilhou, sim senhor, três décadas, mas só para alguns, os mais contentaram-se com o brilho do cartão de crédito. Mas pouco importa.  Se o homem do fraque perdoa aos outros, também nos perdoará. E não é vergonha ter dívidas, vergonha é não ter um Audi topo de gama, não vestir Armani, ir à Madeira em vez das Maldivas.

 

segunda-feira, novembro 22

A prisão nova

 

 

Nesta história verdadeira a cidadezinh de L., noo Norte, tem tudo o que se espera que uma cidadezinha de romance tenha: uma praça da República, onde nas noites quentes se passeia para trás e para diante; um rio sereno; ao longo desse rio um grande jardim, quase um parque; uma praia imensa; um monte com um lindo panorama; uma paisagem onde o verde das árvores e o azul das águas se combinam em harmonia.

Em 47, talvez 48, L. tinha-se enriquecido com dois estabelecimentos – o liceu e a prisão – edifícios cujas linhas rectangulares e severas destoavam singularmente com a arquitectura dos palácios Renascença que lá havia, as janelas de estilo manuelino e o casario do século passado enfeitado de varandas frágeis.

No liceu, que separava estritamente os sexos, permitindo embora que por cima de uma cerca os rapazes espreitassem os jogos das raparigas, o professor de Canto Coral fundara uma «comissão de festas e obras de caridade» que, talvez por ser mista, possuía um excessivo número de membros.

Festas só havia duas a organizar: a do 1.º de Dezembro e a do fim do ano lectivo. A caridade, porém, era semanal, tinha horário, programa, incluía aos sábados a entrega de víveres a uns quantos pobres e, a terminar, a visita à prisão.

Na prisão, todavia, só um preso tinha direito a ser por nós visitado e o extraordinário é que esse preso, o senhor Almeida, nos vinha esperar ao portão. Ele próprio abria e fechava os corredores por onde passávamos, sorridente, caminhando adiante para mostrar o caminho, até que por fim chegávamos ao seu quarto. Não à sua cela, mas ao seu quarto, um aposento de paredes brancas, sóbrio, onde a luz entrava por duas janelas enormes. – Na prisão todas as janelas têm de ter grades, mesmo as do gabinete do director – explicava ele, quando alguém aludia aos varões.

O senhor Almeida tinha o chá à nossa espera, as raparigas desembrulhavam os pastéis, nós púnhamos sobre a mesa os livros e as revistas, alguns jornais. A tarde passava depressa, aproveitando-se a ocasião para um namoro que fora dali seria proibido, ou então escutando o senhor Almeida que nos contava a história de L., cidade que ele conhecia na ponta dos dedos.

Não somente por lá ter nascido, mas porque a sua famí[1]lia, outrora poderosa e rica, tratara em pé de igualdade com os Távoras e os Braganças. Era o seu hobby.

– Ainda ontem – dizia ele – ao passar atrás da estação reparei que no palacete dos condes de F. andam a renovar as janelas e já limparam o brasão.

O senhor Almeida era realmente um preso fora do comum que, além de trazer num molho que lhe pendia do cinto as chaves da prisão, adregávamos encontrar passeando na rua. Discreto, é certo. Nunca entrando nos cafés. Misterioso nos seus vaivéns. Um preso em «liberdade», o que nos levou a pensar que a nossa visita pontual dos sábados talvez fosse para ele um incómodo, que assim o obrigávamos a esperar na prisão para desempenhar o seu papel de «preso».

Quando lho perguntámos, garantiu que não:

 – De facto tenho liberdades. Felizmente. As pessoas têm sido muito boas comigo. O senhor doutor juiz, o senhor director, o senhor presidente da Câmara. Toda a gente. A falar verdade, toda a gente. Sem excepção. A senhora marquesa de T., os filhos do senhor barão. Todos. Muito gentis, muito amigos.

 Bebíamos o chá, comíamos os pastéis, e antes de se fazer escuro regressávamos pelos corredores que ele abria e fechava, dando aqui e além com a sombra furtiva dos guardas que o cumprimentavam, descobrindo por vezes atrás das grades um preso verdadeiro.

O senhor Almeida finalmente abria o portão que dava para a rua e depois de nos cumprimentar com gravidade eserava que desaparecêssemos na esquina, fazendo um último aceno.

O seu caso tinha acontecido três anos antes, mas a ver[1]dadeira desgraça começara uma noite, durante a Guerra Mun[1]dial, num baile que o marquês de T. dera para comemorar a entrada dos alemães em Paris e o retorno da civilização.

O senhor Almeida, nessa altura rapaz de vinte e poucos anos, único amparo da mãe, pobre, mas de excelente parentesco, tinha sido pessoalmente convidado pelo marquês que, bêbedo como sempre, lhe gritara que tratasse de se casar, raparigas não faltavam, no baile não ficasse pelos cantos, bisonho e macambúzio, como era o seu mau costume.

– Atira-te, homem! Dá-lhes beliscões no cu, que é do que elas gostam!

Ele gaguejou que sim e, corando, saiu às arrecuas, menos por cortesia do que a recear que o marquês, dado a violências inesperadas, lhe atirasse o copo à cabeça.

O baile deixou fama. Anos depois tinha-se tornado lenda, contavam que fora o último com grandeza, verdadeiro marco a assinalar o fim de uma época em que ainda havia gente capaz de saber como se gastava dinheiro. Só a orquestra, contratada em Espanha, custara mais de cem contos. De  champanhe tinham sido vinte contos. De comidas outros vinte. E assim por diante. Nesse mesmo baile o filho do barão de S. tinha-se imortalizado de ridículo, ao declarar à filha de um «brasileiro» dono de fábricas: «Manuela, os seus olhos frutificam-me.» E a filha do doutor G., médico estimado, descoberta a beijar sofregamente a cozinheira do marquês, fora remetida, primeiro para o hospital, a curar-se das pancadas do pai, e na semana seguinte para um convento de freiras, donde nunca mais quisera sair.

O senhor Almeida, conhecido então por Bebé Almeida, seguira o conselho do marquês e, aproveitando um tango, declarara o seu amor a uma rapariga de rosto meigo, vagamente prima da família dos S.

O namoro foi muito calmo, muito feliz, visto com bons olhos por toda a gente. Algumas noites de Verão passeavam os dois na praça da República. Ou no jardim à beira-rio, evitando o escuro dos arbustos, onde às vezes se ouviam risinhos e sussurros. Iam modestamente à praia, aos domingos, acompanhados por uma criada que levava o cesto da merenda e tinha ordens para não se afastar demasiado deles. Já noivos, subiram uma tarde o monte para apreciar o panorama, mas perderam-se por entre as mimosas e aí lhes aconteceu o primeiro beijo, pelo menos o primeiro que, como ele depois confessou, o tinha deixado com o corpo todo a tremer.

 O director do banco aumentou-lhe o ordenado, atendendo «à sua nova situação, à sua conduta exemplar, e porque sempre o considerei um jovem digno do melhor futuro».

Casaram. Um lindo casamento com a noiva de branco e ramo de laranjeira, a igreja a abarrotar de gente, o marquês de padrinho, prendas a rodo, um jantar de cem convivas.

Foram felizes. No ano seguinte nasceu-lhes uma filha. Passeavam de mãos dadas e tinha-se notado a maneira terna como iam de braço dado à missa do domingo. No emprego fora promovido a chefe de secção. Na «Assembleia Arte e Harmonia» elegeram-no vice-presidente. Numa lotaria de Santo António saíram-lhe dez contos.

Começaram nessa altura os boatos, mas ninguém queria acreditar. Quando alguém dizia: «Vocês já ouviram que a mulher do Bebé parece que…», os outros abanavam a cabeça em negações furiosas, que era impossível, o que as más-línguas precisavam era que se lhes cosesse a boca com fio de saco.

O desenrolar do cenário foi tradicional: uma tarde, ao regressar ao trabalho depois do almoço, o senhor Almeida encontrou sobre a escrivaninha um bilhete anónimo. Nessa mesma noite, em vez de jantar no Galinha do Mar e ir depois para a Assembleia, como era seu hábito às quartas-feiras, escondeu-se num vão, pôde ver com os próprios olhos que o tenente Norberto lhe entrava em casa por volta das nove horas, para de lá sair quase à meia-noite, embrulhado numa capa, voltando-se para responder com um gesto apressado ao beijo que ela lhe soprava dentre os cortinados.

No julgamento o senhor Almeida tinha contado a sua raiva, o sentimento de se sentir traído, a agonia de não saber o que fazer, e no relato dos jornais da época lê-se que na sala do tribunal, nesse momento, a maioria dos olhos se marejou de lágrimas. Finalmente, com as poucas forças que lhe resta[1]vam, conseguira entrar em casa, ficando uma semana entre a vida e a morte, devorado por uma febre que não respondia aos medicamentos, nem à penicilina, que era então um remédio milagroso. Porém, nem mesmo quando o juiz insistiu mansamente, foi capaz de explicar donde lhe tinha vindo aquela ideia.

- De algum livro?

– Não sei dizer, senhor doutor juiz, saiba Vossa Excelência que nunca fui dado a más leituras. Só os nossos clássicos, o nosso Eça.

O advogado de acusação interpôs-se para comentar que nos romances de Eça havia suficiente imoralidade, vergonhas, até incestos, mas o juiz obrigou-o a calar-se.

Às quartas-feiras o senhor Almeida deixou de ir jantar ao Galinha do Mar, e se aparecia na Assembleia era de fugida, mas todas as manhãs, com uma regularidade de lunático «procedia à cópula com a adúltera» – expressão literal do advogado, que os jornais imprimiram com relevo – após o que deixava na mesinha de cabeceira uma nota de vinte escudos, «o preço que se paga às meretrizes».

Maria Emília chorou, suplicou-lhe que explicasse porque a tratava assim. No terceiro dia «tinha recusado proceder à cópula com o acusado, tendo este, segundo consta dos autos, recorrido à violência num momento de desvairo».

Foi a vez de ela adoecer, incapaz de suportar a tortura, quase louca com as notas que se amontoavam sobre a mesinha de cabeceira e que ele exigia que ali ficassem.

Na cidade sabia-se, murmurava-se com pena quando ele passava, tristonho e sem cumprimentar ninguém, que era uma vergonha que uma mulher pudesse manchar a honra de um rapaz tão querido de todos, modelo de bondade. Os colegas, discretamente, poupavam-no no trabalho, evitavam que diante dele houvesse zangas e atritos. A filha tinha sido mandada para casa da avó, e a criada, cúmplice no adultério, fora despedida no dia seguinte.

Maria Emília não se levantava da cama, ou então passava dias inteiros atrás da janela, olhando esgazeada para a rua, o que levou o doutor Pacheco, «como médico e como amigo», a exigir do senhor Almeida que fosse feito um diagnóstico.

A deposição do doutor Pacheco no tribunal foi outro momento de grande emoção. Homem de palavra fácil, soube descrever o interior do lar onde a tragédia assentara, o desalinho, o desleixo, o ambiente do quarto, as notas sobre a mesinha, a histeria com que a doente se apegara a ele. Tinha receitado um calmante, mas como Bebé Almeida, apático, parecia não compreender, ele próprio correra à farmácia a buscá-lo. Nessa mesma noite telefonou para o hospital a pedir que reservassem uma cama.

Aos soluços, a voz cortada pela emoção, o acusado caíra de joelhos diante da mesa do juiz, jurando que não sabia, não se lembrava, que a sua única ideia fora libertá-la do sofrimento e da desonra.

Na sala ouviu-se um irmão da falecida gritar «Assassino!», mas logo os guardas correram a segurá-lo, obrigando-o a sair.

– Não me recordo, senhor doutor juiz. Sei que dizem que a sufoquei.

– Corrija, se faz favor! Que a estrangulei! – berrou-lhe o advogado da família da morta. Condenaram-no a dez anos com atenuantes, mas pareceu um escândalo, uma injustiça. O próprio juiz, primo do marquês de T., arranjou que o internassem no hospital, porque seria uma vergonha mandá-lo para a cadeia velha, um prédio medieval onde nem havia celas e os presos viviam em promiscuidade.

A cadeia nova estava quase pronta, podia-se esperar. Aliás era preciso rever o processo, o advogado que apelasse sem demora da sentença, se fosse preciso ia-se até ao Supremo.

E assim, pouco a pouco, criara-se uma situação particular: ainda a cadeia nova não funcionava, já o senhor Almeida lá ia dar uma ajuda ao pessoal, pondo a administração em dia, passando autos a limpo, encarregando-se da tarefa monótona da contabilidade. Todas as noites recolhia ao hos[1]pital e todas as manhãs retornava à prisão.

 O hábito ficou. Quando com discursos e festa se inaugurou o prédio novo, o próprio director achou que o senhor Almeida não merecia a cela, mas um quarto. E como já tinha as chaves da cadeia quando lá ainda não havia presos, que as continuasse a ter, que entrasse e saísse quando quisesse, pois tinha dado mostras de não abusar.