quarta-feira, julho 28

Não têm perdão

Na minha idade, a morte próxima, tenho horas em que faço contas, revejo sonhos, listo aspirações. Em primeiro lugar o desejo de que a minha morte não seja súbita. Quero tempo para me despedir dos que amo, dos amigos que tenho, horas para recordar os que me fizeram bem, ensinaram caminhos e abriram horizontes.

Quero tempo para rememorar e agradecer a minha vida, que foi aventurosa, variada, rica de paixões, de fúrias, alegrias, negrumes, amores, alturas e precipícios, e que por vezes, como que fora de mim, iluminou o palco e me fez espectador privilegiado do espectáculo.

Quero horas para me despedir do pobre país em que vim ao mundo. Relembrar que o amei como se fosse gente, me senti menino acarinhado e feliz no seu regaço. Que dele aprendi a língua,  única no modo de embalo, aquela que para lá do sentido das palavras deixa entrever os mistérios da música e do eterno.

O país da suavidade, do desespero, dos sonhos infantis, das mãos pobres que um nada enche, do sofrimento envergonhado e amanhãs que nunca chegam.

Irei sem perdoar aos que o rebaixam.

terça-feira, julho 27

Sem futuro

 

Na minha idade não há futuro. Se me tornar excepção poderei viver ainda dez e chegar aos noventa ou, alcançando o século, tornar-me notícia de primeira página no boletim da paróquia.

Por isso conto apenas com o dia de hoje. Sem pessimismo nem optimismo, temperando os assomos, repelindo da memória as paixões que me mostraram como é o Inferno, repelindo também, mas docemente, as que abriram a frincha por onde apercebi o Paraíso.

Na medida em que o posso vou temperando os sentimentos, controlo as febres, esforço-me por evitar os picos de raiva e as funduras da decepção. Esforço-me, mas raro consigo, porque mesmo sem futuro tudo me obriga a ter consciência do mundo, a sofrer e a alegrar-me com ele. Ora de pé, sorrindo, logo depois sombrio, aos rebolões, temendo a queda.

Vivi em pleno, mas por mais de uma vez, testemunhando a tragédia alheia, fiz vénia, e disse também: "There, but for the grace of God, go I." Infelizmente, nem o que vivi ou aprendi me serve agora de amparo, pois já não tenho futuro onde  empregar o que ganhei de experiência, tão-pouco me abençoou a sabedoria. E assim vou indo, de longe a longe olhando para trás, surpreso cada vez que o dia nasce.

segunda-feira, julho 26

O estrelato

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Ó Deus de Misericórida, Senhor do Céu e da Terra, para que ma mandastes ontem ao fim da tarde! Que mal fiz para me obrigardes a aturar a compatriota tonta, ouvi-la a desfiar as suas imensas leituras, os livros que tem na mesinha de cabeceira à espera de vez, os tremores que lhe dão à ideia de que um dia destes vai começar  um livro de Cormac McCarthy:
- Você é capaz de nunca ter ouvido falar, porque é um moderno. Fenomenal. Todos os críticos lhe deram quatro estrelas, um até lhe deu cinco!
Não recorda o título, mas depois dirá. E enquanto desfia, fecham-se-me os ouvidos, vai-se-me o pensamento para o curioso funcionar deste nosso mundo onde os críticos literários dão estrelas e pontos de restauração à Michelin, fazem listas, debitam banalidades, esfregam-se mutuamente as costas, fingem que analisam e dissecam, que franzem o olho, mas nem sempre conseguem esconder o jeito que fazem aos compinchas e aos mais que têm na mão o queijo e a faca com que o dito se corta.
Quer ela agora saber se também gosto do Eggers e da Marguerite Yourcenar:
- Olhe que Mémoires d'Hadrien!...
Não sei que lhe diga, ponho-me a pensar naqueles "o Eggers", "a Marguerite", porque sempre me aflige a familiaridade bacoca. E de salto em salto lá vem outra questão perturbante, a de descobrir como é que os críticos arranjam tempo para ler tanto livro em cada semana, escrever cada semana longamente sobre tanto livro e, desafiando a ubiquidade antonina, participar ainda no singular corrupio de apresentações, debates, congressos, colóquios, programas, aberturas, eventos, feiras, sabe Deus que mais.
Ela canta as loas do… - o embaraço manda calar o nome – "Muito inteligente, muito lido, e tão culto!" – mas o que agora me ocupa, a pergunta que me faço é de saber que espécie de gente compra um livro só porque tem quatro estrelas. Que crítico digno da sua profissão se acriança a dar estrelas? Que gente é essa que produz listas de leituras em que a presunção tresanda? Para que o fazem? Que julgam provar?
Você, quando mais logo entrar na livraria, tenha tento: vire as costas às novidades, passe de largo pelos 10 mais, fuja das estrelas.

domingo, julho 25

É liberdade demais

 

- Com tanta liberdade hoje não se pode dizer nada!

O Cardoso olha em redor, mas dos que estão ali, bebendo os "finos" do costume, nenhum sente vontade de o contradizer, por experiência sabem que pouco é preciso para que se abespinhe e dá sempre zanga.

Vive certo e seguro da sua razão, do direito que tem de ser contra, não lhe venham com tretas de que pensa assim porque se criou em Angola, pois se se tivesse criado em Santa Maria das Aves sentiria e pensaria da mesma maneira. Por isso…

A experiência manda não reagir, só que no fundo, e não é por estarem todos a entrar na velhice, pouco importa que seja sobre política, os costumes, as novas ideias, a pandemia, e isso das raças ou do género, melhor é não ter o coração perto da boca, pois por pouco se criam inimigos, ganha-se má fama e vê-se a gente na esquadra ou no tribunal.

Há um ano ou dois as coisas não tinham chegado a este ponto, mas hoje em dia fingimos que é tudo paz e sossego, tudo bem, ao mesmo tempo andamos de pé atrás, porque em ninguém se pode confiar, mesmo nas famílias unidas acontecem desavenças por assuntos que ainda há pouco davam para rir, e agora são barris de pólvora.

De casos como o da nora do Almerindo até é melhor não falar, nada adianta ser a favor ou contra, a razão está sempre do outro lado, às vezes dá ideia de que as pessoas são assim de propósito, só pelo gosto de se mostrarem diferentes.

Uns diziam que a rapariga era de Timor, outros da Tailândia, mas ao certo ninguém sabia e ao Xavier não se perguntava, porque além de trombudo às vezes tem uma maneira de responder que deixa a gente de cara à banda.

- Seja donde for é escurinha – resmungou o Cardoso, uma tarde que estavam na esplanada e a rapariga ia a passar.

Ó palavra que disseste! O Amorim saltou da cadeira como se um lacrau o tivesse picado, o dedo quase a tocar o nariz do pobre, que de boca aberta  o encarava sobressaltado.

- Dizes isso outra vez e parto-te a cara, racista de mer….!

- Racista? Eu? – tartamudeava o Cardoso – Nunca fui!

- Ai não? O que tu julgas é que ainda estás em Angola!

Num gesto de paz o Moreira estendeu a canadiana a separá-los, resmungando que ninguém era racista, não se queriam zangas, estivessem sossegados.

Sobre o que aconteceu a seguir nenhuma opinião confere. Uns dizem que ao bater com a cabeça no passeio o Cardoso ali ficou, outros viram-no cair redondo quando a canadiana lhe tocou no peito. Ao certo ninguém sabe, mas concordam que quando havia menos liberdade  coisas destas não aconteciam.