segunda-feira, outubro 26

"Deixemo-nos de ilusões e de mezinhas"

Durante uns doze anos ou mais fui leitor fanático das "Seleções" e continuei a sê-lo quando era de bom tom desdenhar da revista que só interessava aos simples e às "camadas baixas", como algumas vezes ouvi a um ou outro intelectual. Seja como for, muito aprendi com essa leitura, e de vez em quando tenho a alegre surpresa de descobrir um exemplar desse tempo que foi de entusiasmo e descoberta.

Assim aconteceu hoje com este, onde encontrei um interessante artigo sobre o prosaico resfriado, e nele uma inesperada alínea sobre vacinas e vírus. Você desculpará, mas não lhe vou satisfazer a curiosidade, nem incentivar a preguiça. Leia e alegre-se de que já em 1948 havia médicos que sem papas na língua chamavam fraude ao que era e continua a ser fraude. 

                                                                                          

domingo, outubro 25

A praga do nome

De vez em quando vem um a perguntar se os pais o baptizaram Frank em homenagem a Frank Sinatra, aperto de que ele aprendeu a livrar-se com um sorriso e um encolher de ombros, deixando o outro na ilusão de que é essa a boa resposta e escondendo que durante uns três anos o seu nome foi na família razão de orgulho, mas a seguir um estigma que se apegara ao pai, o senhor Marcos, e mesmo depois do falecimento deste havia sempre alguém que não resistia a gracejar com o nome de Frank.

Dá-se o caso de que antes da Segunda Guerra Mundial já o senhor Marcos simpatizava com o nazismo, mas quando começou a negociar no volfrâmio e os alemães eram os seus melhores clientes, achou simpático dar ao recém-nascido um nome germânico. Quase certo que no Registo lhe mudariam o Adolf para Adolfo decidiu por Frank, mas em má hora o fez, porque com a derrota da Alemanha um nome assim era maldição, demorou vidas a que a coisa abrandasse, depois é que de longe a longe aparecia um ou outro a perguntar se tinha a ver com Sinatra.

Felizmente tudo passa e há muito que o seu nome deixou de ser um estorvo, ou pelo menos assim pensava, até que no café estavam a falar do Chega e o Abílio, que é da mesma geração, o apontou e disse que se havia ali alguém que simpatizava com o partido do Ventura de certeza era o Frank, porque ser da extrema-direita estava-lhe no sangue, já o pai tinha sido do Hitler e tão fanático que lhe pusera um nome alemão.

- Diz lá se não é verdade  – insistiu o "Perneta" apontando-lhe o dedo.

Sorriu e encolheu os ombros como de costume, não ia cair na esparrela nem entrar em discussões, de política sabe que de pais pra filhos são sempre os mesmos em volta da manjedoura, e se tivesse vontade de calar o "Perneta" lembrava-lhe as vezes que já mudara de partido. Mas não estava para se incomodar nem tinha vontade de discutir, menos ainda de se pôr a remexer o antigamente, ou lembrar o dia em que o pai entrou em casa numa gritaria e perdido do juízo quebrou o retrato do Hitler, meteu a tesoura na bandeira com a suástica, rasgou o que lá tinham guardado de propaganda alemã, por acaso até uma revista muito bonita, a "Signal", atirou tudo para o lume, disse-lhes que o primeiro que falasse a alguém naquilo levava uma carga de porrada que nem os ossos se lhe aproveitavam.

Tudo isso é do tempo dos afonsinos, como se dizia antigamente, ou devia ser, mas pelos jeitos em questões de raivas e políticas pouco ou nada muda, basta vê-los agora a acusá-lo de ser o que nunca foi.

sábado, outubro 24

Do Padre António Vieira


                                                                              (Clique) 

Excerpto da carta a D. Afonso VI - Leitura dos meus dezoito anos.

sexta-feira, outubro 23

Cantigas de embalar

"O Povo é quem mais ordena!" Que terá acontecido ao espírito badalado durante quase meio século? Já muito antes era treta, sempre foi, poeira nos olhos, entretém para crianças grandes e de espírito simples. O Povo português não manda nada, coisa nenhuma, nunca mandou, mesmo em sonhos não quer mandar. Até o assusta a ideia de que o obriguem a poder. Basta reparar na mansa prontidão com que se verga e aceita sem discutir, pedindo freio, esporas e chicote com ânsias de masoquismo. Em tremuras, esperançado, quase certo que se for de joelhos ou a arrastar-se pelo chão, quando a da Foice vestida de preto entrar na sua rua irá bater à porta do vizinho e lá se deixará ficar.

Esquecida está também aquela cantoria de embalar "O Povo unido jamais será vencido!", agora ainda mais tristemente pitoresca, pois tal como antes continua a ser cada um por si, união coisa nenhuma, se o vírus vier que apanhe aqueles que aponto e não dê por mim. Melhor é não pensar no futuro que nos espera, esquecer o que acontece quando se diz "desta água não beberei" e mesmo irmãos é cada um por si.

quinta-feira, outubro 22

Uma sociedade de bufos

"O pior da sociedade portuguesa começa a vir à superfície neste oitavo mês de pandemia: refiro-me ao inaceitável clima de delação, a pretexto do combate às infecções, que ameaça deteriorar as relações humanas, enquanto cada qual se encerra no seu casulo, desconfiando de tudo e todos. E nem a malha familiar está livre disto, quando já tivemos o Presidente da República advertindo contra os habituais reencontros natalícios, enquanto milhares de velhos vivem em efectiva reclusão dentro de supostos "lares" que se tornam antecâmaras de morte. Com os entes queridos mantidos à distância, como ontem o JPT nos relatava aqui, em texto de leitura obrigatória.

Inverte-se o ónus da prova, transforma-se em letra morta a garantia constitucional: todos somos culpados até prova em contrário. " Pedro Correia aqui.

 


Terá? Será?

(Clique)

Uma tarde de Junho passado vi-a pousar no tampo de vidro de uma mesa e fotografei. Agora que por acaso voltei a vê-la e ponho aqui, olho com outra curiosidade, perguntando-me se mesmo diminuta será um monstro. Terá inteligência? Sensibilidade? Memória? Fora o voar possuirá outras capacidades que nos faltam?

Será tão grande o meu vazio que me entretenho com isto?