sexta-feira, setembro 25

Um dia feliz

 

São raros, e por isso memoráveis, aqueles dias em que nada acontece de espectacular mas se dá neles uma sequência de pequenas coisas agradáveis, momentos serenos, gentilezas que têm connosco, um carinho inesperado, alguém que nos lembra uma recordação feliz.

O de hoje teve para mim o aborrecido começo de logo de manhã um furo na estrada – creio que o segundo em mais de dez anos - mas bastou um telefonema a um amigo que, qual São Cristóvão, patrono de quem anda nas estradas, não tardasse a aparecer, fizesse o que tinha de ser feito, e foi como se me deixasse à minha boa sorte, pois a partir desse momento repetiram-se as pequeninas coisas de que atrás falo.

Um cínico resmungará que o dia ainda vai a meio, talvez seja cedo para deitar foguetes, mas também se diz que mão de criança depressa fica cheia, e é assim que me sinto: feliz, surpreso de que pequeninos nadas tornem luminoso um dia que pelo furo e outras razões mais, se anunciava sombrio.

quinta-feira, setembro 24

A mansidão do rebanho

Este texto escrevi-o aqui em 24 de Abril, e dou-me agora conta que as ovelhas são ainda mais medrosas do que então pensava, estão mesmo a pedir um pastor e cães de guarda.

Eles assustam, mentem, manipulam, às falsas esperanças seguem-se as ameaças a sério, as multas, e a promessa de que a desobediência se paga caro põe todos os narizes para o mesmo lado, o rebanho obediente caminha atrás de pastores que num mundo menos torto seriam levados  à forca. Grande bênção o coronavírus, que anuncia o admirável mundo novo. Reze-se um padre-nosso de graças a George Orwell, que deixou o aviso, mas nada adiantou, porque as ovelhas não vêem, não ouvem, não compreendem, são cegas, mansas, medrosas, gostam de obedecer e de cacete no lombo.

quarta-feira, setembro 23

Uma questão de tinta

 




(Clique)
Muito acontece quando por acaso pego num livro esquecido e descubro que o li num tempo em que para mim tudo eram descobertas e sonhos, dizendo-me que talvez também a mim o destino levasse a ver as Arábias. Não levou, mas ao folhear agora "As Portas do Sul da Arábia", olhando as páginas recordei com saudade o falecido Theo Sontrop, meu amigo e o meu editor holandês, que se queixava um dia que, questão de preço, tinha de mandar imprimir na Índia ou na Checoslováquia os livros que editava, pois as tipografias poupavam na tinta e as letras já não eram pretas mas cinzentas. O que continua a acontecer, basta abrir os livros que agora se editam.

terça-feira, setembro 22

Um momento histórico

Assustem-se, invejem-me, também me podem denunciar à polícia sanitária, mas saibam que para mim e uns quantos amigos  a tarde de hoje teve um momento histórico: foi mesmo do coração: quando nos encontrámos esquecemos tudo e abraçámo-nos como antes do pesadelo. Que coisa boa o calor da amizade, que coisa ruim o quererem mandar em nós, fingindo que é para nosso bem e salvação do mundo. 

PS: Margarida Abreu no Observador, a voz do bom senso: aqui.