quarta-feira, maio 18
terça-feira, maio 17
Blogues e diários
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A sério ou não, o blogue para
mim é conversa, conversa imaginária. Fantasio interlocutores num café virtual,
suponho neles qualidades de sabedoria, cultura, inteligência, e uma atenção educada.
Resumindo: um passatempo inócuo, maneira
de me imaginar no mundo, participando sem agravos nem aborrecimentos, de facto
com mentalidade nada diferente da que, em criança, me levava a revolver os
cobertores da cama, fantasiando a imponência dos Alpes.
Um diário é outra coisa.
Entram nele dores e confissões, os momentos de paz, mas também as horas de
raiva, os desesperos da impotência de nada poder consertar do que está errado,
torto e retorcido, injusto. Para mim, escrever um diário fere mais do que
alivia, porque intento, sem que me poupe, deixar nele o mais que consigo atingir
de sinceridade no expor das minhas falhas.
Talvez pareça vislumbrar-se
aí algo de ascese e depuração, mas o que de facto lá deixo são dolorosos ajustes
de contas comigo mesmo. Fi-lo com Tempo
Contado (1994-1995) e, uma segunda vez com Pó, Cinza & Recordações (1999-2000).
Anteontem comecei o que
deve ser o último, pois por muito interessante. movimentada e surpreendente que
uma vida seja – a minha tem sido – chegam sempre os momentos de inevitável
fastio, o enfarte do déjà vu.
segunda-feira, maio 16
A farmacêutica e o lagarteiro
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É filha como poucas: a vida inteira dedicada aos pais e à farmácia que deles recebeu. Férias nunca teve, nem tempo livre, que o gasta todo no trabalho e no arranjo da quinta. Desde sempre, em Maio vão os três em romagem a Fátima.
Chegada aos cinquenta, nunca se lhe conheceu uma amizade,
namoro ou paixão, o que as más-línguas explicam dizendo que deve ser culpa da
postura desajeitada.
É verdade que os seus braços são como trancas, as pernas
dois cepos, e bem escanhoa o bigode, não adianta, mas se ao menos desse um
jeito ao cabelo em vez de gostar dele à escovinha, talvez ajudasse. Os pais
assustaram-se na ocasião em que o pintou de azul e verde. Acabasse com aquilo,
as pessoas eram capazes de não gostar e irem mais à farmácia do Magalhães.
Desde Fevereiro tem uma nova ajudante, a Glória, rapariga
meiga com quem se fecha no gabinete para, como explicou às outras funcionárias,
lhe ensinar o que ainda lhe falta de prática.
Em Março comprou o lagarteiro. O pai disse que era
esbanjamento, mais valia tratar com o Sebastião o trabalho da lavra, mas ela
insistiu e venceu. Sai com ele como quem vai a passeio pelas encostas. Gosta do
ronco do motor, e quando pega nas alavancas e os dentes do arado se cravam na
terra, sente como sua aquela força.
domingo, maio 15
Não há luz ao fim do túnel
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Ao inaugurar o túnel do Marão o Primeiro-Ministro cumpriu
o ritual e discursou, mas podia ter-nos poupado as frases sobre oportunidades
de desenvolvimento para Trás-os-Montes, novas estratégias, visões, impulsos à
descentralização, ir tornar-se a província "a frente avançada para a
afirmação da economia portuguesa no conjunto do mercado ibérico".
Dessas e doutras, bem soantes, cheias de promessas, já
nós transmontanos temos a barriga cheia, há séculos que as ouvimos, com os
resultados que conhecemos e estão à vista dos senhores políticos que deles
queiram dar conta.
E pode ser que se tenha calculado que "o PIB per capita da região é de 61% do da região do Grande Porto", mas a estatística é o que é, também neste caso uma entorse à realidade.
E pode ser que se tenha calculado que "o PIB per capita da região é de 61% do da região do Grande Porto", mas a estatística é o que é, também neste caso uma entorse à realidade.
Já agora, se o Primeiro-Ministro calhar de visita por
estas bandas, ou lhe apeteçam férias no antigamente, passado o túnel do Marão
rode na A4 até Pópulo. Continue para nordeste com o IC5, onde esporadicamente
cruzará outro carro. Meta depois por uma estrada secundária, não importa qual,
e não se atordoe ao olhar em redor: ainda é Portugal, mas parece outro mundo.
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Publicado no CM
quinta-feira, maio 12
terça-feira, maio 10
Rogar pragas
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Coisa que não se deve fazer é rogar pragas a quem as
merece, tão-pouco perder tempo a seguir o preceito cristão de perdoar aos que
nos ofenderam.
Melhor, e por experiência mais eficiente, é desejar do
fundo do coração ao ofensor um sem-fim de melhorias e benesses. Que lhe caibam os amores que nunca teve, viaje para onde
nunca foi, escreva os romances com que sonha, seja apreciado na sua e na terra
estranha, lide com quem vale a pena lidar, receba inesperadas provas de
respeito, carinho e de amizade.
Isso se lhe deve desejar, até em dobro, mas infelizmente
de nada adiantará: por muito de bom que recebe ou lhe aconteça, o invejoso
continuará ad aeternum a sufocar na
cobiça do que os outros são, do que lhes acontece, do que fazem, de como vivem.
O Senhor se compadeça e o alivie do sofrimento.
segunda-feira, maio 9
Vento
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Com o título "Gastos de energia" este texto é de Maio do ano passado. Repete-se agora, porque na vida é cansativamente muito o que se repete.
Gasta-se muita energia a esquecer, a fingir, a perdoar, a
manter a calma quando a vontade era o par de bofetadas, o desdém, virar as
costas, mudar de passeio. Gasta-se muita energia a manter a aparência de paz e
harmonia, a fechar os olhos e os ouvidos, a passar a esponja, a diminuir a
fúria ou a escondê-la, a fazer de conta que se compreende, que se aceita,
inventando desculpas, deitando mão de provérbios e sorrisos, explicações tolas,
das diferenças de idade, que os mais novos pensam diferente porque não viveram
aquilo, não estavam lá, falta-lhes experiência.
Assim fosse, mas assim não é. A estupidez, a arrogância,
a segurança dos juízos, a justeza do ideal, são de todas as idades. Como o é a
lamechice do amor aos pobrezinhos, aos injustiçados, aos famélicos da Terra; o
êxtase do folclore revolucionário, desde que sejam outros a sofrer e a morrer,
e a revolução não venha desarranjar o que tanto custou e tão agradável torna os
dias.
Gasta-se muita energia a viver num mundo de conformidade
em que, como alguém escreveu, "as pessoas constantemente se tocam e se
beijam, falam dos seus problemas como se assim pudessem descrever o mistério da
vida, ou negar o caos que ela é… um mundo em que, cada vez mais, o risco é
calculado e, na medida do possível eliminado, dando lugar a um mundo novo,
brando, no qual a visão do preparo de comida se torna mais emocionante do que a
leitura de um poema".
Gasta-se muita energia a tentar compreender, a aceitar a
riqueza da vida.
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