sábado, agosto 24

"Os Idiotas"

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Se Rui Ângelo Araújo necessitasse de um diploma, recebia de mim o da Periférica, a extraordinária revista que, com Fernando Gouveia e Carlos Chaves fundou na aldeia transmontana de Vilarelho, que El Pais consideraria como a melhor revista cultural portuguesa, e de que DN publicou o necrológio.
Dele já muitas vezes me atrevi a afirmar que é dos melhores analistas da sociedade e da política portuguesa. Infelizmente, do mesmo modo que tantos são atacados de vaidade, Rui Ângelo Araújo sofre de modéstia, não o ouviremos a dar gritos nem a distribuir insultos para que o notem e lhe abram as portas por onde há muito merece entrar.
Na literatura anda há uma vida. Há uma vida, também, conhece as respostas indiferentes dos editores ou o descaso puro e simples. A minha esperança é que este seu primeiro romance a ser editado tenha sucesso. Porque o merece, e a mim daria grande satisfação ver arreganhar os dentes aos respeitáveis editores  que faltaram à palavra e nem sequer uma vista de olhos deram ao manuscrito.
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A do japonês e a freira


Sempre gostei delas, ainda gosto, mas há tempos vi-me a pensar sobre as razões que num grupo, por vezes sem razão aparente, me levavam a contar uma anedota. Falo no passado, porque pus travão no hábito, desde que me apercebi que o impulso vinha menos do desejo de comunicar um chiste, fingindo agudeza do espírito, do que da necessidade de encher um tempo morto na conversa, ou desviar a atenção de um tópico que, por isto ou aquilo, parecia tornar-se melindroso.
Em muitas dessas ocasiões, porém, em vez de bóia de salvação, a anedota apresenta-se como perigoso instrumento. É desagradável constatar que este ou aquele conviva não está à altura da pointe, aqueloutro põe a nu o fraco intelecto, um terceiro reage perigosamente, contando por sua vez uma anedota que nada tem com o assunto. De morte é a boca aberta daqueles a quem o humor escapa, pior ainda a vacuidade de alguns sorrisos.
Depois, hoje em dia, começa você a contar e logo alguém lhe corta a palavra, porque já a leu na internet, conhece até uma versão melhorada, o que se queria um inocente entretém torna-se polémica, adeus boa disposição.
De modo que, inveterado, e uma ou outra vez desastrado contador  de anedotas que fui, hoje em dia remeto-me ao silêncio, e quando alguém anuncia que conhece uma mesmo boa, a do japonês e a freira que detestava peixe, fecho-me em copas. Corra ele o risco de divertir a companhia.

sexta-feira, agosto 23

Rive Gauche

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Podia ter-me acontecido, mas tive a sorte de que em determinado momento boa fada virou a roda do leme e fui noutra direcção. Porque também eu conheci a boémia dos quartos de hotel da Rive Gauche nos anos 50, quando brevemente se viveu a ilusão de que a liberdade tinha finalmente chegado e o mundo se ia compor.
A maioria salvou-se ou fugiu, uns quantos levaram a sério a ilusão e tornaram-se folclóricos, como Albert Cossery (1913-2008) - obrigado, Ana, por mo ter lembrado - que recordo sentado no Flore, imóvel que nem esfinge,  pose de grand seigneur, excelente escritor,  mas cravando amigos e conhecidos, seis décadas a viver num quartinho de hotel que, sim, são românticos quando há pouco nos rompeu a barba.
Trocou o Cairo por Paris aos trinta e dois anos, mas apenas escreveu sobre o seu povo, bizarria que com ele partilho, como se, mesmo longe, a alguns de nós seja impossível escapar ao enlace das raízes.
Os acontecimentos no Egipto levam a agora a que muitos, como antes fizeram com Naguib Mahfouz, procurem nos livros de Albert Crossery, na literatura, explicações para a violência e o desatino dos povos. É procurar em vão.
 

quinta-feira, agosto 22

Conversas e agrados

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Enganas-te, minha linda, não há conversas nem troca de confidências, partilhas no Facebook, nas caixas de comentários, nas salas ou nos quartos. Não há. Nem mesmo quando temos o outro ao nosso lado na cama ou no café. Palavra que não há.
De nada adianta pores cara feia, chamares-me cínico, velho azedo.
Um dia, mas será tarde, irás  descobrir que são tudo ânsias de parecer, convencer, demonstrar. O diálogo pode ter ares de conversação entre duas pessoas, mas é a aparente sintonia de dois monólogos, as palavras que saem da boca não são as que o cérebro forma, nem as que mais tarde lembram. Se reflectires verás que não disseste o que pensavas dizer, e transformaste o que te pareceu ouvir. Com boa razão intercalamos gestos e sorrisos, muitos sorrisos, naquilo que dizemos, pois não se vai à luta sem resguardo ou camuflagem. Porque tudo é luta, minha linda. Mesmo o que parece conversa.
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Na intimidade ou em público, amarrados ao imperioso desejo de agradar, não ferir, estar de acordo, nós, portugueses, mantemos estranhas e subservientes conversas. Deve ser a gota de sangue asiático que trouxemos das navegações

terça-feira, agosto 20

Elmore Leonard

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 Faleceu Elmore Leonard (1926-2013), um dos grandes da literatura americana.

Contagem


Ando a contar mortos. Não todos, alguns, como se tivesse chegado a hora de pôr a escrita em dia, rever momentos, ocasiões, ódios, questiúnculas. A altura de interrogar. Mesmo sabendo que é impossível descobrir o que então quiseram de mim, ou porque se atravessaram no caminho, o motivo da inimizade, das rasteiras, das armadilhas, da cortesia fingida, do falso carinho.
Digo nomes, vejo rostos. Quedam-se inexpressivos e silenciosos, imóveis, manequins em montra de loja, como se ao deixar a vida tivessem descartado o que foram e fizeram, o que sentiram, as molas que os empurravam.
Conto-os porque contaram, fizeram parte de mim, mas foram o que preferi não ser, deram os passos que recusei, em vez das ruas arejadas escolheram os becos e as vielas, a máscara, o esconso.
Surpreendo-me a recordá-los sem pesar, e vou-os arrumando, não como os viventes de carne e osso que foram, mas personagens da surpreendente ficção em que a vida se torna, aquela que nenhum escritor consegue escrever.

domingo, agosto 18

A família Salcede

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Ó Judite!
Ó Lorenzo!
Ó televisão!
Ó Dâmaso!
Ó país bacoco!

 

segunda-feira, agosto 12

Hostilidades

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 De momento ando aqui num duelo, mas "Volto já".

domingo, agosto 11

A modorra do Verão

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Para alguma coisa serve a modorra do Verão, quando o calor amolece o cérebro e os olhos param no trivial.
Assim, desde ontem, folheando os jornais, fiquei ao corrente de que San Diego nos Estados Unidos e Eindhoven na Holanda são, no mundo inteiro,  as cidades que mais autistas contam entre os seus habitantes; que o genial Einstein era autista e disléxico; que na China não há casos de dislexia, devido às línguas chinesas serem formadas por caracteres.
Que dentro em pouco os receptores de televisão terão a espessura e o tamanho de uma folha A4 e, como ela, será possível dobrá-los.
Finalmente, provando que nem os templos do saber escapam à maldade do mundo: as polícias europeias consideram a universidade de Bacau, no nordeste da Roménia, como a incubadora de hackers geniais, tornando os romenos campeões da criminalidade na internet.