sábado, fevereiro 16

O novo Saramago


Desgraçada coisa o marketing. Pela enésima vez leio que temos aí um novo, desta vez jovem Saramago. Mas quantos novos e jovens Saramagos apareceram já, mesmo quando o velho ainda vivia? Que será feito deles?
Pode bem acontecer que uns no silêncio das suas tebaidas preparem magna opera. Outros, agitando-se, causam burburinho, gritam e dançam, cantam, expõem-se, na febre  de manter vivo o brilho da marca que querem ser e da imagem que julgam dar.
Deus Nosso Senhor se apiede deles e de nós, porque com o andar das coisas: editores a falir, livrarias a fechar, o número de analfabetos a crescer, bem pode o marketing gritar que chegou o Saramago Redentor, mas daqui a nada poucos saberão quem Saramago foi, e a esses, que nas estantes têm o velho, faltará o dinheiro para comprar o juvenil.
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Retirada daqui, a imagem é de Paulo Araújo.

sexta-feira, fevereiro 15

Não te alegres

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"Não desesperes, um dos ladrões foi salvo. Não te alegres, um dos ladrões foi condenado". Santo Agostinho.

 

quinta-feira, fevereiro 14

As Padeiras

Pobre da nação que na sua História não tem, como nós, uma padeira de Aljubarrota. Da nossa  sei o que diz a lenda: mulher feia e pouco virtuosa, também um tanto cobarde, pois matou os sete espanhóis que no chão da sua cozinha fingiam dormir.
Os holandeses, que têm tudo, possuem igualmente uma "padeira de Aljubarrota": Kenau Simonsdochter Hasselaer (1526-1573). Essa, armada de lança e espada, lutou em 1572 e no ano seguinte contra os desgraçados espanhóis do Duque de Alba, matando (talvez) uns quantos. Também esta era feia, corpulenta e dada a criar inimizades.
Enfim, são histórias de que ninguém precisa, servem apenas para nos convencer de que somos melhores e mais fortes que o vizinho: espanhol, alemão ou outro.
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domingo, fevereiro 10

Manhã de domingo

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quinta-feira, fevereiro 7

Privilégio

O privilégio de começar o dia com leituras que fazem pensar: aqui

terça-feira, fevereiro 5

domingo, fevereiro 3

sábado, fevereiro 2

sexta-feira, fevereiro 1

O último

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quarta-feira, janeiro 30

Avôs e netos


Para todos é diferente, mas falo por mim, sei do que falo: o que mais pesa no que emigra não é a saudade, a receosa excitação do desconhecido, o largar de amarras.
O que mais pesa nele, e sentirá como quem se afoga, é o medo, o estranho medo que mais tarde, quando, por vezes, se julga a salvo e protegido, inesperadamente o toma: compreende mal a língua ou desconhece-a de todo, lê nos olhares e nos modos o que preferiria não descobrir, sente que involuntariamente se dobra, se esconde, torna pequeno, chora lágrimas que ficam dentro.
Tem horas de revolta, mas só mais tarde saberá que essas também lhas causa o medo, o medo em infindas versões: a de perder, de falhar, da vergonha, do desespero, da desigualdade, do insulto, do erro que lhe apontam e ele não compreende que cometeu, do modo que não tem, daquilo que dele esperam e não pode, não sabe dar.
Mudaram muito, e felizmente, os tempos. O António, o Miguel, o Fernando, a Isabel e a Georgina, que agora emigram, não o fazem como os avôs, de quem eu um dia escrevi:
" Vão a pé, como em todos os êxodos trágicos, morrem às dezenas nas águas do Bidassoa, entre a Espanha e a França; morrem de fome e de frio nas neves dos Pirinéus, onde alguns se metem sozinhos, na esperança de passar, outros abandonados pelos guias a quem tinha pago.
Aldeias inteiras esvaziam-se. Os homens partem noite escura, com medo das denúncias, alguns nem se despedindo dos familiares, levando na mão o pouco que lhes pertence. Às vezes em grupos de quinze, vinte, apalavrados com o engajador, no lado espanhol da fronteira são apanhados por um camião e, deitados no meio da carga, fazem a viagem até aos arredores de San Sebastián. Depois, a pé, atravessam os Pirinéus, e de novo um camião com fundo falso que os leva a Paris."
Paris! A segunda cidade de Portugal, mais de 600.000 portugueses entre os seus habitantes."
Esses jovens que aqui em Amsterdam encontro, vieram de avião ou de comboio, no carro de amigos, o seu futuro será outro, talvez menos duro, quiçá mais trágico, porque é maior e diferente a sua esperança.
Vejo-os e oiço-os no supermercado, nas lojas, nos cafés. Espio-os. Julgam-se a salvo e que ninguém lhes entende a língua.
"Olha prò filho da puta! Viste as mamas da gaja? Dás um empurrão ao velhote e ele espalha-se. Tanto pretinho, pá! Eu a julgar que estava na Holanda."
Não me dou a conhecer. Registo, não censuro. Os avôs não podiam, não sabiam falar assim, olhavam e calavam.
Os netos falam, ainda não sabem, julgam-se a salvo. Deus se compadeça na hora em que os tomar o medo.

terça-feira, janeiro 29

Nineteen Eighty-Four

Sou pouco ou nada de raridades bibliográficas, mas tenho certo carinho por este fac-simile do livro de George Orwell.
São duzentas e noventa páginas, umas dactilografadas outras manuscritas. Entre muitas outras coisas, recordam-me as dezenas de anos que escrevi assim e o trabalho infernal que eram as correcções.
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segunda-feira, janeiro 28

O mesmo tempo, o tempo de sempre



 
 "De um ponto de vista social, a emigração portuguesa constitui a manifestação de uma forma de escravatura que subsiste ainda hoje. De um ponto de vista ético, a emigração portuguesa significa a negação constante do direito mais elementar da pessoa: o direito à vida no próprio país. De um ponto de vista político, a emigração portuguesa supõe a renúncia à revolta".
in Portugal, a flor e a foice -  Novembro de 1975 - inédito em Português.

domingo, janeiro 27

Analogias

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Em conversa, entrevista, ou doutro modo, não lembro que jamais um colega português  tenha mencionado um dicionário analógico.
Que eu saiba, na nossa língua existe apenas um, o "Dicionário Analógico da Língua Portuguesa (Idéias Afins)", do brasileiro Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Possuo a 2ª edição, a de 1983, que desde então muito me tem ajudado e ensinado, confirmando também o verso de Carlos Drummond de Andrade:
"Lutar com palavras
É a luta mais vã.
Entanto lutamos
Mal rompe a manhã."
O igualmente inestimável "Roget's International Thesaurus" ajuda-me desde 1977. Será que os colegas calam, não usam, desconhecem estes instrumentos? Ou não precisam de aprender?
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sexta-feira, janeiro 25

Princesas


Era casado com uma daquelas loiras de quem se diz mal: grosseira, espalhafatosa nos modos e na fala, banha a mais, pintura a mais, ouro a mais, saia a menos, cabeça zero.
O divórcio saiu caro, mas diz que de boa vontade teria pago o dobro, a liberdade é um grande bem.
Para segundas núpcias foi buscar uma ao Suriname. Pretinha, redonda nas formas, avultada no altar, o traseiro empinado das altas cavalarias, beiços de Louis Armstrong a cantar What a Wonderful World.
Durou pouco. A sujeita tinha gostos bizarros, passava o dia na cama a ver televisão e a queixar-se da estranha gente, do frio, da neve, do pouco calor do Verão, do escuro do Inverno. Fazia refeições de M&M's e Coca-Cola. Soltava livremente uns fumos que, da primeira vez que o notou, quase tinha telefonado à Companhia do Gaz, a alertar que havia fuga.
Com esta a separação calhou baratucha, porque ela não estava ao corrente do que podia sugar e, nas suas bandas, também o ditado diz Kinderhand is gauw gevuld, o que trocado em miúdos vale por: "mão de criança com pouco se enche".
A actual encontrou-a o ano passado, quando esteve de férias na Nigéria, descobrindo que, à semelhança do que garantem mais de 60% das raparigas do país, era princesa. Um pouco como os russos no tempo dos Czares, que quando tinham uma vaca se intitulavam príncipes.
Por enquanto não tem queixas, mas aponta-lhe um mau hábito: sai à noite para dançar com gente da sua.
Contou-me isto quando fui visitá-lo ao hospital, onde está por ter quebrado uma perna a esquiar nos Apeninos. E diz que só ousa pedir-mo a mim, que sou amigo e vizinho, mas poderia eu, discretamente, dar uma olhadela às andanças da princesa?
Poderia, mas não estou em idade nem sou polícia. Fora isso, já a tenho visto  entrar no carro de um príncipe da sua tribo, sujeito de metro e noventa, aí à volta dos cento e vinte quilos, e umas manápulas…
Sosseguei-o. Disse-lhe que tenho a certeza que ela se comporta. Porém, mais certeza tenho que vai ser o terceiro divórcio, e a seguir um quarto casamento, porque diz ele que quem "comeu" princesa não quer outra carne.