quinta-feira, maio 10

O mundo ralha de tudo

É fábula popular, Guerra Junqueiro pô-la em verso, muitos dias há que imagino o velho, o rapaz e o burro, e chamo à memória que "O mundo ralha de tudo, tenha ou não tenha razão".
Tanta gente azeda por aí, quanto amargor e veneno a retorcer as bocas, doses grandes de inimizade gratuita a inchar os fígados. De Monção a Monchique, da ponta de Sagres às serras de Bragança, um refogar infindo de ódios, invejas, acusações e insultos.
Os blogues, que podem ser um quase ideal veículo para a partilha de ideias, emoções,  conhecimentos, são também, e muito, a versão moderna, cibernética, mas nem por isso menos fedorenta, da cloaca.
E quanta opinião. Quantas convicções absolutas. Tanto juiz de andar por casa a imaginar-se, solene, proferindo sentenças de morte em tribunais de verdade.

Isto escrevi-o de manhã, igualmente azedo e mal-humorado. Depois veio o almoço, copioso, conversa amena em boa companhia, copito de aguardente velha, mais um café.
Sentei-me então a reler, e disse comigo que nem tanto ao mar nem tanto à terra. Exagerei. Há que dar desconto ao semelhante e a nós próprios, todos temos horas, alturas menos felizes. De facto, são indispensáveis as cloacas, as fossas, os montes de estrume, mas ninguém nos obriga a pôr-lhes o nariz em cima. É passar de largo.

quarta-feira, maio 9

Janela para a Amazónia

(Clique para aumentar)
O recanto que anexei, e onde me agrada escrever, é a divisão em parte subterrânea onde antigamente ficava a adega. Tenho à minha volta os armários que foram da loiça, a cantareira, o velho escano. A cama da minha adolescência faz de sofá e nos dias de canícula convida à sesta.
Visita que aqui chegue nada sente, mas, mau grado o arranjo, para mim tem o cheiro a vinho e salmoura, vejo trigo por uma frincha da tulha, alqueires de madeira, aranhões, presuntos a secar nas traves, panelas ferrugentas, sachos, cordas, cajados, varas da azeitona, almotolias, cântaros de folha.
Os ruídos no andar de cima chegam abafados, indistintos, mas por vezes transforma-os a memória e oiço vozes da infância, aqui ao lado o estropear das mulas no chão da estrebaria, o barulho que fazem a roer centeio.
Como agora, já então nascia erva ao rés da janela gradeada, eu nos dias de chuva imaginava ali Amazónias com piranhas e onças, crocodilos, macacos, aves de rapina, plantas de nada cresciam à altura de palmeiras. Mas quando assim me deixava embalar, vinha sempre alguém puxar-me pelo braço, "Sai daí, que te molhas!", e eu afastava-me, tristonho, olhando para trás, magoado da indiferença com que faziam desaparecer o meu sonho.

terça-feira, maio 8

Nas nuvens do Facebook

(Clique para aumentar)
O primeiro impulso foi não reagir, mas disse comigo que a menina talvez não se aperceba  de que existem outros mundos, de modo que em vez de lhe responder pessoalmente faço-o aqui, pois disse que de vez em quando visita.
É compatriota, deve ter ao redor de vinte e poucos anos, estuda há dois numa universidade holandesa, diz que me quer encontrar para tomarmos um café e, cavaqueando, eu lhe explique os holandeses. Acrescenta o pedido de que lhe empreste o meu livro sobre os ditos, já que o não encontra na biblioteca da universidade.
Tudo isto encabeçado por um "José" que me deixou torto, avesso que sou a familiaridades com desconhecidos e sensível ao que implicam as diferenças, não só de idade.
Acalmando e reflectindo, levando em conta que a jovem tem bom modo e até deu a "Holanda" de Ramalho Ortigão a ler ao progenitor, resolvi não me agastar. Todavia, se quiser o meu livro terá de comprá-lo, e para conversas com jovens desconhecidas falta-me disposição.
Mas está perdoada. Provavelmente vive nas nuvens do Facebook, onde tudo são simpatias permanentes, familiaridades instantâneas, amizades ideais, e mal se dá conta de que cá em baixo há um mundo com outras regras, deveres, boas maneiras, e aquele respeito antigo de tratar por senhor os anciãos.

segunda-feira, maio 7

Problema


(Se gosta de gatos clique para aumentar)
Gata de vida airada, a mãe depositou-os esta manhã na soleira, e o problema agora é nosso.

Vernáculo

Ao jovem e simpático jornalista que me entrevistou, falei com a franqueza que me merece o interlocutor. Leio agora que, devido ao meu frequente uso de vernáculo, sente ele que vai ter dificuldade em editar a nossa conversa,. Assim será, pois talvez no mundo em que funciona seja de bom uso a linguagem elíptica e, para não ferir susceptibilidades, se evite chamar às coisas pelo seu nome.
Mas eu, que não tenho de dar contas, de ninguém dependo, quando falo aproxima-se-me o coração perigosamente perto da língua. De modo que se no comportamento o sujeito se mostra um filho da puta, é esse o predicado que de mim leva. Acho isto e aquilo uma merda, pois assim lhe chamo, sem ter de me encostar a Gil Vicente, Bocage, ou mais clássicos, apoiado tão só na língua que herdei, falo, me é muito querida pela subtileza que permite, de par com expressões que, para meu consolo e aborrecimento alheio, acertam no alvo.
Há que ter peso e medida, de mim ninguém ouvirá caralhadas, mas a harmonia na terra entre os homens de boa-vontade não se mantém à custa de falácias e rodriguinhos, sim com equilibrado decoro, lisura e, quando oportuno, um sonoro e vernáculo bordamerda.

sábado, maio 5

Entre aguaceiros

(Clique para aumentar)

sexta-feira, maio 4

"O Rebate" e as cinzas

Agora que de parte e outra chegam cumprimentos sobre o que foi o meu segundo romance, e para que quem começa na rota da escrita não desanime logo com as cinzas que lhe atiram, acho oportuno dar, mais uma vez, publicidade a este texto de Nelson de Matos, então assanhado crítico, mais tarde editor de nomeada.

(Clique para ler)

quinta-feira, abril 26

Intervalo

Nos dias a vir a barca fica atracada, porque o patrão vai a Lisboa, à Feira, e não sabe quando regressa.
Obrigado pela visita.

Do Porto e de Gaia

Do Porto, de Gaia, sobre medalhas, revoluções e arquitectura. Aqui e também aqui.

terça-feira, abril 24

O aloquete

 Por ter andado longe, as recordações que tenho da casa de minha avó Elisa e do meu avô Sapateiro ficaram pelos dezoito, dezanove anos.
Entrei lá quando meu pai faleceu, vai fazer três décadas, e desde então, como se lhe tivesse posto um cadeado, faltava-me coragem para rever o cenário de muitas vivências de menino e rapaz.
Esta tarde, porque era preciso dar um jeito à porta de entrada, a sair dos gonzos, torta, esburacada por mais de cem anos de canícula e frio de rachar, desandei a fechadura, mas demorou a arriscar-me para lá da soleira.
Ruina, podridão, bafios maléficos, teias de aranha em filmes de horror, paredes abauladas, telhas partidas, os degraus de pedra-lousa meio-desfeitos, carcomidos os de madeira, desengonçado o corrimão.
Essa vista de olhos pouco deve ter durado, pois num repente tudo rejuvenesceu, se compôs, voltou ao seu lugar, ganhou vida. O lume ardia em volta das panelas de três pés, o chão estava coberto de amêndoas, o fumeiro e os presuntos secavam em varas lá no alto, os cântaros ressudavam água, alguém deixara uma albarda junto do escano. A luz vinha de um candeeiro enfarruscado. Vi-me menino, correndo escada abaixo, a aprender quanto grão se deitava na manjedoura das mulas.
Ouvi o carpinteiro dizer para sairmos dali, não fosse cair algum barrote, e então, mal acordado, fui às arrecuas, despedi-me do sonho, repus o aloquete nas memórias da minha infância.

segunda-feira, abril 23

Abutres

(Clique para aumentar)
 Vai-se encosta abaixo, atravessa-se a ribeira a vau, tão escassa é a água, segue-se o carreiro que há séculos, talvez mesmo desde que começou a haver gente por aqui, levava ao resto do mundo. A coisa de dois quilómetros aparecem de ambos os lados umas fragas que já de pequeno me assustavam, e continuam a meter medo, disformes, gigantesca, a ameaçar  despenhar-se.
Olho com respeito e temor aquele cenário de ópera. Nunca ali deve ter subido alma cristã, sarracena, ou troglodita, tão-pouco se atreve nele a bicharada de quatro patas, que aquilo é a pique, no melhor  reino de cobras e lagartada.
Fui lá ontem, voltei hoje, sentei-me na borda do caminho, perguntando-me quantos  antepassados meus o terão pisado, indiferentes à majestade do sítio, o pensamento voltado para a luta do ganha-pão e as ameaças de doença e desgraça.
De muito alto veio descendo um abutre, depois outro, um terceiro, um bando a circular sobre as fragas. Fiquei a observá-los, tomado dum medo irracional, primitivo, ao recordar que vêm sempre de longe, chamados pelo cheiro de morte e podridão.
Assobiei ao cachorro. Voltámos ambos a casa a falar dos poucos coelhos, deitando de vez em quando uma olhadela aos abutres, agora simples pontos num céu de tormenta.

domingo, abril 22

O meu cinema


A aldeia é o meu cinema a preto-e-branco. Cenas, gente, momentos, sobrepõem-se à rua e às canelhas de agora, e não é miragem ou sonho, estado segundo. Chamo os defuntos e eles retomam a vida de então, oiço-os, espalham em redor os cheiros perdidos do estrume, do suor, do bedum e das cagalhetas. Gritam em vozes que reconheço e têm nome, acenam, dizem as palavras simples do dia-a-dia, descobrem-se respeitosos ao toque do sino, murmuram avés, pousam as mãos nas cabeças dos miúdos que pedem a bênção, desejam-se boa-noite e santa paz.
Passam burras com fachas de palha, cântaros de água, cargas de lenha. O fumo das lareiras escapa pela telha-vã. Uma mulher corre com uma pinha a arder, outra esconde sob o avental o frango que assou no forno. No muro do adro pousaram duas caixas de sardinha, donde escorre uma salmoura que pinga para o chão e fede.
Já se fez escuro. Passa um homem com um lampião pendurado numa vara. Ouve-se martelar no alpendre do ferreiro.

Estou sentado no pátio. Vi o filme três vezes.

sábado, abril 21

"Diário Dum Emigrante"

(Clique para aumentar)
Uma leitura dos meus dezassete anos. Anotei que não gostara. A minha consciência social refilou, aquilo era sobre gente de 1a classe, havia ali muita pouca-vergonha de ricos com mulheres casadas. Copiei da primeira página: " Novembro 3 - O Manel com um ar idiota, a olhar para o rancho da mulher e dos filhos e sem saber que lhes dizer. Novembro 5 - Hoje desci à terceira, a ver de perto a carneirada humilde que em rebanho se aglomera no poço da ré. Galegos, vindos da Corunha e de Vigo, minhotos embarcados em Leixões, saloios entrados em Lisboa."
Reli ontem e voltei a não gostar. Mas que raio de tempo aquele, e que curiosos personagens, tão actuais no comportamento e na mentalidade. Será que, no essencial, a burguesia portuguesa não muda?

sexta-feira, abril 20

Irei sem perdoar

Na minha idade, a morte próxima, tenho horas em que faço contas, revejo sonhos, listo aspirações. Em primeiro lugar o desejo de que a minha morte não seja súbita. Quero tempo para me despedir dos que amo, dos amigos que tenho, horas para recordar os que me fizeram bem, ensinaram caminhos e abriram horizontes.
Quero tempo para rememorar e agradecer a minha vida, aventurosa, variada, rica de paixões, de fúrias, alegrias, negrumes, amores, alturas e precipícios, e que por vezes, como que fora de mim, iluminou o palco e me fez espectador privilegiado do espectáculo.
Quero horas para me despedir do pobre país em que vim ao mundo. Relembrar que o amei como se fosse gente, me senti menino acarinhado e feliz no seu regaço. Que dele aprendi a língua,  única no modo de embalo, aquela que para lá do sentido das palavras deixa entrever os mistérios da música e do eterno.
O país da suavidade, do desespero, dos sonhos infantis, das mãos pobres que um nada enche, do sofrimento envergonhado e amanhãs que nunca chegam.
Irei sem perdoar aos que o rebaixam.

domingo, abril 15

O Rebate


Nas livrarias desde sexta-feira 13/04