terça-feira, julho 12

Soares


-  Angola! – levanta-se da cadeira e abre os braços a dar a medida – Ah! Angola! País?Aquilo não é país, é um continente, um mundo!
Começa assim e é melhor não sorrir nem contrapor, porque se zanga a sério, sobem-lhe as raivas antigas do que perdeu, as memórias dos bons momentos, a nostalgia do tempo em que era senhor e mandava.
- Mais de trezentos pretos! Milho! Café! Trazia aquilo num brinco. Mas preto para o trabalho não presta, sabem vocês para o que ele é bom? Mesmo bom? Cozinhar. Não sei o que o que os filhos da puta têm, mas de cozinha entendem. O meu, a gente chamava-lhe Botas, quando grelhava os leitões!... Qual Mealhada! Um coronel que lá esteve disse que nem em Paris!
- Não sei sem Paris se come leitão.
- Claro que come.
- O Botas! O gajo não provava a comida com colher, metia a mão na panela e chupava os dedos! Quando fazia...
De súbito volta-nos as costas.Constrange aquela dor sem remédio e fingimos não ver que tira o lenço para secar as lágrimas, finge ele que se assoa.
- O Soares! Se eu um dia apanhasse esse canalha!

segunda-feira, julho 11

Fodilhões

Desenterrámo-lo ontem ao almoço, já na sobremesa, um disse que a casa estava a precisar de telhado mas ninguém sabia do paradeiro da filha, que tinha vivido em Coimbra e anos depois desaparecera em Lisboa.
- Deve ter quê? Oitenta?
- Por aí.
Foi então que se recordou o senhor Valentim, o pai, um reformado azedo, com terras de seu, o jornal sempre debaixo do braço, em casa ou na rua o chapéu enterrado na cabeça.
- Tinha sido da Guarda.
- Usava uns óculos redondos, pequeninos, com aros de aço.
- Como os Beatles.
- Nesse tempo não havia Beatles.
- E bigode à maneira do Himmler.
- Quem era o Himmler?
- Deixa lá.
Continuámos a lembrança do sargento, que na meninice nos assustava com a tesura do modo, o olhar inquisitivo e a ameaça da bengala ao passarmos perto.
- A mulher também era fraco traste. Tratava a Adozinda como se fosse escrava ou preta da África.
- Pior.
- O Valentim emprenhou-a.
Como  os clichés se gastam não vou dizer que a revelação caiu como uma bomba, mas a surpresa foi grande, o silêncio demorado.
- Então a...?
- É filha, pois claro.
- Quem haveria de adivinhar que o gajo era fodilhão!
De nome em nome descobriram-se ali mais uns quantos insuspeitos bastardos do sargento, reviu-se a história das famílias, nossas e alheias, passou-se a esponja sobre os pecados dos falecidos. Mas qualquer coisa ficou, um incómodo, quando nos despedimos ninguém quis marcar data para o próximo almoço.

domingo, julho 10

Visita

Modo calmo, bom aspecto, excelentes maneiras . Seria um alerta se tivesse o ar desvairado que se espera do desequilíbrio ou da doença, mas quando alguém depois cita Nietzsche com conhecimento de causa, refere Heidegger e Sartre, trauteia uma passagem de Bach, recorda a energia da estatuária de Zadkine, e mais, muito mais, num  ritmo estonteante,  não se vê razão para manter o modo defensivo e a desconfiança que o visitante estranho causou.
Baixa-se a ponte levadiça. Trocam-se sorrisos e pontos de vista, ouve-se com atenção merecida a análise que faz da crise económica e de como nela influi a posição da Índia e da China.
Isto dura boa meia hora. Duas ou três vezes, um relâmpago, creio notar-lhe o que parece uma inquietude, um modo de súbita ausência.
Pouco a pouco o discurso vai acalmando, entra numa forma de intimidade, revela que por duas vezes esteve preso, acusado de homicídio, uma outra por chantagem. Que andou muito metido na droga. Que à nossa volta não é só a Maçonaria, não é só a Opus Dei, são inúmeras e secretíssimas as redes, as conspirações, os interesses apostados em terríveis mudanças da sociedade.
- Um dia destes, se tiver tempo, quero contar-lhe certas coisas. Garanto que dá um romance. Mais impressionante que O Código Da Vinci.
Como o vizinho chega para discutir a lista dos mordomos da festa de São Lourenço, aproveito a desculpa e despeço-me do estranho, que me aperta a mão e sussurra que voltará.
- Com documentos! Com provas!
Aceno que sim e vejo-o ir rua fora. Grande inquietude causa enfrentar a mistura de inteligência com o transtorno da mente.

sábado, julho 9

5 de Agosto

É bem verdadade que com mulheres nunca se sabe: Júlia manda dizer que me adiantei. Pelos jeitos o ter-me visitado anteontem foi carinho particular, pois só a partir de 5 de Agosto andará pelas livrarias a distribuir abraços.

quinta-feira, julho 7

Deixem-se abraçar

Daqui a nada a Júlia anda pelas livrarias. Aproveitem, deixem-se abraçar.

quarta-feira, julho 6

A dor


Dor, a verdadeira, a que magoa fundo, conta-se a poucos. Não precisam de ser íntimos, podem ser escolha de acaso ou mostrar empatia, estar presentes no momento de fraqueza em que pomos a nu o sofrimento.
Dor terrível, a que revela como somos impotentes, incapazes, inúteis, enleados nas palavras e nos actos. O que se diz da dor fica aquém. O que sobre ela versejam os poetas, mesmo os talentosos, deixa um travo, soa a fabrico, raro a pena sentida. Dor é tempestade e trevas, punhais embotados, males do Inferno, horas infindas, dia sem alvorada. E silêncio.
A dor conta-se a poucos, disse eu. Não é verdade. O que se conta é a versão cosmética, compreensível, dentro do aceitável. Dor verdadeira cala-se e esconde-se.

terça-feira, julho 5

Meio-dia

Pergunta ele, no tom de quem inesperadamente suspeita estar defronte de um deficiente mental:
- Mas é mesmo verdade? Não vê televisão?
- Não.
- Nem as notícias? A política?
- No restaurante apanho uma ou outra imagem, mas de facto não me interessa. O pouco que vejo não conta.
Aquilo desnorteia-o. Depois, zombeteiro, mostra que não me leva a sério:
- Toda a gente vê televisão!  O mundo inteiro vê!
- Eu também, mas mais por acaso. Não me interessa.
- Nem as telenovelas?
- Nem as telenovelas.
Procura outro ângulo:
- E documentários sobre a Natureza, os da bicharada?
- Não aprecio.
Acaba-se-lhe a paciência e vira para o desdenhoso:
- Então consigo é só livros?
- Claro que não.
- Olhe que nos livros há muita tolice.
- Pois há.

Como se termina uma conversa como esta, reproduzida aqui ipsis verbis? Aproveitando o  Avé no relógio da igreja e as badaladas do meio-dia.

segunda-feira, julho 4

Aquilo é comigo!

Como se sabe, as cartas que se rasgam são as que valeria a pena guardar, as histórias que se escondem dariam um romance de escrita mais despachada do que aquele em que, temendo ofender, o autor laboriosamente mistura realidade e ficção.
Dessas histórias tenho umas quantas, personagens interessantes abundam à minha volta, acontece apenas que raro encontro jeito de lhes disfarçar o aspecto, os tiques e as peripécias,  componentes indispensáveis para o enredo.
Se numa história ou cena para este blogue arrisco um traço de carácter, aponto um trejeito, um modo de pronúncia, uma bizarria de vestuário, pouco tarda a que alguém jure que aquilo tem a ver consigo. Por vezes com a arrevesada argumentação dos desequilibrados, mas também  gente em seu juízo afirma a sério que não pode ser coincidência, a coisa tem aspecto de afronta deliberada e malquerer.
De modo que, em vez de trabalhar como fazia antes de manter este blogue, agora tudo me são empecilhos e entraves, cheguei ao ponto em que em vez de ir com a prosa por diante e mandar a sensibilidade alheia às favas, perco tempo e feitio a passar em revista a galeria dos conhecidos, não vá por descuido pisar-lhes os calos.
E posso afirmá-lo por experiência: muito sensíveis,ou cheios de si, são certos calos.

sábado, julho 2

Paneleirices

- Nada feito! Se não gosto, não gosto, se quero dizer digo!
Mirandela. Três da tarde. Muito sol. Esplanada à beira-rio, cheia de gente nova e gente menos nova, sexagenários a mostrar que se aguentam, meninas cinquentonas, velhinhas de bengala. Tiques, atitudes e ademanes citadinos, mas imitação, daí irremediavelmente provincianos.
- Nada feito! Se não gosto, não gosto! – repete ele, quase num berro.
O barulho é muito, a correria dos putos entre as mesas um incómodo, o sorriso bovino dos jovens papás justificaria a rasteira. Algumas cabeças voltam-se para o nosso lado quando ele, zangado com aquilo, empurra uma cadeira contra a mesa vizinha.
- Meia dúzia como eu e isto mudava! Mas não há! Não muda!
O almoço pesado, bastante Calvados, depois três cafés, qualquer coisa o deve ter indisposto, excitando um temperamento que nunca foi dos mais calmos, mas raro vi assim.
Como se costuma dizer, conhecêssemo-nos há uma vida, e sem sermos amigos do peito temo-nos a simpatia que justifica um almoço de vez em quando.
- O que este país precisava…
Interrompe-se. Acende outro cigarro. O pé acelera o bater nervoso, o olhar turvo um mau prenúncio. A ver se despoleto a inesperada fúria, aponto o jerico que passa na ponte, mas a sua atenção tem outro alvo:
- Não aguento paneleirices! Estás a ver aquele dengoso? O jeitinho como ele tirou os óculos escuros e os pôs na cabeleira? A minha vontade era partir a cara ao filho da puta!
As anciãs fingem um trejeito de repulsa e susto, mas, brejeiras, acenam ambas que sim, que sim.
Digo que está na hora, dou-lhe o braço para que não cambaleie, mas não evito o seu último berro:
- Cambada de panascas!

quinta-feira, junho 30

Luto

Não há ali defunto, mas o ambiente, o postigo que mesmo no dia soalheiro pouca claridade  deixa entrar, as viúvas quatro vultos de luto, agachadas em banquinhos, silenciosas, perdidas no hábito de fitar a lareira apagada.
Não há ali defunto, e Trás-os-Montes não é a Andaluzia, mas na quase escuridão parece que  encenam uma daquelas fotografias com que Josef Koudelka e Edward West souberam mostrar a intensidade e o recolhimento da dor feminina nas terras do Sul.
Quem entra sente-se intruso, hesita em dar as boas-horas, sabe que o desespero fez mais do que torná-las surdas. Sente que o silêncio e os xailes em que se escondem da cabeça aos pés são uma forma de mortalha, um preparo de enterro.
Pousa o embrulho que trouxe e sai, fecha de mansinho a porta, põe as mãos em pala a livrar os olhos da força do Sol. Talvez, também, a proteger-se da visão que teve e quer apagar.

quarta-feira, junho 29

Despedidas


Não é que o deseje, mas mandam as circunstâncias: na idade a que cheguei o relógio acelera, o calendário deixa de ser o fiel instrumento da conta dos dias, ambos se desarranjam e nenhum Einstein explicará a avaria.
Com surpresa descobri que, inesperada e involuntariamente, me ando a despedir. Vou desapertando laços, esquecendo gente, diluindo entusiasmos, olho em volta com o sentimento irreal de, num papel absurdo, me descobrir figurante num espectáculo de sombras.
À primeira vista mal se nota, são fugidios os sinais, mas de facto já cá não estou por inteiro, parte de mim como que me sobrevoa, desligada, etérea, indiferente ao que acontece, talvez já naquele estado segundo que por vezes afecta os poetas e os monges.
Que ninguém se zangue com o meu desapego. Não é indiferença, desamor, cansaço ou desatino, apenas o fatal aproximar da meta em que, pelo menos por cá, tudo finda.

terça-feira, junho 28

Álvaro

Com toda a simpatia que merece, ao ministro que nesta terra de doutores, professores, professores doutores e outras excelências, quer ser tratado por Álvaro, digo eu que estamos mal parados se, ignorando os mores nacionais, aplicar à Economia igual ingenuidade.
É que a respeito da questão que levantou, nem ele imagina as possíveis consequências, pois no desejo de ser gentilmente familiar bem lhe pode acontecer que ponham em dúvida o seu doutoramento, pelas mesmas razões que alguns põem em dúvida a minha licenciatura.
Eu explico. Por vezes bate aqui gente à porta, perguntando se "o senhor doutor está". A minha mulher, holandesa de nascimento e modos, se lhe cabe atender responde conforme as circunstâncias, e umas vezes diz "o José saiu",  ou "vou chamar o  José", e assim por diante.
Parece normal e correcto? Pois, caro Álvaro, não é, e as chamadas almas simples estão longe de sê-lo, de modo que se criou nelas a suspeita de que a minha licenciatura nem será das passadas ao domingo, mas inexistente.
- A mulher também nunca fala de doutor! É só José. Se fosse doutor era doutor, chamavam-lhe doutor.
De facto, por exemplo no restaurante de Moncorvo onde frequentemente almoço, rodeado de senhores doutores e senhoras doutoras, a gentil proprietária e o mais pessoal tratam-me por "senhor Rentes" (senhor José seria um grau abaixo) o que se assemelha a uma curiosa discriminação ou se deve ao facto de que, como já opinaram, não tenho "cara de doutor".  E o caso é que, além de não querer ser "doutor", tenho de aceitar que nem todos os doutores são iguais,  alguns são mais doutores do que outros e, ainda por cima, há os que têm fato, gravata e cara de doutor.
Portanto, meu caro, como você, à semelhança do Professor Marcelo – tratamento topo de gama – nunca chegará a Professor Álvaro, avise-se comigo e traga no bolso umas fotocópias do doutoramento, não vá correr os risco de que, entrando no restaurante com os "doutores" da comitiva, o tratem por "senhor Santos".
……………….
A tolice das formas de tratamento na nossa sociedade sempre me incomodou  e já antes toquei no assunto: http://tempocontado.blogspot.com/2008/05/ol.html

segunda-feira, junho 27

Esquerda? Direita?

Esquerda? Direita? Já não há. Ideia romântica, essa, de que os que tinham iriam perder e os despojados iriam ganhar. Com pequenas voltas e grandes reviravoltas, migalhas aqui,  dez réis de subsídio além, os que têm pouco morrerão de fome mais lentamente, vão ganhando algum a argamassar  os muros dos condomínios onde os outros digerem e repousam.
Isto explica ele do alto do seu metro e oitenta, bucho condizente, cara de revolucionário façanhudo.
Veio do mais pobrezinho, aos oito entrou para as obras, foi ganhando, tem carrinha, esta tarde de domingo traça no café a situação do país:
- Não sou como os políticos, que só querem para eles. Isto tem de mudar!
Os outros,  toldados da cerveja, aguardam o anúncio. Sente-se o ambiente de um soviete em preparo. No meu canto, distraio-me a imaginar punhos erguidos, foices e martelos, as bandeiras vermelhas, os gritos de "Abaixo o Capital! Viva a Revolução!"
Entretido nisso não oiço o que vai mudar, mas noto o silêncio repentino. Entra o senhor Mateus. Empreiteiro, homem de muita "massa". Entra o filho, que lhe pede a chave do BMW.
O senhor Mateus oferece uma rodada. Falamos do calor que está, do desastre que vai ser com a falta de água, mas um lembra que a televisão deu chuva. Zombamos, descrentes do profeta, que diz agora, a voz empastada :
- O 25 de Abril mudou muita coisa!
Uns encolhem os ombros, outros riem sem razão, o senhor Mateus anuncia que vai precisar de gente.

domingo, junho 26

O meu caso


Bateram à porta. Três. Camisa branca, gravata, calça vincada, pasta debaixo do braço, chapéu de palha. Desejaram-me um bom dia e a paz do Senhor. Agradeci quase de mau modo,  expliquei o meu desinteresse pela oferta da religião, em porta-a-porta ou outra, menti-lhes que de momento me ocupava tarefa mais urgente que o conforto da alma. Insistiram eles. Insisti eu. Embirraram. Embirrei. Finalmente lá se despediram com vénia e bênção
Coisa de minutos chegaram três que, no aspecto e na untuosidade missionária, replicavam os colegas. Repetiu-se a cena.
Buzinou a carrinha do padeiro e fui-me a perguntar se tinha cozido broa. Não tinha. Voltei-me, eram seis as mulheres de idade vária a fazer cerco, desejando-me bom dia e a paz do Senhor, acenando com folhetos, sorridentes, a mais despachada a segurar-me pelo braço, impedindo a passagem.
Aí zanguei-me, mas contive a praga, elas mantiveram o sorriso e a unção.
Não quero ser salvo por seita ou igreja, palavra que não quero, e dispenso intermediários. O meu caso com Deus é assunto particular.

sábado, junho 25

Da estupidez e da literatura


" A estupidez é igualmente um facto epocal, assume formas e conteúdos segundo a estação histórica e por isso contagia e diz respeito a todos, e não apenas aos outros. O autor desdenhoso, que parece troçar indiscriminadamente de todos, na realidade não fere ninguém, porque se dirige ao seu leitor fazendo-o crer que é ele o único ser inteligente no meio de uma massa de brutos, dirige-se de facto à massa dos leitores. A técnica geralmente tem êxito, porque o leitor pode sentir-se solicitado por esta excepção que o autor, desdenhando os demais, abre no seu caso, sem dar conta que o mesmo autor procede de modo igual para com cada um dos seus demais leitores. Mas a verdadeira literatura não é a que lisonjeia quem lê, confirmando-o nos seus preconceitos e nas suas certezas, mas sim a literatura que o persegue e põe em dificuldade, que o obriga a refazer as suas contas com o mundo e com as suas certezas.
Não seria mau que quem tende a considerar   "semi-homens " os seus vizinhos, só pegasse na pena para escrever o seu autógrafo."

Claudio Magris, Danúbio, pág. 202.