sexta-feira, maio 20

Cafajeste


É todo sorrisos, jovialidade, a dez metros vem já com os braços no ar, pronto para o apertão de costelas e as palmadinhas reconfortantes. Apressado, sempre em urgências e aflições, a mãe outra vez no hospital, a filha que caiu do cavalo, o carro que agora enguiça sem mais e lhe custa rios de dinheiro.
- Tudo bem?
O interesse, os dentes a brilhar, o modo de papagaio cabeça torta a fingir que aguarda a resposta, tudo nele é falso, de mau plástico. Crava almoços, trafulha nas contas, casa que visite não se despede sem levar de empréstimo aquele livro que anda com tanta vontade de ler e ainda não teve ocasião de comprar. Adeus livro.
O não ser totalmente pulha aumenta o desagrado que provoca. De um sacana cem por cento protege-se a gente passando de largo, ou dizendo-lhe de caras para onde queremos que se mande. Mas este é viscoso, desliza sobre ele a ironia, não se lhe pega o insulto, aos pontapés  responde com mesuras.
Cavalheiro na aparência, pobre diabo no íntimo, cafajeste na realidade.

quinta-feira, maio 19

Notícias

Top 10 livros mais vendidos durante toda a Feira do Livro, Lisboa

1 – A Mentira Sagrada, Luís Miguel Rocha
2 – Livro, José Luís Peixoto
3 – La Coca, J. Rentes de Carvalho
4 – A Questão Finkler, Howard Jacobson
5 – A Marcha, Daniel Silva
6 – Comer, Orar, Amar, Elisabeth Gilbert
7 – O Símbolo Perdido, Dan Brown
8 – Amor e Chocolate, Dorothy Koomson
9 – Almanaque Bertrand
10 – Prontuário da Língua Portuguesa

Top 10 autores mais vendidos durante toda a Feira
1 – Daniel Silva
2 – José Luís Peixoto
3 – Luís Miguel Rocha
4 – Robert Muchamore
5 – J. Rentes de Carvalho
6 – Dorothy Koomson 
7 – Paulo Coelho 
8 – Ken Follett
9 – Dan Brown
10 – Luis Sepúlveda

quarta-feira, maio 18

Godot


Ontem a meio da tarde passei por uma esplanada. Olhares vagos, caras aborrecidas, corpos fatigados, conversa em sussurros, umas vinte pessoas em mesas de duas e três, a atitude de quem espera o improvável Godot.
Horas depois. Outra esplanada. Quase a mesma gente, o mesmo vazio no olhar, as caras mostrando igual aborrecimento, os corpos curvados num pouco mais de fadiga. De vez em quando uma frase, um murmúrio. Seguiam com os olhos um ou outro carro, um ou outro cão que, lentamente, ia do sol para a sombra.
Sentei-me. Alguém disse:
- Uma água.
O empregado, a mão apoiada à ombreira do café, pareceu despertar, veio com a água.
- Mais duas bicas – disse a mesma voz.
Leu nos meus lábios que lhe pedia cerveja, acenou um sim e, a passo arrastado, desapareceu no estabelecimento.
A carrinha fez mal a curva, galgou o passeio, duas vezes em marcha atrás lá se  endireitou.
Uma mão na bengala, o idoso sentou-se às arrecuas na escada do tribunal. O taxista acendeu um cigarro, sacudiu com um pano o pó do pára-brisas,  passou-o lentamente  pelos faróis e o cromado. Sacudiu, dobrou, curvou-se a guardá-lo, fechou cuidadoso a porta do carro.
- Vem aí trovoada!
A mulher sorriu-me ao dizer aquilo, concordei com um gesto, vi que se voltava para a amiga a segredar, ao mesmo tempo que lhe mostrava  qualquer coisa que tirara da carteira.
Bebi o resto da cerveja, levantei-me, fui-me dali com a impressão de deixar um palco onde se representava uma peça de melancolia e desespero.

segunda-feira, maio 16

Escorpião

Nem tudo é sempre feio, nem todos somos sempre maus, mas cruzamos de vez em quando com uns fdp que obrigam a revisar a benevolência que o semelhante nos deve merecer.
Dias atrás aparece-me um desses, sorridente, cumprimentador, também de certo modo ingénuo, ignorando que já outros do seu calibre  - abundam os escorpiões – tinham detalhado a diligência com que me prejudicou.
Vem de máscara afivelada, a do grande sorriso, todo ele boas maneiras, rapapés, mas com aquela bacidez do olhar que trai o que morde pela calada, o hipócrita ganancioso que julga seu, e roubado, o que de direito é do alheio; o infeliz que não concebe a existência da honra, da lealdade, da franqueza; o ser abjecto que julga os outros pela craveira da sua  indecência.
Havia gente à nossa volta, gente que depois me disse que, ao vê-lo vir direito a mim, jovial, mão estendida, julgava assistir a um encontro de amigos.
O que não viram, o que seguiu ao aceno com que com que notei a sua presença antes de lhe voltar as costas, foi o asco, o desprezo que, não estivesse num lugar público, me teria feito  vomitar.

domingo, maio 15

Acudam-lhe


Acudam-lhe. Julguei que fosse mentalidade ou cegueira de lacaio, subserviência de cão ao dono, mas só pode ser doença. Doença grave. Não daquelas que levam repentinamente à cova, antes das que minam lentamente o espírito, dando visões, e terminam no desvario total da cabeça e encerramento na cela dos furiosos.
Semelhante caso de idolatria raro se vê. Comparados com ele, os yes men que orbitam e ajoelham em redor do Chefe, o incensam, lhe acendem o cigarro, sorriem quando ele sorri, parecem crianças de infantário a agradar à menina que os guarda.
Aos seus olhos o Aldrabão-Mor nunca mente, nunca mentiu, jamais mentirá. Encarna a virtude e a justiça, o amor ao Povo – sim com maiúscula. Para ele este novo Grande Timoneiro é, em carne e osso, a certeza futura de dias felizes, do mágico sol que brilhará para todos nós e para sempre. Mandasse ele nas igrejas fazia-o santo sem passar por beato.
Apresenta-se ao lacaio uma evidência em contrário dos actos e factos do adorado? Cem evidências? Mil? Reage ele com um desdenhoso piparote dos dedos manicurados, e um ainda mais desdenhoso arreganhar dos beiços. Porque só verme recusa compreender as beneméritas intenções do Máximo, é preciso ser-se escória para desdenhar da grandeza dos seus planos, da argúcia que usa ao leme da caravela que, fôssemos melhores e mais agradecidos, há muito nos teria levado a bom porto.

É um caso e mete pena. Preferia que me fizesse zangar ou obrigasse a rir, mas não consigo.

sexta-feira, maio 13

Passagem


São poucas, e é preciso aprender a compreendê-las, as vantagens da muita idade. Uma delas, a maneira como nos revemos nos mais novos, revela-se um manancial de surpresas.
Tive eu este modo apressado, exigente que eles têm? Fui assim egoísta? Ri-me sem tino? Dei-me conta de que parecia ouvir, prestar atenção, quando era só fingimento, ocupado que estava com a sarabanda dos meus interesses? Pregava eu também ideias e certezas?
Revemo-nos nos jovens e muito se lhes perdoa, porque vão a caminho pela estrada por onde viemos. E assim nos perdoamos também a nós próprios, descobrindo que, afinal, tudo é quimera. Falamos de experiência, sabedoria, chamamos vida à passagem entre duas incógnitas.