segunda-feira, março 14

Adeusinho


Alguma gente de quem sinceramente gostamos tem o condão de ser também a que melhor nos consegue irritar. Por que será? Provavelmente mete-se-lhes na cabeça que o afecto tudo desculpa, os calos alheios são pouco sensíveis, a miopia boa razão para ignorar o risco que pisam.
Às vezes parece aquilo um medir de forças, um ridículo espicaçar, mas a criancice nem sempre cai bem. E a paciência pode ser grande, mas tem limites, é corda que por pouco rebenta.
De modo que, à força de desagrados e empurrões, vamos descobrindo que não somos como eles querem, nem eles os adultos que se julgam.

domingo, março 13

Feliz acaso

Por feliz acaso encontrei este texto nos comentários aqui. Boa leitura para depois da manifestação. (*)

"Era no tempo em que, no palácio das Necessidades, ainda havia ocasião para longas conversas.
Um jovem diplomata, em diálogo com um colega mais velho, revelava o seu inconformismo. A situação económica do país era complexa, os índices nacionais de crescimento e bem-estar, se bem que em progressão, revelavam uma distância, ainda significativa, face aos dos nossos parceiros. Olhando retrospectivamente, tudo parecia indicar que uma qualquer “sina” nos condenava a esta permanente “décalage”. E, contudo, olhando para o nosso passado, Portugal “partira” bem:
- Francamente, senhor embaixador, devo confessar que não percebo o que correu mal na nossa história. Como é possível que nós, um povo que descende das gerações de portugueses que “deram novos mundos ao mundo”, que criaram o Brasil, que viajaram pela África e pela Índia, que foram até ao Japão e a lugares bem mais longínquos, que deixaram uma língua e traços de cultura que ainda hoje sobrevivem e são lembrados com admiração, como é possível que hoje sejamos o mais pobre país da Europa ocidental.
O embaixador sorriu, benévolo e sábio, ao responder ao seu jovem colaborador:
- Meu caro, você está muito enganado. Nós não descendemos dessa gente aventureira, que teve a audácia e a coragem de partir pelo mundo, nas caravelas, que fez uma obra notável, de rasgo e ambição.
- Não descendemos? – reagiu, perplexo, o jovem diplomata – Então de quem descendemos nós?
- Nós descendemos dos que ficaram por aqui."
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(*) Há sempre uns coitados que, por falta de roupa que lhes sirva, vestem a alheia. Avisam-me que o sujeito que proporcionou este "Feliz acaso" foi roubá-lo aqui: http://duas-ou-tres.blogspot.com/2011/02/navegacoes.html

Assim não ides lá

É patetice discutir números. Enojam os lacaios, que fazem beicinho, dizendo que era pouca a gente onde havia multidão. Mas incomodaram-me os pulinhos alegres, porque aquilo não era concerto dos Rolling Stones. Afligiu-me a "alentejana" do acordeão, e também a do tambor, a certa altura temi que aparecesse outra com ferrinhos. Vi folclore, onde esperava indignação, queixinhas em vez de exigências, passeata onde se impunha a marcha.
Terá sido um princípio, dizem uns, uma tomada de consciência. Seria bom que assim fosse, mas com música e moleza não se vai a parte nenhuma. Dançar o malhão não é o mesmo que com ele malhar no ferro.

sábado, março 12

A Corja

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Nos últimos tempos da monarquia os republicanos acenavam ao Zé Povinho com a promessa de que, para que tudo melhorasse, bastaria "matar o rei e pôr o bacalhau a pataco".
Este nosso tempo não é de mortes, e o bacalhau, se vier, há-de ser por esmola. Por isso, e porque ela por si só não sairá, com votos ou com gritos é urgente pôr na rua a corja que suga Portugal e o rebaixa ao nível de república bananeira.
Não irão faltar sacrifícios, mas suportam-se melhor quando pesam a todos por igual.

sexta-feira, março 11

Mau(s) tempo(s)


De amanhã até segunda, a meteorologia anuncia mau tempo em Portugal. Quase leva a crer que Deus se mete de permeio, mandando chuva para impedir que a geração à rasca saia à rua com o seu protesto. Mais provável, contudo, é que Ele esteja, como de costume, a escrever direito por linhas tortas: dá aos senhores do poder a esperança de que a juventude ficará na cama, mas à hora apalavrada abre o céu com um raio de sol.
Eu, que sou de crenças, acenderei velas ao Santo António que temos cá em casa.

quinta-feira, março 10

O pesadelo do papá

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Há coisa de uma semana que o papá do João passa mal e diz, sombrio, "de noite não prego olho". A esposa não quer que se preocupe, porque não há de quê, pois é sempre assim, as coisas passam. A situação pode estar má, mas graças a Deus têm o dinheirinho a bom recato, cuide ele da saúde, que esse é o grande bem.
Tudo por causa da manifestação, quando o rapaz anunciou que no sábado irá com os amigos. Não se mostrou a favor nem contra, mas no ministério vão saber, os camaradas do partido vão saber, e bem se poderá justificar dizendo que o filho é maior, vacinado, perto dos trinta, mas nada impede as invejas nem satisfaz as más-línguas.
Perdeu o emprego, mas que lhe falta? Tem mesada, tem carro, namoradas, amigos… Bem gostaria de compreender, mas há coisas que escapam ao entendimento. Como é que o Facebook ou o Twitter  podem pôr tudo do avesso?
E depois há o que tinha lido numa entrevista, esquecera de quem, um sujeito a afirmar que a nossa sociedade é magrebina em mais de um aspecto, o que aconteceu na Tunísia e no Egipto bem pode acontecer aqui. Meia dúzia de garotos pega fogo ao rastilho e ninguém nos salva. Por isso não lhe venham com cantigas de que revoluções já não há, a Europa não deixa. Sábado é que se vai ver e o pesadelo é esse: hoje em dia a multidão nem precisa de armas.

quarta-feira, março 9

Reformados


 
Em vez de me aclarar a visão e o entendimento, a leitura de dois semanários, três jornais e uns  vinte e tal blogues, resulta num aumento do transtorno que me toma quando me esforço por compreender a sociedade portuguesa.
Nela tropeçam uns sobre os outros os que se dizem da direita, mas se orgulham de terem sido marxistas-leninistas, trostkystas, maoístas. Serão mesmo da direita? Outros foram ferrenhos da esquerda, continuam esquerdistas, dão graças por terem há muito recebido a luz. Mas de que esquerda são eles? Uns quantos juram que o remédio está no centro, onde tudo se resolve havendo paz e sossego.
No meio tempo, esses senhores e senhoras que supostamente formam a elite da nação, esgrimem ideias, discutem canções, petições, manifestações, queixam-se de tudo e mais alguma coisa, preocupam-se com a Líbia. Azedos, irascíveis, improdutivos como reformados.


terça-feira, março 8

Barca d'Alva

"Barca d'Alva, 4 de Agosto de 1968, domingo à tarde. O comboio da RENFE acaba de chegar. Locomotiva caduca, carruagens de madeira. Fumo de carvão, silvos, barulho de ferros, barulheira de gente. Carabineiros de tricórnio. Um mundo de portugueses que vêm de França, apinhados, mortos de sede, queimados do sol, presentes ricos em caixas de luxo, malas de cartão, guitarras que ninguém toca, crianças crescidas do leite que aqui não beberiam. Gritaria. Risos. Vivas. Acenos.
Deus ajude os que foram em busca de pão, fugindo da terra-mãe onde o padrasto atirou o património água abaixo. Em nome de quê? Da defesa da Fé, da Família, e dos padrões na costa de África.
De um lado meia dúzia de calhaus, dez milhões de almas do outro, mais os que no meio tempo morreram de fome."

segunda-feira, março 7

Chegou

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Por mais que se repita é sempre milagre. O autor semeou, lavrou, tem o nome na capa, mas das suas às do livreiro são muitas as mãos por que passa, antes que, livro feito, chegue às do leitor. Daí a demora.

domingo, março 6

Geração à rasca

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Menina da geração à rasca fotografada numa rua de Madrid, provavelmente a caminho de uma manifestação, mas sem pressa que se veja.

Citações


"Quando alguém conta uma mentira que nem a ti nem a outrem causa prejuízo, deixa que o teu coração diga que a casa dos feitos desse alguém é pequena demais para a sua imaginação, e ele, para se dar espaço, tem de abandoná-la  de vez em quando".
Kahlil Gibran (1883-1931)
……………
"In view of the fact that God limited the intelligence of man, it seems unfair that he did not limit his stupidity."
A.Schlesinger, citando o chanceler Konrad Adenauer, in Kennedy - a thousand days.
……………
"My mouth is full of decayed teeth and may soul of decayed ambitions."
in Letters of James Joyce – edited by Richard Ellmann.
…………...
"He was not afraid of himself, but was quite consciously afraid of society, which he knew by instinct to be a malevolent, partly insane beast".
D.H. Lawrence, in Lady Chaterley's lover.

sábado, março 5

O homem sem dinheiro

Vivemos em tempo de pobreza, mas o ladrão e o trafulha são, mais que nunca, gente de respeito, reviraram a ordem da sociedade e são eles quem manda.
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"A cidade não deixa possibilidade de escape, cedo ou tarde sempre se arranja maneira de comer, onde morar, que vestir, amar, pensar, de viver cada um à sua maneira. E é na cidade que o ser mais desprezado, o mais infame, o mais ridículo, o mais suspeito, não é o malvado, nem o gangster, nem o polícia, nem o ladrão, nem o rufia, nem o proxeneta, nem a puta, nem o bufo, nem o traidor, nem o verdugo, mas o homem sem dinheiro. Ladrões e assassinos estão dentro da ordem. Participam da comunidade. Claro que são reprovados por não seguirem as regras, mas sobre o dinheiro não se fazem juízos. Não se discute o bezerro de ouro, sim a maneira de servi-lo.  Em relação aos ortodoxos o ladrão é um herético, não se perde a esperança de um dia o converter, de o reeducar. Há entre "o sujeito honesto" e o bandido uma espécie de guerra religiosa… Mas o homem sem dinheiro, o pobre, esse é o verdadeiro delinquente, associal e perigoso. Nada o pode salvar. Não é um irmão desencaminhado, é um selvagem."

Salvat Etchart (1924-1985) recebeu em 1967 o Prémio Renaudot pelo seu romance Le Monde tel qu'il est.


sexta-feira, março 4

A bomba da gasolina

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Poucos lugares em Portugal me causam a melancolia das bombas da gasolina.
A paisagem é diferente, o ambiente outro, uma onde com frequência me  abasteço leva a palma à do quadro de Hopper.
Cena de poucas variantes. No bar uma rapariga olha absorta a máquina do café. Homens encostados ao balcão. Um folheia o jornal. No tecto, por cima da têvê gigante, o brilho azulado da lâmpada mata-moscas. Um automático de cachorros-quentes, outro de barras de chocolate, gelados, o da Coca-Cola. Casais que vêm para a bica depois do almoço. Fizeram de carro o meio quilómetro que os separa de casa e saem com um ar fatigado de grande viagem. Batem as portas. Apagam os cigarros.
- Onde está o Gomes? – pergunta um tractorista.
A bomba dispara, mas a mulher espreme mais uns cêntimos. Finalmente recolhe a mangueira e, sem me encarar, diz que são quarenta e dois euros.


quinta-feira, março 3

Costeletas de porco com laranja

Perdidos de vista há muito, escondidos no desarranjo das estantes, trouxe-os à tona a busca de uma prosaica e antiga receita de costeletas de porco com laranja. São seis cadernos dos anos 60 e 70, quando me sobrava tempo para tomar notas, escrever à mão, e fingir de cozinheiro. Encontra-se lá de tudo.

quarta-feira, março 2

George Grosz (1893-1959)

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terça-feira, março 1

Kolkhozy

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Tenho, desde que me conheço, uma forte tendência para arranjar lenha com que me queimar. De vez em quando consigo reprimi-la, noutras alturas a própria vida acciona o travão, mas em certas ocasiões, quando reparo por onde me meti, já é tarde demais para arrepiar caminho.
Faço planos, uns mais desvairados que outros, mas todos com suficiente carga de irresponsabilidade que não se desculparia num jovem, quanto mais num geronte.
Eu, que no diário sou de grandes preguiças, nesses momentos aberrantes descubro-me envolto por um turbilhão de ideias que, iludo-me, concretizadas em actos, revolucionariam isto, melhorariam aquilo, trariam união onde há desavença, dariam esperança aos que desesperam, fariam sorrir os desconsolados, e mais, muito mais.
Vale-me que nunca soube, e é tarde para aprender, como se passa do sonho para a realidade, ou como, vencendo desaires, se leva por diante um plano. Por vezes, retomando consciência, eu próprio me assusto com as tolices que imagino, e alegro-me depois com o resquício de lucidez que me faz parar à borda do precipício.
Num desses acessos de paranóia ocorreu-me  há tempos que, havendo por aí tanta gente capaz na escrita, seria interessante uni-la num blogue e, à maneira dos lavradores dos kolkhozy da União Soviética semeando trigo, juntarmo-nos a escrever um grande romance colectivo.
Imaginam o resultado? As complicações que ia dar? As birras, os ciúmes, as invejas e os ódios que ia haver?
Bem é que a preguiça e o desleixo continuem a ser o meu forte.

segunda-feira, fevereiro 28

Pequenos gestos

Éramos sete ou oito no terraço do hotel e creio que ninguém reparou quando, com familiaridade de amante, ele lhe pousou a mão no joelho, e ela, o sobrolho franzido, lha sacudiu com um gesto brusco.
Talvez fosse incómodo que sentia, desavença pequena, uma daquelas irritações momentâneas que logo esquecem, mas para casal em vésperas de casamento achei de mau agouro.
Isto foi há-de haver seis anos. Vieram os filhos, uma rapariga e um rapaz e, na aparência, a sua vida era como a de tantos outros da mesma idade e com os seus meios, sem sobressaltos nem aflições de maior.
Quando tempos atrás ele me disse que se iam divorciar e estranhou não me ver surpreso, estive tentado a contar-lhe a minha recordação e outras pequeninas ocorrências que tinha observado. Não o fiz, achei pretensioso dar-me ares de profeta ou conhecedor dos sentimentos alheios.
Mas agora falo consigo: é você sensível aos alarmes, aos pequenos gestos de brusquidão só pequenos na aparência?

Conforto e carinho

Carinho e conforto

domingo, fevereiro 27

Nobel

A saúde não me preocupa e os fundos permitem-me uma confortável mediania. Ideias ainda vou tendo. Se de vez em quando barafusto contra a falta de tempo é por mau hábito, melhor faria se confessasse a inata desordem de como funciono.
De modo que, sem inimigos perigosos, livre de amizades que exigem excessiva atenção, casa confortável, harmonia familiar, comendo bem e sonos de oito horas, sobram-me razões para mostrar cara de contente.
Infelizmente assim não é. Quando me desprecato, e por coisas miúdas que um espírito sensato desdenharia, tomo um ar furibundo de pai-nobre, arreganho os dentes, torno-me violento, dou murros no tampo da secretária.
Ontem pus a casa em alvoroço, acudiu a família ao ouvir o meu berro e a pancada do livro que atirara contra a janela. Tomo encadernado, com peso para fazer estilhaços se a vidraça não fosse dupla.
"Por apenas este romance o autor merecia o Nobel", afirmou um crítico. Eu, levado na conversa, obriguei-me a lê-lo até ao fim, mas com a overdose de vaidade, pedantice, falta de tino, má carpintaria e ainda pior prosa, ao terminá-lo quase ia tendo uma síncope.