quinta-feira, dezembro 9

Seguidores


No começo eram dois, foram depois aparecendo outros, hoje são trinta e cinco os seguidores deste blogue. Pouca coisa, dirão, e de facto assim é, pois os há de centenas, mas esse factor é aqui de menos conta. Fazendo estatística: são quinze as mulheres, dezassete os homens, três pseudónimos. Vinte e cinco têm retrato, dez uma silhueta.
Estes detalhes têm a ver com um hábito, de facto um ritual, que iniciei há cerca de um ano e  consiste, depois de ligar o blogue, em "chamar" os seguidores e desejar-lhes um bom-dia.
Claro que os mais visitantes me são igualmente simpáticos, mas esses vão e vêm sem nome, retrato, silhueta, piscam uns segundos como pirilampos e somem no espaço cibernético antes de se lhes poder dar as boas-horas.

*  *  *

Vou de viagem, de modo que quem vier encontrará a loja fechada, e pendurado na porta o usual "Volto já".

terça-feira, dezembro 7

DN/JN-NS'

(Clique para poder ler)

Sábado passado na NS'. Echevarría nunca li, Sepúlveda idem, Bukowski conheço, mas não é do meu agrado. Fernando Pessoa devia estar ali em nr. 1. Que a capa do Tempo Contado apareça desfocada é fraco agouro, mas nada a fazer.

segunda-feira, dezembro 6

Talento

Desculpe a curiosidade, mas gostava de lhe perguntar se tem talento. Acha que não? Então somos dois.
De certeza já notou que nos últimos vinte e cinco, trinta anos, há muito mais talento, quase se poderia dizer que essa qualidade, antigamente escassa em todas as artes, ofícios, ciências e profissões, não somente se democratizou como também, baixando ao rés a craveira, foi posta ao alcance de qualquer um.
Hoje em dia, felizmente, quase todos de uma ou outra forma possuem talento. Há débeis mentais fazendo talentosamente cerâmica. Putos de infantário desenham com talento garantido, já vi rabiscos da miudagem expostos num  museu de renome ("Para familiarizar as crianças com a beleza da Arte", informava um letreiro). No primário, no secundário, nas faculdades, confirmam-no pais e avós, é um nunca acabar de talento, a rapaziada mal deixa os cueiros pronto recebe o canudo de mestre ou doutor. À minha volta toda a gente escreve, pinta, toca, faz teatro, sopra com aplauso geral em gaitas-de-foles, bate castanholas, sapateia… Há-os até que falam Mirandês!
Para si, para mim, e os poucos que se nos assemelham, a coisa está bicuda. Pessoalmente cheguei ao ponto em que nem sequer ouso confessar ter tido em tempos certo jeito para a bilharda. Jeito não é talento, evidentemente, fora que também só um ou outro excêntrico saberá ainda o que é isso.

sábado, dezembro 4

Já cá não estou

Ainda por cá ando, mas já cá não estou. Digo isto sem intenção de referir a conhecida frase – "O meu reino não é deste mundo" - mas indicar apenas que o enfado me toma e sobe agora a alturas que me levam a perguntar se será caso de disfunção. Porque muito é o que me fatiga e  aborrece, o que por um nada me impacienta.
E estou a ficar invejoso. Houve tempo em que mantinha a esperança de um dia vir a escrever daquelas frases que antigamente se classificavam de lapidares, a imprensa repetia nos editoriais e depois se discutiam nas conversas e nos cafés.
O Destino, porém, não quis que assim fosse, pelo que só me resta a admiração e a citada, muito doentia inveja. Quanto não daria eu, por exemplo, para como Gonçalo M. Tavares, referindo-se à sua escrita, saber dizer : "Acho que todos os meus livros têm esse outro mundo, que me é natural: o mundo do humor e da ironia. Como se as palavras fossem coisas materiais e nós pudéssemos ver as costas das palavras, a parte de baixo das palavras; como se pudéssemos levantar a saia das palavras."
Magnífico! Poder ver as costas das palavras associo-o eu logo à pintura do grande Magritte ou do espectacular Dali, enquanto que o levantar-lhes as saias acorda – pelo menos em mim acorda - visões da lascívia adolescente que me causavam as coristas de Toulouse-Lautrec dançando o can-can.
São frases assim que espevitam o raciocínio e as emoções, sacodem para longe a modorra do viver. Terei que lê-lo, para confirmar, mas não duvido que o jovem Tavares mereça os muitos elogios que lhe fazem e os prémios que recebe.
Pela minha parte, como disse acima, ainda por cá ando, mas infelizmente já cá não estou. Da literatura aos mercados, do futebol à Boutique dos Relógios, tudo reforça a certeza de que este mundo não é o meu, nem o que conheci.

sexta-feira, dezembro 3

Solidão


São essas horas as de maior perigo, quando o sentimento de solidão te empurra para o negrume das perguntas sem sentido e das respostas sem nexo. Quando passam e repassam conversas,  rostos, farrapos de memória, desilusões, aborrecimentos, e instante nenhum recorda uma memória alegre, um sorriso franco, um raio de luz que dê esperança.
Um escuro assim é a antecâmara da solidão, a genuína. Invisível para os mais, todo-poderosa e refinada, algoz que te transforma no que nunca imaginaste vir a ser: um l'homme qui rit.
Dizemos por vezes à ligeira: sinto-me só, mas quando a verdadeira solidão nos possui, força nenhuma é capaz de livrar da mordaça ou abrir a camisa-de-forças.


quinta-feira, dezembro 2

Anúncio


(Clique para aumentar)
São seis. De duas mães. Com Oblomov, o pai, têm o pátio por conta. Apanham ratinhos e um ou outro pardal distraído, só para brincar, porque comida têm-na farta e boa, a hora certa, quatro vezes ao dia. E carinho, e pírulas para que as pulgas, vermes e ácaros os não aflijam. São da rua, mas parecem gatos de anúncio e como tal se comportam.

quarta-feira, dezembro 1

O elogio

Recordo que foi há cerca de trinta anos quando pela primeira vez mo disseram. Viajava nessa altura por Portugal na companhia de dois holandeses, e um deles, um dia ao pequeno-almoço no hotel, saca de um livro meu e, sorrindo, disse que a minha escrita lhe dava a impressão de que me dirigia pessoalmente ao leitor.
Sorri também, agradeci o que ele considerava um elogio, calei o meu desapontamento. Desde aí muitas vezes mo têm dito com igual intenção, e continuo a sorrir, a agradecer e a calar.
É que escritor digno desse nome não "fala" com o leitor, nem lhe dá a ilusão de que se acham ambos em sintonia de emoções e pensamentos. Escritor de verdade, escritor de peso, voa alto, confunde, assusta, passa diplomas de ignorância a quem o lê.
É essa, jovem candidato à fama da escrita, a atitude certa para quem quer que digam um dia que os seus livros marcaram o século. Esqueça o trabalhinho, mande às favas a busca do valioso, do original, do verdadeiro, da sinceridade, da simplicidade, da gramática e da melodia. Não faça como eu. Confunda, amigo, irrite, seja sobranceiro. Nada de intimidades. Distinga-se pela arrogância, pelo modo como com o olhar lhes diz que são burros, nem por sonhos se atrevam a julgar que lhe chegam aos calcanhares ou "falam" consigo.


segunda-feira, novembro 29

O saber

Mesmo aqui na aldeia, onde os analfabetos são maioria, não há dúvida que isto é gente de saber. Colheita, poda, lavra, sementeira, regadio, pisa das uvas, feitura do azeite, ultimamente a papelada dos subsídios, a mim e muitos mais levam de longe a palma.
Sei doutras coisas, um poucochinho, o suficiente para me abismar com o saber alheio, e para que não encontre palavras com que diga a minha admiração pelos que são capazes de mandar sondas para Marte ou sinais de rádio para a escuridão infinda do Universo.
Numa ou noutra altura, porém, em vez de me espantar ou tornar invejoso, o saber alheio põe-me de mau humor. Pela simples razão de que não duvido do saber que assim se apresenta, mas porque me deixa contrafeito e duvidoso de que aquilo não seja genuíno, antes uma charada composta para fazer figura. E eu suporto mal ver alguém a fazer figura,  a soprar névoas que escondam o vazio da pequenina cabeça.
Que mensagem quererá passar quem escreve uma prosa assim?

"Associa também a caracterização sociocomportamental  de grupos de diferente extracção económico-social às movimentações (de variável valor táctico) no campo literário português, que tinha tradicionalmente um espaço-tempo privilegiado para o confronto dos estilos epocais (hegemónicos ou anacronizados, ou emergentes). Nesse sentido, o conhecimentos das facções intergeracionais e dos matizes dos subsistemas estilístico-peridiológicos não deve alhear-se das indicações e valorações."

domingo, novembro 28

Domingo

(Clique para aumentar)

sábado, novembro 27

A primeira geada

(Clique para aumentar)

O amigo


Há um tipo de amizade que nos vem pelas diversas razões da profissão, da vida social, do parentesco, às vezes por encontros fortuitos, e quando julgávamos poder manter confortável distância e algum resguardo do nosso sossego, eis que o amigo carrega no acelerador da afeição.
Chovem convites para festas de aniversário, casamentos, para jantares e reuniões, almoços, conferências, visitas ao Alentejo – "Espectacular, o nosso Alentejo! Conhece?" – montarias, golfe – "Não me diga! Nunca jogou? Excelente para a forma".
A cada mail ou telefonema já não é só a cabeça a reagir com fúria, mas o estômago que faz  horas extraordinárias na produção de suco gástrico. Quando não há desculpa possível e nova recusa seria malcriadez, vê-se a gente em tête à tête , sem possibilidade de escape, estende ele as garras do seu ego e tem-nos ali presos, imóveis, embasbacados.
Quanto fala! Quanta coisa sabe! De agriões e vinhas do Douro, energias renováveis, Art Nouveau, Mondriaan, a guerra na Guiné – "Estive lá de 69 a 71. Um inferno, mas uma experiência fascinante."-  de chá verde, bolo-rei,  da linha do Tua, do preparo da lebre com castanhas…

Comecei a desenhar e confesso que caí no exagero, pois não conheço ninguém que se assemelhe ao retratado. Há, sim, uns três ou quatro que, se os juntasse, dariam um personagem ainda mais cansativo.

quinta-feira, novembro 25

Compadrio

Escrito ontem, seriam dez da noite.

Ainda não terminou, e depois de alinhavar isto não tardarei a deitar-me, de modo que posso dizer com verdade que o dia de hoje foi dia perdido. Culpa minha, logo de manhã a irritar-me com a leitura de um texto num blogue, tão mesureiro e extenso nos rapapés, que me perguntei que interesse ou benefício leva alguém a tanta genuflexão.
Era sobre um livro. E mais pr'aqui, mais pr'ali, chegue-se cá para que lhe coce melhor as costas, e vai um beijinho, e como escreve bem, grande felicidade um talento assim, etc.
Reli, verifiquei se quem escrevia aquilo era quem assinava, deu-me depois qualquer coisa entre o ataque de riso e o ataque de nervos.
Porque é compadrio demais. Lê-se à esquerda, à direita, é um bajular repetido de jornal para jornal,  de revista para revista, blogues idem, conversas idem dito.
Às tantas ouvi cá dentro um sinal de alarme, a avisar que antes de continuar metesse a mão na consciência. E lá vieram os meus momentos de compadrio. Pequenos, acho eu, mas se você os conhecesse era capaz de discordar. Recordei o compadrio de amigos do peito, de um ou outro compincha, de desconhecidos inocentes e outros nem sempre bem intencionados. Fiz as contas, chegando à conclusão  que de uma maneira ou outra não se vive sem compadres nem compadrio. O problema está na dose.

Reparação (2)

Como anunciado aqui, o prazo terminou. O prémio não será atribuído, pois nenhuma das refilonas sequazes do cabo da GNR se candidatou a ele. Agradeço sim, muito, e consolado, às oito simpáticas que me deram a saber que partilhavam o meu ponto de vista.

terça-feira, novembro 23

A pose

Entre os elementos capazes de facilitar a vida social, dá-me a ideia que a pose é número um.
Ainda que honesto e capaz, primeiro-ministro sem pose correspondente, impõe-se muito menos que um primeiro-ministro aldrabão, mas de sorriso esperto e com os ademanes da necessária pose. Um candidato à presidência da República queremo-lo nós com pose adequada: modos de senador romano, voz tonitruante, gestos de ameaça, sorriso avuncular.
De nada conta a capacidade, vale a aparência. Impressiona-nos a arte de um poeta? Pode ser. Mas cresce a admiração que lhe temos se, com gedelhas em farripas, ar desvairado e olhos em alvo, mostrar  a imagem clássica do vate. Bem pode o sacerdote ser brilhante pregador, vestir à antiga batina e cabeção, infeliz dele se subir ao púlpito sem a aparência de quem priva com o Altíssimo.
A pose é a chave, o lubrificante do dia-a-dia da sociedade, a indispensável máscara. A sua falta complica a vida do próximo e a nossa, pois sempre nos acham – somos – melhores e mais suportáveis quando fingimos.  

Disseram ontem de mim que sou sujeito difícil, e provavelmente sou, mas acontece que sei pouco de teatro. E você?

segunda-feira, novembro 22

Up-to-date

Soubesse eu calar. Soubesse eu pôr mais vezes freio à pressa que me toma de dizer o que penso. Fosse eu capaz de travar as palavras antes que elas, como agora, saindo-me da boca, ricocheteiem que nem balas de borracha contra a alma da pobre que tenho defronte, e que, tomada de surpresa, em vez de se defender deixa cair as lágrimas.
Dá-me pena, se bem esteja ao corrente de que mulher tem o pranto fácil, desculpo-me, falamos doutra coisa.
Passamos à fase dos sorrisos, mas bem é que lhe seja impossível ouvir o zunzum do diálogo que sobre ela, em simultâneo e noutra dimensão – No cérebro? Na alma? – mantenho comigo mesmo. É bom também que não veja a radiografia que de lá sai.
Porque ó senhores! Ó pais! Ó namorados e maridos de mulheres assim! Como é que aguentam?
Foi ontem, mas continuam a ressoar-me aos ouvidos – e não só - os Fuck you! e os Oh my God! dos filmes e da bacoquice. Fecho os meus, mas continuo a vê-la revirar os olhos como se fosse da televisão. E a fazer beicinho. E a dizer asneiras. A confessar que se ele quisesse "fodia com o Banderas".
Fodia! Dá a impressão de atirar aquilo em maiúsculas, talvez para que eu me dê conta de quanto é moderna, ou a ver se me choca. Não choca. Em choque ficaria ela se soubesse como me mantenho up-to-date.

sexta-feira, novembro 19

O parolo

Estranho tipo o que promete e não cumpre, combina e não aparece, pede e não retribui nem paga. Será desleixo? Tara? Pouca vergonha? Pode ser tudo isso, acrescentado de boa dose de estupidez, vaidade e exacerbado sentido da própria importância. Parolice também.
O parolo tem Rolex, Mercedes, fatos do Zegna, já foi às Seychelles, mas ignora que para além do fato, e do limitado campo do seu entendimento, há um mundo onde as pessoas não são menos por serem pontuais ou cumpridoras. E isso, que ele morrerá sem aprender, é democracia: o sistema onde todos são iguais nos direitos e nos deveres, e não se sentem menos nem rebaixados quando cumprem o que prometem.

quinta-feira, novembro 18

Reparação

Um sentimento de culpa não tem de ser fonte de remorso e para a asneira não há monopólio. Mas verdade é que dizemos coisas sem pensar nas consequências, damos passos em falso, empurrões nos melhores amigos; e por vezes, descrendo do impacto das palavras, ou confiante de que quem nos lê adivinhará que piscamos o olho, que o azedume é só  fingimento, atrevemo-nos a pontificar.
Infelizmente, no universo Internet há sempre uma alma que se sente ferida, alguém que se diz "isto é comigo", um ou outro que, mais destravado, esquece as boas maneiras que lhe ensinaram.
Na semana passada dei aqui umas inócuas picadelas num certo tipo de rapariga, e então não é que algumas, ignorando o substantivo raparigada, e com preguiça de clicarem no Priberam, desataram a barafustar (por mail, evidentemente) que as insultava, diminuía, que o texto ressudava  um machismo bacoco, que eu faria bem em não tocar no que não entendia. Ainda metiam a minha idade pelo meio, com um palavreado que não vou repetir.
Jesus Cristo também perdoou, e eu, homem de paz, além de perdoar peço desculpa pelo mal que não faço, bato contrito no peito um mea culpa, dobro o joelho, mas pelos jeitos há ocasiões em que isso não basta.

Assim, dando ouvidos a uma amiga de bom aviso, proponho uma espécie de reparação: sentiu-se magoada, insultada ou triste com aquele texto? Pertence à categoria citada, a das raparigas até aos quarenta? Escreva então em quarenta ou cinquenta palavras o motivo do seu desprazer e remeta para jrentes@xs4all.nl .
Na possibilidade de que haja mais de uma resposta faz-se sorteio (papelinhos num chapéu) e a vencedora terá direito a prémio: um conto curto, muito curto, mas original, e até manuscrito. 

PS. O prazo de envio termina a 25/11.