sexta-feira, julho 16

Comentários

É recente, estou a perder mais tempo nele do que devia e, se não me acautelo, corro o risco de ficar com o vício da leitura das caixas de comentários. Não só porque ali há do bom e do mau, o estúpido, o soez, o inteligente e o bem educado, mas sobretudo pelo que permite apreciar do comportamento alheio.

Numa troca de comentários há por vezes mais humor grosseiro do que na comédia bufa e nalgumas sente-se mesmo a vontade que os sujeitos têm de mutuamente se esganar.

As que mais aprecio são aquelas em que os participantes descrevem como que um arco: começam por uma troca de azedumes, sobem aos insultos e terminam num desfecho que, de tão deliciosamente inesperado, deixa de boca aberta. A mim deixa. Ao mesmo tempo que me dá a medida da doce artificialidade com que trocam sorrisos muitos daqueles que gostariam – mas não podem e têm medo – de desandar à bofetada e ao pontapé.

Assim li recentemente uma troca de comentários em que dois cavalheiros se azedavam com a ignorância que o outro tinha do Latim. O tom foi subindo e, palavra puxa palavra, entraram a arrepelar-se, até que um barafustou que ao parceiro faltava tesura, caso contrário não se escondia por detrás dum pseudónimo. Brioso, o acusado, deu o nome. Reparte o outro, dizendo que se tivesse sabido teria usado um tom diferente e aproveitado até para lhe dizer que conhece e aprecia os livros que tem escrito. O visado não quer ficar atrás, quase jura que pensa o mesmo do interlocutor, e acabam em salamaleques.

Agora digam lá: para que há-de ir uma pessoa gastar duas horas num teatro?

quarta-feira, julho 14

O nosso "francesismo"


Isto anda cada vez mais literário, mais experimental, mais interessante. Interessante no cómico sentido da palavra.

Dias atrás um jovem e conhecido crítico lastimava que ainda se escrevesse à moda do século passado, mas em minha opinião não se dá ele conta de que já se escreve à moda do futuro, e que a chamada Literatura corre maratonas a ver se apanha a Banda Desenhada. O que no antigamente se chamava diálogo, aparece agora aqui e ali com Grrrs! Vronks! Prruns! e muito “What the fuck!”, que não há como o seu bocadito de Inglês para ter chique e demonstrar que se pertence aos eleitos que voam alto e longe do vulgo.

Compara-se um a Paul Auster, outro encosta-se a Martin Amis, um terceiro sente-se próximo de Bolaño, um quarto abandonou os russos e de momento inclina-se para Murakami. Haruki Murakami, informa ele compenetrado.

Imita-se, falseia-se. Conta-se aos papalvos, e os papalvos apreciam, que só escrevendo em cadernos de Moleskyne e em determinado quarto do Chelsea Hotel, em Nova Iorque, é que se recebem os eflúvios. Em Bali, nas favelas do Rio ou naquela praia de Goa, também serve.

Aborreço-me, pois aborreço, com os livros do ano, e da década, e do génio, com a prosa dos analfabetos, a poesia dos poetas cuja fama lhes vem mais das melenas e da pose, que do sumo que escorrre do seu hermetismo.


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in "O Francesismo"

segunda-feira, julho 12

A pesca do bacalhau


Gloucester, no Massachusetts, o mais antigo porto de pesca dos Estados Unidos, terra de muitas gerações de sicilianos e açoreanos. É lá popular a nossa linguiça e, quando ainda o havia, pescava-se o bacalhau. Isto e mais li eu em The Last Fish Tale.

Porque os conheci na infância, das vezes que meu pai me levou a bordo dos lugres bacalheiros, interessaram-me em particular as histórias dramáticas dos pescadores que se metiam ao mar nos dóris. E logo me tomou a tristeza que sempre me ataca com o confronto da nossa secular miséria. Os pescadores “americanos” de Gloucester iam aos pares: um homem a remar, o outro a pescar, e mesmo assim a tarefa era de perigo de vida. Os dos lugres de Aveiro, Ílhavo, do Porto e da Figueira, pescavam sozinhos, sofriam, gelavam e morriam sozinhos, poucos terão sido os que ao longo dos séculos ganharam mais do que para comer.

Fechei o livro e, com saudade dos que na infância via atracados ao Cais da Ribeira, fui-me ao Google em busca de dóris e bacalhoeiros. Encontrei lá esta história, também muito portuguesa no que tem de desastrado e rocambolesco.



domingo, julho 11

Ganharam

Pois ganharam. Foram melhores? Nem por isso. Valeu a pena? Não valeu.

Para logo à noite


Folheei e descobri duas fórmulas de resultado garantido para deitar o mau olhado.
PS. Ao almoço temos arroz de polvo.

sábado, julho 10

Mais preparos


Vão ganhar, mas mesmo que percam a Força Aérea Neerlandesa (
Koninklijke Luchtmacht) mandou pintar de cor de laranja um F-16 para servir de guarda de honra ao avião que os trouxer. E festa vai haver.









sexta-feira, julho 9

Preparos.




quarta-feira, julho 7

Solidão

Seis e meia da manhã. O choque foi demasiado forte, ela notou-o, mas depois dos bons-dias sorrimos e, sem mais, entramos no parque com os cães.

Vivemos na mesma rua há anos. Desde o começo, adolescente atrapalhado com as hormonas, garanhão nos trinta, idoso consumidor de Viagra, macho que com ela se cruzava perdia a cabeça. Da vida que levava ninguém sabia, amores não se lhe conheciam, a qualquer um desarmava com o seu sorriso e as banalidades da cortesia.

Ambos madrugadores, os nossos cães facilitam a conversa, mas não recordo que alguma vez tenhamos ido mais além do que o tempo, os problemas do trânsito, os da associação de proprietários.

Continuamos em silêncio. Os cães correm longe, farejam, desaparecem, saltam, retornam.

Olho-a quando vai à minha frente e de novo me assusto, perguntando-me o que terá acontecido. Trinta anos, pouco mais, o que foi juventude e beleza é agora um corpo mirrado, os olhos a saltar das órbitas num rosto de caveira. Pernas de esqueleto. Os tremores da heroína. Involuntariamente abano a cabeça, na recordação das prostitutas que a horas mortas, no desespero da droga, se atiram contra os carros que passam detrás da Centraal Station.

Sorrimos, viramos a caminho de casa. Antes do semáforo pomos as trelas aos cães e, lado a lado, esperamos pelo sinal. Atravessamos. No momento em que me vou despedir toca-me o braço, encara-me com melancolia e, como se me devesse uma explicação, sussurra:

- Sinto-me muito só. Não tenho ninguém. Nunca tive.

Quando me recomponho já ela se afasta. Não sei que fazer nem para onde me voltar.