quarta-feira, junho 16

Chegou a hora


Chegou a hora de fazer malas e, como as aves de arribação, regressar ao outro ninho. Por isso se fecha este blogue durante os dias precisos para a viagem e para o consequente descanso. Obrigado pela sua visita.

terça-feira, junho 15

Primos e amigos

Agradável coisa, esta que ultimamente me tem acontecido, pois me estão a sobrar amigos, relações, os conhecidos e até os parentes. Tenho uma vaga ideia da causa desse desmesurado e recente carinho, mas nem por isso deixa de me maravilhar a descoberta de que haja tanta gente que, antes de testemunhá-la, mantenha a amizade e o parentesco numa espécie de longo banho-maria.

Seja como for, de momento é amigos p'ra cá, parentes p'ra lá. Uns brincaram comigo na infância, outros são do liceu, da tropa, do tempo em que morei na Praça da Alegria, em Lisboa. Há um que me conhece da boémia de Berlim, onde nunca estive, pouco falta a alguns para que, esquecidos da idade, jurem que andaram comigo ao colo quando gatinhava no Monte dos Judeus, em Gaia.

Aquele recebeu em tempos uma carta minha, e recorda-a laboriosamente, aproveitando a ocasião para mencionar o erro ortográfico que lá encontrou. Uma outra pede o endereço, para mandar o poema que em 1948 lhe recomendei e que ela guardou na agenda desse ano.

De parentes é também um nunca mais acabar. Primos em quinto, sexto grau, que nos longes do Mato Grosso, da Venezuela, de New Jersey e Sausalito, subitamente se agarram à existência deste familiar, desculpando-se da ignorância do sangue que nos une.

Vale-me a pachorra. Franzo o sobrolho, mas na verdade divirto-me de que gente a quem por urbanidade se dão dois dedos de conversa, familiares e vagos conhecidos, tão inesperadamente transbordem de simpatia.

segunda-feira, junho 14

O engenheiro

Tarde em Moncorvo, vila de ruas íngremes e estreitas. O BMW faz a curva antes da descida, vem um bocadito apressado, aparece contra a mão, recompõe-se, mas a dinâmica é quem manda e raspa o meu carro.

Quarentão azedo, cara de poucos amigos, logo aos gritos sobre a minha pretensa culpa, eu é que tinha saído na curva. Tentei chamá-lo à razão, nada a fazer.

Por motivos que só ele sabia, aumentava os decibéis , erguia os braços ao céu, pedia o apoio dos basbaques, pateava na calçada. Ia eu telefonar à GNR quando de súbito o vejo diante de mim, arroxeado, louco furioso, berrando ao mesmo tempo que me apontava o dedo com o gesto que faria se fosse uma pistola:

- Fique a saber que sou engenheiro da Mota-Engil!

A esta hora já deve ter jantado, mas talvez ainda se pergunte qual terá sido a causa do meu ataque de riso.

domingo, junho 13

Um gole de Grant's

A serenidade do fim da tarde de ontem convidava à paz, à calma, e a dois dedos de Grant's bebido com vagar no pátio. Olhando os montes fronteiros, revendo a paisagem de searas que foram, os eucaliptos que os invadiram depois, o mato verde-escuro que pouco a pouco vai retomando os direitos da Natureza.

Ela deu as boas-tardes, aceitou o convite para se sentar, mas uísque, não, obrigado, nunca na vida inteira bebeu uma gota de álcool. Nem sabe se gosta, porque nunca quis provar. Falámos então das coisas e loisas costumeiras, o tempo, os achaques, as batatas que estão a crescer muito bem porque a chuva veio mesmo em boa altura, a desgraça do homem que em Montalegre degolou a sobrinha, deu um tiro na mulher e se suicidou depois.

Persignou-se ela a esconjurar o espírito do Mal; beberriquei eu, perguntando-me se perdi o gosto ou se se tornou diferente o sabor do uísque.

- Fez oitenta, não foi?

Acenei que sim, com o sentimento incómodo de que a pergunta não parecia totalmente acidental.

- E continua lúcido! Olhe que nessa idade há muita gente...

Creio que a intenção era boa, mas de súbito senti-me como alguém que usurpa um lugar. Com oitenta anos feitos, são do corpo e da cabeça, o meu funcionar não pode ser o que tenho, mas aquele que os outros de mim esperam.

sábado, junho 12

Barbos do rio Sabor


Pescados de madrugada no Sabor, trazidos à porta. Dois quilos de barbos para o almoço de amanhã, dois euros - qualidade e preço doutros tempos.

"A Amante Holandesa"

(Clique para aumentar)

Só em Julho estará nas livrarias, por isso foi surpresa quando me disseram que podia vê-lo aqui.

sexta-feira, junho 11

Feitio

Há quem afirme, com a leviandade da inexperiência, que muitas coisas passam com a idade. Algumas passam, as que têm a ver com o corpo, mas essas são de menos conta. Importantes, e de desagradável renitência, são as chamadas do feitio.

Eu bem gostaria de ver abrandar a minha impaciência, a pressa dos meus juízos, a rapidez com que dou e aceito simpatias, a ingenuidade das minhas crenças. O menos cotado dos vendedores de banha de cobra, sei-o por experiência, tem em mim vítima fácil. Compro sem ver, acredito firme que promessa e garantia são a mesma coisa.

Levo pontapés, pois levo, mas a culpa é toda minha.

Por isso me deitei a estudar a numerologia de Pitágoras, na esperança de nela encontrar, se não remédio, pelo menos explicação para uma maneira de ser que antes parece virar-se contra mim do que estar do meu lado.

Até à data tem sido pena perdida.

quarta-feira, junho 9

O estrangeiro

Porque me escasseia o tempo e repugna frustrar a boa gente que vem aqui em procura de mercadoria nova, mais uma vez deito mão a um texto antigo, o de uma conferência que dei na Universidade de Leiden em 29.09.1990.

Não se assuste ninguém com o final, porque é o que continuo a sentir: Portugal dói-me.


Os organizadores deste simpósio sobre “A imagem do estrangeiro na literatura ocidental e não ocidental” devem ter achado que, juntamente com a imagem, seria interessante apresentar aos participantes um espécime vivo de um estrangeiro ligado à literatura. Daí a justificação da minha presença.

Como complemento aos estudos científicos e às discussões do simpósio, talvez tenha alguma utilidade contar algo da minha situação pessoal como indivíduo e escritor presente numa cultura alheia. Sem malícia, nem intenção de abusar da paciência de ninguém, pareceu-me que a melhor maneira seria levar-vos a participar num breve experimento de alienação..

Esse experimento teve já o seu início no momento em que comecei a falar, pois em vez das frases polidas pelo trabalho de um tradutor competente, o que ouvem agora é a tradução que eu próprio fiz dum texto escrito em português.

Para vós a sensação estranha de ouvir maltratar a vossa língua. Para mim a sensação incómoda de involuntariamente a maltratar. O sentimento de experimentar algo que só em parte e irregularmente parece correcto, e ao mesmo tempo uma indefinível impressão de insegurança. A desagradável dicotomia entre o que se deseja dizer e o que não se consegue exteriorizar. O sentimento de que cada palavra mal pronunciada, cada palavra empregada de maneira imprópria, é um passo em direcção ao abismo: aquele que, invisível aos outros, se abre dentro de nós próprios, e onde as quedas nunca são fatais, mas sempre dolorosas.

A certeza de usar de maneira incorrecta a língua do país em que vive, é para o estrangeiro, juntamente com o medo de um dia vir a ser incapaz de usar correctamente a sua própria, uma tortura de todos os momentos. Se o estrangeiro é simultaneamente escritor, essa tortura e esse medo podem tomar proporções de verdadeira psicose.

Fora casos excepcionais como os de Conrad ou Nabokov, capazes de se implantar tão profundamente na língua e na cultura estranha que nela ocupam lugar de destaque, o destino corrente do estrangeiro na sociedade que o acolheu é o de se sentir num estado de quase permanente desequilíbrio.

Esse desequilíbrio não é apenas causado pela diferenças do idioma, ou pelos obstáculos da fonética, mas também por todo um conjunto de factores em que o humano e o social constantemente mudam de forma e valor.

Do desequilíbrio vem a insegurança. Mesmo que do ponto de vista intelectual a sua situação pareça confortável, ou realmente o seja, a insegurança é a característica proeminente da condição de estrangeiro.

O chão que pisa é sempre inseguro. Ao contrário do viajante, que com facilidade pode esquecer as suas pegadas, o estrangeiro é constantemente confrontado com elas. Nenhum dos seus passos é dado sem risco, mesmo que esse risco seja apenas o do ridículo.

A insegurança do estrangeiro contribui ainda para que a visão que tem da realidade que o rodeia conduza a uma deformação especial. Seres e fenómenos são por ele vistos através de bifocais em que a estranheza e a simpatia se não separam nitidamente, como o longe e o perto, mas surgem tal imagens enevoadas e sobrepostas.

Daí que a expressão “É-nos posto um espelho defronte”, usada frequentemente pelos holandeses para qualificar a sua relação com os estrangeiros que escrevem sobre este país, sempre me pareceu inadequada.

Porque o estrangeiro não coloca, nem pode colocar, os holandeses defronte de um espelho, onde, como por mágica, surgiriam as suas muitas qualidades e os seus poucos defeitos – eu suponho que esperavam ouvir o contrário. O que o estrangeiro de facto vê são os reflexos enevoados e sobrepostos de si próprio num espelho holandês.

O que agora digo não contradiz de forma alguma o que tenho escrito sobre os holandeses, nem é cortesia a que me sinta obrigado aqui e neste momento. Isso traduz apenas a convicção de que, com espelho ou sem ele, quanto mais tempo vivo na Holanda, mais me vou descobrindo a mim próprio, e menos seguro me sinto da justeza da minha visão sobre os holandeses e o seu país.

Embora não os queira importunar por mais tempo com o decifrar das minhas palavras, também não é meu intuito deixá-los com a impressão de que o estrangeiro em geral, ou este em particular, apenas conhece temores e incertezas.

De certo modo a condição de estrangeiro oferece também vantagens. Hoje em dia quase nada o obriga a assimilar-se ou a participar. Ninguém o impedirá de passar a vida inteira na posição que, para o individualista, é quase ideal: a do outsider inside. E a vida em seu redor sempre lhe oferecerá mais possibilidades de surpresa, divertimento, irritação ou raiva, do que aquela que viveria no ambiente aconchegado do seu país de origem.

Talvez estranhem, mas para aquele que consegue ultrapassar os inevitáveis artritos e contratempos do início, a condição de estrangeiro pode igualar o sentimento de prazer de longas férias, acrescentado dos estímulos de uma éducation permanente.


Tem-me sido perguntado com frequência, sobretudo agora que cheguei à idade do descanso, porque continuo aqui, em vez de regressar ao sol e às paisagens idílicas do meu país. Creio que, inconscientemente, a minha resposta tem sido sempre vaga. Porque a verdade custa a dizer: é que dói menos ser estrangeiro numa sociedade que se aprecia, do que viver naquela que, embora nossa, nos fere pela injustiça.