sexta-feira, maio 21

Coisas que se ouvem


Coisas que distraidamente se ouvem e depois surgem em relâmpagos, a insistir na atenção que se lhes recusa:


"Durante séculos após a descoberta da impressão, o povo lia, mas só as elites escreviam. Isso durou até por volta dos anos 80. Hoje toda a gente lê, toda a gente escreve. A nova elite são os programadores da Internt. Nós, utentes, estamos na fase de participar riscando cruzes em quadradinhos."


"O mundo deixou de ser aquele edifício de princípios morais, interesses comuns, solidariedades, crenças e fins colectivos. O mundo é hoje uma empresa, uma sociedade anónima regida pelos princípios da Economia, os quais são igualmente válidos para as nações e para os indivíduos. O fim em vista é o êxito a todo o custo, e esse só se alcança eliminando os concorrentes, emprestando uma dimensão nova ao pensamento de que Homo homini lupus est."


Sorrio. Outro remédio não tenho enquanto ele, a dar a novidade, me informa que domingo à tarde estará de volta. Quarentão, casado, três filhos, funcionário. Vai com uns colegas ao Rock in Rio porque quer voltar a ver a Shakira, que "é mesmo uma grandessíssima gaja." E piscando o olho, porque de certeza compreendo, acrescenta guloso: - Ai que se ela quisesse!

quinta-feira, maio 20

De pouca monta

Coisa de pouca monta, desenhar um retrato com palavras. Coisa de porte ter sonhos e saber que, por todas as razões e mais uma, é vedado sonhá-los. Frustração grande, a das palavras que nunca se dirão, a dos olhares que não se poderão trocar, a do desejo silencioso e secreto. Que a vida constrói dessas inexoráveis masmorras onde somos carcereiro e condenado.
Escrevo isto como que separado do meu cérebro, que esse, como tantas vezes acontece, disparou para um montão de impressões e pensamentos que agora recordo, mas devia esquecer.
Salva-me a incapacidade para a poesia. Tivesse nascido outro e, neste fim do dia, de certeza estava a pôr em verso livre o que em prosa me proíbo de confessar.

quarta-feira, maio 19

Retrato 10 x 16

Olhos muito negros, muito expressivos, sobrancelhas num ligeiro arco, nariz grego. Lábios sensuais. O corpo, uma perfeição. Pernas de bailarina. Talvez no fim dos trinta, começo dos quarenta. Passam-se os detalhes, cala-se o estado civil, deixa-se no escuro a família, bem assim como a profissão, onde dá cartas pela inteligência e o talento.

Desperta paixões em ambos os sexos, mas quem se arrisca a ir com ela para a cama sai a perder. É que intimidade com semelhante mulher exige preparos – eu quase diria habilitações – de que raros dispõem. Idem intelecto e delicadeza dos sentidos. De modo que muitos a desejam mas raro partilha, está na vida orgulhosa e descontente, perguntando-se que terá feito para merecer a solidão de que ninguém se apercebe e aos poucos a transforma no que não quer ser.

terça-feira, maio 18

13 de Maio

No dia 13 almocei com os padres. Fátima e o Papa despachámo-los em curtas frases de circunstância, apreciou-se o cozido e falou-se de carros. Melhor dizendo: falaram eles, perplexos com a minha ignorância, descrentes de que não soubesse que cilindrada e quantos cavalos tem o que há anos me traz e leva.

O padre Abel, grande postura, bom garfo, jovial no modo, entrou a explicar as excelências do seu Mercedes. Dos seis cilindros do motor ao macio do cabedal dos assentos; do conforto dos amortecedores à maravilha do GPS; do arranque – "Em 6 segundos chega aos 100! " – ao brilho da pintura, tudo no seu Mercedes lhe é motivo de apreço.

- E então os travões? Na garagem já me perguntaram se não travava! Porque aquilo não se desgasta! Garantia? Até aos seis-cen-tos-mil-quiló-metros! Nenhuma marca faz isso!

O outro, o padre Sampaio, miudinho, estrábico, interrompia de vez em quando, repetindo que de facto carro nenhum chegava aos calcanhares do Mercedes. De súbito, porém, como se o seu cérebro se tivesse desarranjado, pareceu esquecer os automóveis e, às gargalhadas, o dedo a apontar, atirou ao colega:

- És muito político! Vais com eles de braço dado, prometes tudo, e quando julgam que sim, que a coisa está arranjada, zás! passas-lhes uma rasteira. Olha que és muito político!

Não sei do que se tratava, mas como eles riam, ri também. Depois houve um momento de silêncio e pedimos a sobremesa.

segunda-feira, maio 17

Pelo calendário

Pelo calendário corrente fiz oitenta anos no sábado, mas nem eu pranteei nem os céus trovejaram, e o dia passou como a maioria deles passa: corriqueiro e calmo.

Se o corpo ou o intelecto funcionassem mal, se a minha alma andasse desvairada, se um drama ou a miséria me ameaçassem, teria razões de queixa. Como nada disso acontece, só tenho motivos de inquietação: o de ignorar donde venho e de por vezes não saber quem sou, o dar-me conta de como o tempo de uma vida é um instante irrisório, a incerteza do que será o meu destino, o mistério do que fica para lá do fim.

Sinto-me também um pouco como o passageiro que tomou o comboio errado e, embora ache curioso o percurso, interessante a paisagem, se pergunta que comprimento terá ainda a linha e que surpresas o esperam na estação terminus.

sábado, maio 15

80


Ao redor dos vinte anos, quando a minha vida conhecia mais sombras que momentos soalheiros, algumas vezes me perguntei que adiantava chegar à avançada idade de Jesus Cristo. O meu destino, porém, estava traçado e faz hoje oitenta que, por volta das cinco, numa tarde de canícula, "Deus criou o Mundo em Vila Nova de Gaia.".

Até agora o percurso não foi de descanso nem meias medidas, mas generosa mistura do bom e do pior. Momentos tristes, sobra de horas prazenteiras. Tragédias e trambolhões, desastres, aventuras, perigos a que escapei por um fio. Alguns êxitos. Alguns milagres. Vivências que largamente compensaram da inquieta espera. Amores. Sim, tive e, maravilha, ainda tenho. Amizades poucas, talvez porque espero delas tanto como dou.

Chegado a esta meta abstenho-me de fazer balanços e continuo pouco dado a olhar para trás. Aceito o dia com gratidão pelo que recebo, pelo que sinto, o que me faz esquecer a idade, o que ainda aprendo. Vivo-o na calma ciência de que, inevitável, um chegará sem amanhã.

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Adão e Eva expulsos do Paraíso - a gravura é de Gustave Doré (1832-1883)