Sombras, tristezas, melancolias, põe a gente sem querer um rosto de olhos mortiços e boca descaída. Ou dá largas à raiva. Até que repara que aquilo equivale a uma forma de nudez, e se incomoda o próximo com o que mais decentemente se guarda no íntimo.
Estes dias não têm sido dos melhores, mas consigo evitar que se veja, em grande parte devido a uma recordação de muitos anos passados.
Saía eu de um daqueles encontros em que por pouco se perde a cabeça, e tão desatinado que no parque de estacionamento não conseguia encontrar o carro. Foi então que o vigilante veio direito a mim, sorriu, e disse com bom modo:
- É provável que tenha razão para pôr essa cara, mas não deve, nem tem o direito. Incomoda quem o vê.
Culpa minha, que facilmente me deixo levar e repugno a dizer não. Mas à própria custa irei aprendendo.
Começou com o Facebook. Quando caí em mim estava a receber, além de velhas, novas e desconhecidas amizades, pedidos sem conta para acudir a isto e àquilo, inscrever-me aqui, ir acolá, assinaturas para causas humanitárias e para plantar couves, tratar de bichos, convites para exposições, filmes, bailados... E Joana I pede que lhe mandes um abraço, Joana II quer um beijo, Joana II quer que lhe desejes boa-noite, Joana IV manda-te uma rosa, Joana V faz hoje anos.
Isso já era excessivo, mas caí em pior. Algures em França uma simpática fez-me saber que uma das suas avós e minha mãe eram primas em quarto ou quinto grau, e que ela, através do programa GENI – Everyone's related – 70 million profiles - andava a compor uma árvore genealógica. Portanto, se eu...
Pois sim, muito bem. E, como digo atrás, fraco nas recusas, logo concordei. Em aziaga hora o fiz: diariamente recebo um mail ou dois com acrescentos à árvore familiar. Vai a conta em quatrocentos e sessenta e cinco.Ora é em sétimo grau o avô de fulano, ora é uma certidão de casamento de 27 de Junho de 1849, ora é o décimo aniversário do Lucas amanhã ("não esqueças,manda-lhe um presente!"), ora é a Georgina que vai casar com Louis Albert, ou Amândio Ferreira, tio paterno de Albertina Carvalhosa, nascido a 3 de Dezembro de 1900...
À semelhança de todos os fracos, demoro, vou adiando, mas esta manhã decidi pegar o touro pelos cornos: abri o Facebook e desactivei. Fui-me ao outro e fiz o mesmo.
Os amigos compreenderão, e da família já alguém disse que é prisão perpétua, mas nela basta-me a célula que vai até aos netos e, para trás, até aos bisavós.
É pouco o que me assusta, muito pouco o que me surpreende, e aceito com bonomia as mudanças, mesmo aquelas que reviram as minhas vivências.
Um exemplo: venho do tempo em que o apalpão era caso de bofetadas ou polícia, e hoje nos aeroportos sigo obediente na fila que se deixa apalpar e eventualmente se põe em pêlo.Terrorismo, segurança, prevenção, sobram sempre argumentos para que o cidadão entre no rebanho sem discutir, acertando o passo. E neste nosso mundo de escutas, satélites, de controlos e tecnologias com que Orwell nem sequer sonhou, a privacidade e a sua defesa são assuntos que só afligem a mesma gente que reverencia o Dalai Lama, treme com o aquecimento global, bebe água engarrafada e acredita firme que o chá verde evita o cancro.
Mas verdade é que quase todos os dias vamos perdendo um bocadinho do que deveria ser só nosso, ou nos anunciam os "benefícios" de medidas para nosso bem e salvação.
Uma recente nasceu na cabeça de um político em Haia, que prepara a proposta de que nos pénis dos infectados com HIV seja feita uma tatuagem cautelar.
Abanamos descrentes a cabeça e um colunista com sentido de humor sugeriu que a tinta empregada seja fluorescente, de modo a tornar-se visível nos darkrooms.
Sorrimos, encolhemos os ombros, mas nunca se sabe quanto demorará para que a tolice de hoje seja a imposição de amanhã.
Porque vem de muito atrás deixou de me surpreender,mas continua a incomodar. É que não há revista, jornal, filme, anúncio, outdoor ou programa de televisão em que se escape ao arreganhar de dentes que antigamente se associava com jericos. Quando zurravam.
Exprimem surpresa estas boquiabertas meninas? Alegria? Entusiasmo?
Pouco ou nada importa. O que conta, pelo menos para mim, é, primeiro, a artificialidade; depois, mais irritante, o ver-me constantemente confrontado com igual arreganhar. Em estabelecimentos e escritórios, cafés, reuniões, festas de aniversário, na rua e no teatro, nos aeroportos, nos comboios...
A vida já não imita a arte nem anseia pelo genuíno ou pelo belo: espelha-se feliz nos comportamentos e caretas do pechisbeque publicitário. Isso lhe basta.
Estamos na décima semana de frio, neve, gelo, temperaturas à volta dos 5° negativos, por vezes com quedas até aos oito, duas ou três noites de menos catorze. Céu ininterruptamente sombrio. Houve um quarto de hora de sol dias atrás, outro quarto de hora ontem, a manhã de hoje é um céu vagamente azulado, mas para a tarde há promessa de mais frio e mais neve.
Tudo o que é lago e canal gelou. Gaivotas, patos, cisnes, garças, gansos, galinholas, a bicharada que procura alimento na água corre e voa em busca do que não há. Coisa nunca antes vista: os grandes cormorões, que se querem nos lagos com muito peixe, aparecem aqui nas árvores atrás de casa, à espera do que se lhes deita.
E deita. Não foi preciso os jornais e a televisão falarem de dever cívico. Sementes, bolinhas de gordura, amendoins, pão, painço, verduras, arroz, a todo o momento há alguém nas margens do canal a imitar o bom São Francisco.