sexta-feira, dezembro 18

Areia


Porque será que a uns é dado extraordinário talento e outros nem sequer recebem a dádiva de se poderem maravilhar?


quinta-feira, dezembro 17

Lapidação


Culpado de adultério e condenado à morte por lapidação por um tribunal islamita da Somália, Mohamed Abukar Ibrahim é enterrado para facilitar a execução da sentença.

Justa e civilizada forma de Direito, a Sharia, pelo que bem se compreende que sejam tantos os que sofrem com a demora de vê-la aplicada entre nós.

(foto AP)

quarta-feira, dezembro 16

Chegada

Mais coisa menos coisa todas estas viagens de ida e volta se parecem. Uma ou outra deixa memória, como a de perto de Burgos um automóvel negar o stop e, no instante seguinte, ver mortas e espalhadas na estrada as pessoas que segundos antes me tinham sorrido. A de um autocarro turco nos Pirinéus, os passageiros amontoados em pé num lado, fazendo contrapeso às molas que no outro se tinham partido. Um pouco antes de Tordesilhas, um carro deitando faíscas ao raspar a protecção da auto-estrada, e a mulher que o conduzia continuando a fumar, indiferente ao choque e àquele fogo de artifício.

No domingo entre Paris e Lille, com vento de tempestade, contei dois camiões virados. No primeiro dia, sexta-feira, um nevoeiro cerrado que se manteve por quase trezentos quilómetros até Magaz de Pisuerga. Esperança perdida julgar que dissiparia, pois no sábado acompanhou-nos até Bayonne. Excitante sentimento de roleta russa o descobrir poucos metros adiante um camião sem luz e velocidade de caracol.

O modo trombudo dos funcionários das portagens no País Basco a contrastar com o sorridente Bonjour! com que as meninas das Péages recebem os euros.

Surpresa à chegada: aqui entre o nosso prédio e o parque fronteiro havia um pequeno estacionamento bordado de árvores e arbustos. Catita, era uma alegria para os olhos quando tudo floria. Mas quê? A Câmara decidiu ser dispendiosa a manutenção e encontrámo-lo assim:




quinta-feira, dezembro 10

Muita estrada


Vai para dez anos que mo dizem, mas burro velho... Que dois dias e meio de estrada é muita estrada, cansaço demais, tempo perdido. Será. Mas avião que me aceite a tralha e a livralhada sem pedir a camisa do corpo não voa para estes lados. Por isso me meto de novo amanhã pelas arribas do Douro, as planuras de Castela, os vinhedos da douce France, a monotonia da pátria de Tintin, para finalmente arribar à terra mais baixa que o mar.

Para lá e para cá, quatro vezes por ano faz oito mil e pico quilómetros. De facto é muita estrada e perde-se tempo, mas a cada chegada ganha-se a ilusão de que tudo recomeça.


Terça ou quarta voltamos a falar.




quarta-feira, dezembro 9

"O Livro do Homem"



(Clique para aumentar)

Comecei a lê-lo domingo à noite e terminei ontem. Louve-se o João Bonifácio (não conheço); o Francisco José Viegas que mo ofereceu; a Quetzal que o editou.
Se isto lhe parece asquerosa publicidade,
be my guest, esteja à vontade, facto é que há muito não tinha rido assim. Perguntou a minha mulher que coisa me dera, mas, sufocado, não pude mais que mostrar-lhe a contracapa. E melhor cumprimento não receberá um autor que o de, na calada da noite, pôr um casal a rir de tal modo que a cama treme e o cão, surpreendido com as gargalhadas, desata a ladrar.


terça-feira, dezembro 8

Não se metam comigo


Cacete, moca, varapau, marmeleiro... Camilo e o esquecido Arnaldo Gama deixaram descrições vívidas de como se fazia debandar uma feira, se rachava uma cabeça de uma só pancada, ou se matava outro numa questão de honra.

Mas as feiras tornaram-se uma monotonia e a honra também deixou de ser o que foi.

Não tenho ideia de como este veio aqui parar, mas há dezenas de anos que está à entrada da porta, escondido entre os guarda-chuvas. Apropriadamente feito em madeira de carrasco, dura como ferro, mede oitenta centímetros e faltam-lhe gramas para os dois quilos.

Não se metam comigo.

segunda-feira, dezembro 7

A verdade e a coisa pública

A pergunta data provavelmente dos netos de Adão, mas esses não dispunham das possibilidades publicitárias do Novo Testamento, e assim nos encostamos a Pilatos quando, com ênfase, queremos saber o que é a verdade.

Com a nossa e a alheia se confecciona a História, o curioso refogado de factos, mentiras e aparências que, segundo o interesse dominante, levianamente muda de sabor e colorido.

Por isso lhe digo que é tempo de ler ou reler a "História de Portugal" e o "Portugal Contemporâneo", de Oliveira Martins, e admirar-se, como eu em permanência me admiro, que desde há tantos séculos sejam diminutas as mudanças de atitude do bom povo português em relação à res publica e aos que a tratam como coisa sua.