terça-feira, novembro 24

Felicidade conjugal

Têm um estabelecimento. Ela aperaltadinha, decotadinha, toda sorrisos, o salto alto quase a eleva ao metro e sessenta. Ele um gigante, tonitruante e faiscante como o Júpiter da Antiguidade.

Entra-se, é ela que atende, mas por mais comezinho que seja o pedido nunca sabe onde a mercadoria está. Sussurra então, como quem revela um segredo:

- Com licença. Vou chamar o meu marido. Ele está no computador!

Repete aquilo dum modo reverente, sacerdotal, com um risinho, rebolando um nadinha os olhos - Ele está no computador! – e desaparece nos fundos por detrás dum cortinado.

Surge o gigante. Enfiada, mais diminuta, a esposa segue-o dois passos atrás. O gigante cumprimenta, sorri, feita a transacção despede-se seco, volta para o corredor, afasta o cortinado e some como por mágica.

O pagamento é com ela, e com o pagamento começam as loas:

- Se o senhor soubesse! O meu marido é duma inteligência! Se não fosse ele... Os computadores, os viajantes, as Finanças, o seguro, o banco... Não há coisa que não saiba. E a fundo! É mesmo de pasmar. Nos concursos da têvê, então, não falha uma resposta. Explica tudo o que vem nos jornais. Às vezes há pessoas...

Nos dez ou mais anos que sou cliente a admiração babosa é sempre idêntica, e em chegando ao ponto de "Às vezes há pessoas" arranjo uma desculpa mal atabalhoada. Se por acaso me sobra paciência e disposição ouço o resto da ladainha:

- Olhe que sou muito feliz. Não é para desfazer de ninguém, mas um homem como o meu marido!...

segunda-feira, novembro 23

Mr. Bean em Vila Real


Vila Real, ontem de manhã. Na espaçosa sala dos pequenos almoços do hotel Miracorgo estão à volta de cento e tal idosos. Uns enfileiram diante da máquina de café, outros assaltam o que há para comer, este e aquele hesita entre fruta e iogurte, lê-se nos olhos o medo do colesterol, da tensão, dos diabetes, do acv.

Observo sem malícia o comportamento do meu semelhante. Sorrio de uma vestida como quem vai em expedição aos Andes. Rio doutra com fatiota de toureiro. Um ancião empurra o vizinho que lhe quer tirar a vez diante do queijo. Alguém grita que não há xícaras. Uma octogenária pergunta se o motorista se chama Fonseca. Uma empregada, cercada de mãos enrugadas e gananciosas, defende a custo o tabuleiro com salsichas.

Entra Mister Bean, apertando nos braços o bebé Bean. Dois passos atrás, Mrs. Bean. Gorducha, óculos, fato de treino azul, mau modo. Ele, incrivelmente parecido com o actor, deve ter como ela uns trinta anos, veste uma espécie de camisola que deixa à mostra uma larga faixa de ventre gordo e peludo. As caretas que faz ao bebé não devem nada às de Rowan Atkinson: esbugalha os olhos, mexe as orelhas, estica a língua, produz grunhidos, franze o nariz, revira os lábios... Com ar ausente, silenciosa, Mrs. Bean ataca um prato cheio, bebe o café em goles demorados. Mr. Bean deposita o bebé na cadeira, levanta-se, tira dum saco uma câmara de vídeo. Filma a mesa, filma o bebé de frente, de lado, em close-up, filma o dorso de Mrs. Bean, filma a sala, os anciãos, as empregadas, a máquina de café, filma-me a mim, uma ou outra mesa vazia, as paredes, o tecto, e finalmente sai para o terraço a filmar o Corgo.

Volta. Senta-se cabisbaixo, parece esquecido do bebé que, inquieto, ele próprio começa a fazer caretas. Mrs. Bean bebe um último gole de café e pega na câmara. Filma a mesa, filma o bebé de frente, de lado, em close-up, filma a cabeça que Mr. Bean apoia agora nas mãos, filma a sala, os anciãos, as empregadas, a máquina de café, filma-me a mim, as paredes, o tecto, e sai para o terraço a filmar o Corgo.

Mr. Bean despertou e enfileira quatro pães. Corta-os em metades, barra-os de manteiga, entremeia-os de sucessivas fatias de queijo e fiambre, fiambre e queijo. Embrulha os pães em guardanapos de papel, amassa-os para diminuir o volume, fá-los desaparecer no saco.

Mrs. Bean regressa. Pega ela no saco e na cadeira, ele no bebé, e saem como estiveram o tempo todo: sem trocar palavra.


Quando lá em casa mostrarem o vídeo apareço eu como Mr. Bean, impassível, me filmou: saudando-o com o dedo médio espetado no ar.

sábado, novembro 21

Vila Real

Vila Real. Vou hoje revisitá-la. Andei por lá em tempos antigos, tenho provas, mas depois bati asas para outras partes. Amores não houve, as amizades perderam-se, dos nomes recordo dois, não faço ideia dos que são vivos ou dos que se despediram. (*)

(Vila Real, Julho de 1949. É para mim que a seta aponta)

(*) Até segunda-feira fica a barca atracada.

sexta-feira, novembro 20

Era família


Um dia alegra-se a gente, no seguinte... Apareceu-nos à porta uns sete anos atrás e ficou, habituada à paz e ao mantimento como quem é de casa. Aos filhos nunca pudemos deitar a conta, eram tanto que não se distinguia se seriam do mesmo berço ou adoptados.

Tempos atrás apareceu-lhe uma mancha no nariz e na nossa ignorância julgávamos que fosse um qualquer arranhão. Era tumor maligno. Remédios não lhe faltaram, mas foram de efeito nulo. Carinhos também recebeu muitos, e quando se soube que era irremediável redobrou-se neles e nos seus pratos preferidos. Mão caridosa e competente deu-lhe esta manhã as duas injecções que terminaram o horrível sofrimento. Era família e assim lhe sentimos a falta.

quinta-feira, novembro 19

Dia alegre lhe desejo


Com a seca as azeitonas tinham encorrilhado como rugas em pele centenária. Depois choveu, elas incharam, as pessoas falam de ouro caído do céu, linguagem semelhante à que usam na Groenlândia quando no mar sobra o bacalhau.

Eu vejo-as com olhos de quem já não faz colheita. Os galhos da oliveira tocam a janela, hoje ao abri-la dei com estas e alegrou-se-me o amanhecer.

A quem por aqui passa, que as horas a vir lhe sejam também de alegria.

quarta-feira, novembro 18

A vila desperta

Oito e meia. Na rua gente tão pouca que se conta pelos dedos, caminhando com o vagar de quem se inventa um afazer. Trôpegos a subir as escadas do Centro de Saúde. Crianças. Duas aqui, uma no outro passeio, três além, vão para a escola numa sem-pressa de reformados. Uma anciã vestida de preto, abraçada a dois repolhos, espera numa ombreira. Uma rapariga segura ainda na mão a nota de dez euros que acabou de tirar do Multibanco. Passa um ou outro carro. Um grupo de bombeiros discute junto de uma ambulância, a luz azul a girar, anunciando uma urgência que as gargalhadas contradizem. Um camião do Matadouro de Miranda parado junto do talho. Um gato branco. Nove menos dez. Na janela de um primeiro andar um braço sacode um pano, e mais adiante, à porta da loja de electrodomésticos, um rapaz descarrega tábuas de engomar. Um homem de fato e gravata, a pasta debaixo do braço num modo antigo, entra no Tribunal. Um aldeão idoso, com uma vara e uma saca pergunta se sei onde mora o senhor Alberto, que antigamente fazia os seguros e trabalhava no Pinto & Sotto Mayor. Desculpo-me e sugiro que pergunte aos taxistas. Um jipe trava na passadeira. O relógio toca as nove. A Caixa vai abrir.

terça-feira, novembro 17

Tempestade


Chuva forte aqui nos montes nunca assustou, mas preparos de dilúvio, com trovões, relâmpagos, e nas entranhas da terra um ribombar de locomotiva em crescendo fortissimo, às quatro da manhã a aldeia acordou. Escuro de breu, porque a luz tinha "caído", mas ao contrário de antigamente nenhum grito de medo, nenhuma invocação ao Altíssimo, só um ou outro "Ai Jesus!", aqui e além uma cabeça a espreitar.

De manhã a água não tinha ainda escoado. Alguém disse que se tivéssemos barcos e a rua fosse plana tinha sido como se vê às vezes nas notícias. Acenámos que sim, e por um instante imaginámo-nos a ser entrevistados para a TV, apontando paredes caídas, telhados danificados, os buracos que a enxurrada teria aberto na rua. Falou-se depois do temeroso e inexplicável ribombar. Um tinha quase a certeza de que fora avião a voar baixo. Outro, com mais certeza, porque já tinha visto disso em África, garantiu que era o barulho duma tromba de água. Mais modesto, um terceiro alvitrou que o vento às vezes...

Por volta da hora do almoço o céu apareceu azul, o sol brilhava forte, eu ia a passar quando o senhor Zacarias me chamou com um aceno. De manhã tinha ouvido a conversa e queria-me uma fala:

- São uns tontos! Julgam que as chuvas e as trovoadas aparecem sem mais nem menos. Se passassem as noites como eu a olhar para a serra haviam de ver coisas que nem acreditavam. Mas não adianta. Para eles só televisão, a televisão é que é.